Música

Banda Sonora Nada Original

por Pedro Faria

Sentam-se, quase colados, aproximam-se do telefone que ela segura exatamente no meio dos dois, onde as pernas e os ombros se tocam, e cada um fica com a ponta de um auricular. Sem uma palavra, concentrados, acabam por encostar as cabeças e ficam ali, alheados do mundo.

É o amor, estúpido: Here I go, / Falling down, down, down, / My mind is a blank, / My head is spinning around and around, / As I go deep into the funnel of love, cantava a primeira e única rainha do rockabilly, Wanda Jackson, em 1961. A mesma que em Fujiyama Mama, de 1957, ameaçava com alguma falta de sensibilidade, mas com um ritmo de levantar os mortos da tumba, I’ve been to Nagasaki, Hiroshima too! The things I did to them baby, I can do to you! Cause I’m a Fujiyama Mama and I’m just about to blow my top!

Seja como for, a versão de 2003 de Funnel of Love, em que Jackson canta, com a voz já ligeiramente mais frágil, acolitada pelos The Cramps, é um dos meus clássicos pessoais de sempre, muito utilizado como banda sonora para tarefas domésticas monótonas. Aqueles acordes sincopados levam-me a qualquer lado.

Em 1985, nasce em Oviedo Rodrigo Cuevas González, de seu nome artístico Rodrigo Cuevas, cantor, compositor, acordeonista e percussionista, autointitulado agitador folclórico e artista total.

Cuevas, um dos atuais quinze moradores da povoação de Vegarrionda, nas Astúrias, é o doppelgänger do etnomusicólogo Michel Giacometti: onde este procurou registar e preservar a música tradicional portuguesa, aquele desconstrói e refaz o folclore local, tornando-o a estrutura matricial e identitária da sua música, mas sem qualquer pudor em contaminá-la com as marcas do tempo em que vive.

No EP de 2016, Prince of Verdicio, o recurso provocador a sons do estilo pop mais plebeu e imediato, (na música Verdiciu usa a linha sintética, imediatamente identificável, desse mimo que a década de 90 produziu, Ritmo de La Noche: Tienes el ritmu / Ritmu de Verdiciu / Ritmu, ritmu de Verdiciu) é desconcertante e uma clara provocação. A música El Toro Barroso, que rouba alguma coisa aos Moloko, começa com uma voz feminina, plebeia e madura, que recita “Por dormir entre piernas blancas y coño hermoso, le he dao muerte al toro barroso”. Prince of Verdicio, no entanto, assenta mais na contraposição irónica das melodias folk, reduzidas à sua parte vocal, com os ritmos dançáveis numa qualquer discoteca de província. Um camp niilista, divertido mas inconsequente.

Em Manual de Cortejo, de dezembro de 2019, Rodrigo Cuevas e Raül Refree, músico que, entre muitas outras coisas relevantes, produziu Los Angeles, o primeiro trabalho de estúdio de Rosalia, o folclore eletrifica-se e acende-se: a voz é consumida por distorções e ampliações, a percussão tradicional é depurada, replicada ou suprimida, e são acrescentadas camadas de ruídos cuidadosamente escolhidos e manipulados.

As músicas são construídas à volta das palavras e da voz de Cuevas, trovador de histórias antigas que sobrevivem na medida em que alguém as narra e outro as ouve, veículo dos conselhos das velhas, indagador do “xusto nome de cada cosa” (Namás S’acaba Lo Que Nun Se Cunta).

A música abre-se ao tempo e à ironia, o folclore deixa-se tomar por coplas digitais, redondas nas rimas fáceis, emocionais nos trinos suplicantes, por vezes assombradas pela batida das bravas Adufeiras de Salitre (Muerte en Motilleja), outras por violinos em cinemascope e pelo fantasma de Sara Montiel (El Dia Que Naci Yo); deixa-se pontuar por declamações que são uma lengalenga próxima do rap, por gritos suspirados, sobrepostos entre a raiva e o gozo (Arboleda Bien Plantada); acolhe sintetizadores repetitivos, numa linha incompleta e suave de tecno, amparada por pandeiretas medievais (Ronda de Robledo de Sanabria); contenta-se com uma teia elementar de cordas e sons gravemente guturais de gestação eletrónica (Tengo de Xubir al Puerto) ou serve um banquete de percussões variadas em loop contido (Xiringüelu ).

As canções falam da morte e do amor (que mais há para falar?) com um lirismo imediato, abusando das metáforas que usam a terra, o céu, as árvores e os rios ou recorrendo à interpelação direta do objeto do interesse amoroso. Há por vezes um registo de oração, de lengalenga suplicante ou lamentosa, que faz lembrar as canções de trabalho; outras vezes um humor desconcertante e provocador (“Era maricón de nacimiento, una cosa mítica em Xixon”), que reflete a exuberância camp com que Cuevas se apresenta em público.

Em asturiano, que soa como uma transição do galego para o castelhano, Rodrigo Cuevas presta homenagem ao tempo que não passa, ao lastro dos séculos que alicerçam uma cultura milenar, que atrevidamente traz para as ruas das cidades efémeras.

Paulatinamente Moses Sumney vai libertando as músicas do próximo álbum, a lançar em duas partes: a primeira em fevereiro e a segunda em maio deste ano.

Depois de Virile e de Polly (até agora a minha preferida: a guitarra acústica e a voz cansada a arrastar-se numa maré da mais desarmante ternura), a 6 de janeiro saiu Me in 20 Years.

Sumney, preso na perda de um amor que já não é (a viver num janeiro interminável, diz), um amor a que não sabe se vai sobreviver, ensaia projetar-se vinte anos no futuro: Hey me in twenty years, / Does your milk still / Turn to rot too soon? /Do you still hoard souvenirs / And make them mirrors / Of sentimental veneer?

A música começa mansa, acordes simples e pontuais de piano sintético, um fundo eletrónico continuo, uma harpa que é quase intuída, o monólogo interior angustiado mas tranquilo. Progressivamente, a angústia cresce e é acentuada pelo magnifico falsetto de Sumney, pela guitarra, pela percussão e pelos coros que acabam por se fundir numa súplica: a little bit more, just a little more.

O paradoxo do amor que acaba é a voracidade do vazio que o substitui, como se nada da imensidão que foi, que tomou e tingiu as células do corpo, ficasse.

Hey, after all these years, / I’m still here, Fingers outstretched, / With your imprint in my bed, / A pit so big I lay on the edge, / Will love let me down again?

Moses Sumney é exímio a cantar sobre os amores que acabam. A música que ele faz é extraordinária.