Sociedade

Encantos e Mistérios da Amazónia

por Clarissa Sampaio Silva

O ano de 2020 iniciou-se para mim com um peculiar toque de brasilidade, proporcionado por alguns dias de visita à região amazônica, cujo esplendor seduz de imediato, sem qualquer chance de escape, e permanece retido nas memórias de quem por lá se aventurou.

A começar por Manaus, capital do Estado do Amazonas, onde desponta o teatro com seu mesmo nome, com seus 124 ( cento e vinte e quatro) anos de história e que constitui signo de um passado glorioso  pelas riquezas trazidas pelos seringais da região. Nele chamam a atenção: a Sala de Espetáculos, no qual o pano de boca, que sobe e desce por inteiro, representa a vitória da república sobre a monarquia e o Salão Nobre, com espelhos, imponentes lustres, piso de madeira marchetado, no melhor estilo europeu da época, a contrastar com da pintura representativa da ópera O Guarani, de Carlos Gomes, do momento em que o índio Peri traz em seus braços a raptada Ceci, personagens do romance homônimo do autor cearense José de Alencar.[1] Há um misto perturbador, pois, do requinte com o estado de natureza.   

O percurso para a hospedagem no meio da floresta requer algumas horas de barco, absolutamente compensadas por propiciar  a visão do encontro das águas entre os Rios Negro e Solimões,[2] no qual elas não se misturam, por mais de 6 (seis) quilômetros, permanecendo inalteradas em seus matizes originais (de chá preto, no primeiro caso, e de  café com leite, no segundo), por razões ligadas à velocidade da água, temperatura, grau de alcalinidade. Os rios possuem vidas que “andam juntas”, como na música do Chico Buarque, cada um preservando a própria identidade, até que, quando “resolvem”[3] se juntar, formam, nada mais, nada menos, do que o Rio Amazonas!

As águas, agem, pois, caprichosamente, como os álcalis e ácidos, pois “embora sejam opostos e talvez justamente por isso, procuram-se e agregam-se da maneira mais decidida, modificando-se e formando juntos um novo corpo”,  como explica Goethe, em seu Afinidades Eletivas.[4]

Quando rio e floresta cercam por todos os lados, nada como contar com os saberes de quem possui familiaridade com aquele ambiente cheio de poder e mistérios, passando, generosamente, a desvendá-los para o curioso grupo de turistas, no qual se encontrava a narradora. E, assim, o guia local apresenta a imensa riqueza verde, composta por árvores centenárias  (uma castanheira, de mais de duzentos anos ), e outras tantas, com nomes que evocam a forte presença dos primeiros habitantes da região, tais como: Apuí, Paxiúba ( cujas raízes deslocam-se), Breu, Pau-rosa,  Cipó dágua, Kunambi ( venenosa) Caferão ( a mais alta de todas). A comparação, por sua vez, entre a floresta primária e a secundária ( surgida após desmatamento), traz a imediata percepção da intervenção humana danosa, pois nem as espécies e nem a densidade da mata são as mesmas.

Ah, não posso deixar de mencionar os igapés (floresta dentro da água), com seus canais venezianos, para cujo percurso não há equipamento eletrônico que dê jeito, sendo imprescindível, mais uma vez, contar com quem conhece o local! A cada novo canal, um mais bonito ainda… Nada se repetia.

A beleza animal aparece ao longo do  passeio de barco pelo rio: a garça, com sua elegância imóvel; os botos e seus fugazes aparecimentos, para os quais  só se pode mesmo contar com a sorte, como, aliás, para tantas coisas na vida; os gaviões, a fazerem  suas demonstrações de vôos.

Para além do Belo, é preciso falar da, de certa forma prazerosa, sensação de medo ( por se estar a salvo, no barco!) provocada pelo contato com o filhote de jacaré, devidamente imobilizado por nosso hábil guia, no passeio realizado durante a noite, em que a mais absoluta escuridão é entrecortada, apenas, pela luz da lanterna, responsável por identificar os olhos do perigoso animal. As piranhas ( espécie de peixe, com dentes bastante afiados), também ajudam a compor o cenário de aventura! Fisgá-las, durante o dia, torna-se diversão para todas as idades, a ser conduzida com os devidos cuidados.

Outras lembranças permanecem gravadas na alma e nos sentidos: a imperturbável paz da noite e a sensação de se estar nos braços da natureza; a convidativa temperatura do lago ao pé da hospedaria, cujos mergulhos são irrecusáveis; o descanso no redário ( as redes são um costume indígena incorporados à cultura brasileira); o sabor apurado da costela de tambaqui e do pirarucu( peixes de água doce).

Além de todos os encantos da natureza impressionou-me sobremaneira a dignidade presente na vida simples do caboclo ( natural da região), a viver do cultivo da mandioca e de sua manufatura, transformação, pois de uma commoditie, para usar expressão atual; a residência, sobre palafitas e a delicadeza da mulherdo casal, a oferecer água a todos para apaziguar o forte calor, sem deixar de mencionar o barco da família ( meio de transporte mais utilizado na região), a trazer o nome da linda filha, Tayane.

As rápidas descrições aqui feitas procuram revelar um mundo absolutamente mágico, diverso, desconhecido ( para a grande maioria dos brasileiros, infelizmente) e, ao mesmo tempo poderoso e indefeso. Um relicário vivo e que requer urgente proteção. Utilizarei, sobre a Amazônia a observação de um certo coronel que lá viveu: “é preciso sentí-la.

Dedico o presente texto a Chico Mendes, seringueiro, ativista político e ambiental,  assassinado em Xapuri ( Acre), em dezembro de 1998, por lutar pela preservação da Floresta Amazônica.

(imagens da autora)


[1] Iniciou-se com esse romance, publicado em 1857, a trilogia indigenista do autor, completada com os romances Iracema ( 1865) e Ubirajara ( 1874)

[2] www.editoramagister.com › doutrina_27090475_O_ENCONTRO_DAS ÁGUAS

[3]   Mil Perdões: letra e música de Chico Buarque de Holanda.

[4]  As Afinidades Eletivas. São Paulo: ed. Nova Alexandria,  1992, p. 45.