Sociedade

Será o Futuro Elétrico?

por Manuel Nunes

Aparentemente de resposta evidente, esta é talvez uma das perguntas que, entre amigos, mais divide opiniões. Há os que, como que enfeitiçados pelo génio de Musk[1], não hesitam em responder afirmativamente, os que, pelo contrário, não chegam a considerar essa hipótese e, por fim, aqueles que, por motivos vários, se incluem nos nem-nem. Na verdade, em todos os grupos há sempre um nem-nem.

Tão pouco, não é difícil dar de caras com artigos jornalísticos profundamente discordantes e mesmo bibliograficamente ambíguos. Encontramos tanto os que nos presenteiam com “10 Razões para Comprar um Carro Elétrico em 2019”, e nos impelem a encomendar o Tesla Cybertruck, como outros que nos refreiam este impulso excêntrico e desafetadamente nos fazem optar por um Honda Jazz de 2006.

Como tudo na vida, estou em crer que a resposta está algures entre estes dois polos. Desta feita, pretendo desmistificar, quer para o leitor, quer para mim próprio, algumas das implicações associadas à introdução do veículo elétrico (VE) nas estradas. Para tal, proponho-me realizar uma breve e, tanto quanto possível, imparcial pesquisa em torno desta temática. Apresentarei, assim, algumas das muitas variáveis a ter em conta, caso esteja indeciso entre optar pelo eletrão.

Viabilidade Económica

Ora, em Portugal e no ano de 2019, venderam-se 262,489 veículos ligeiros e, desses, 7,096 correspondem a VEs, perfazendo 2.7% do total. Na tentativa de perceber o porquê destes valores, podemos ter em conta um levantamento realizado nos E.U.A que apresenta os três motivos preponderantes para esta tímida adesão. São eles: a distância percorrida com apenas uma carga, o preço de compra e, ainda, a existência de carregadores em número insuficiente.

Efetivamente, segundo a consultora McKinsey & Company, existe uma disparidade de custo entre VEs e veículos a combustão (VC) na ordem dos $12,000, sendo que esta diferença se deve principalmente aos valores associados à produção da bateria. A amortização desta mesma quantia é, então, vista como o fator primordial que levará a uma adoção em massa de VEs, até agora destinada a consumidores premium.

Ainda neste seguimento, e segundo um artigo no The Washigton Post, vários líderes de indústria admitem que a solução para a adoção em larga escala de VEs passa pela obtenção da igualdade no custo de propriedade de um VE por comparação a um VC, corroborando assim o relatório anterior. É ainda reiterado que, para além do custo de propriedade, os outros fatores a ter em conta incluem o aumento da capacidade da bateria e a diminuição dos tempos de carregamento.

Não obstante, e segundo as mesmas fontes, é esperada uma redução total ou parcial da diferença de custo nos próximos 5 a 10 anos, caso se verifiquem avanços na tecnologia utilizada, aliados a diversos incentivos governamentais.

Por enquanto, no que se refere exclusivamente à viabilidade económica, e salvo situações pontuais, o veículo a combustão continua a ser melhor opção.

Viabilidade Ambiental

Mudando de argumento, e tendo em consideração a questão ambiental, a introdução dos veículos totalmente elétricos levará, naturalmente, a uma diminuição dos níveis de poluição em centros urbanos, algo que francamente é do interesse de todos. Em contrapartida, é preciso perceber quais os recursos utilizados na produção da eletricidade usada no carregamento, bem como as emissões associadas à produção das baterias e locais onde essa mesma produção ocorre.

Em 2019, e segundo os dados da REN, Portugal registou um consumo elétrico de origem renovável verdadeiramente histórico, na ordem dos 51%.

Este é um dos principais argumentos a favor da utilização de VEs, suportando assim um estudo realizado a nível Europeu pela organização sem fins lucrativos ICCT. Neste estudo, foi feita uma revisão da alguma literatura científica existente entre 2011 e 2017, e concluiu-se que, em média, um motor elétrico movido a eletricidade de origem europeia emite 30% menos gases poluentes, mesmo quando comparado com um motor a combustão de alta eficiência.

Por outro lado, tendo em consideração o impacto ambiental da produção da bateria, os resultados variam consoante o tipo de infraestrutura e técnica utilizada. Segundo um artigo científico que compara as emissões de CO2 ao produzir um VE e um VC na China, conclui-se que a produção integral de um VE liberta aproximadamente 14.6 t de CO2, enquanto que a de um VC liberta 9.2 t, representando assim uma diferença de 59%. O mesmo estudo conclui que a produção de baterias de iões de lítio na China apresenta o triplo das emissões poluentes comparativamente às registadas nos E.U.A. ou na Europa (1.1 t), em grande parte devido ao tipo de técnica utilizada.

Estas até poderiam ser excelentes notícias, não fosse o mercado das baterias de VEs dominado pela China, com 46 das 70 gigafactories de baterias por lá sediadas. Já na Europa, não existe, por enquanto, uma estratégia industrial coerente com o intuito de atrair fabricantes de baterias em massa, o que resulta numa política de investimento maioritariamente externa.

Previsão

Se, por um lado, pode parecer que, nos dias de hoje, optar por um veículo totalmente elétrico não seja a melhor opção, por outro, há motivos de esperança para os “e-entusiastas”.

Segundo o relatório global para 2019 da IEA, existe um interesse (leia-se investimento) cada vez maior por parte das agências governamentais em acelerar o desenvolvimento e implementação dos VEs em massa. Este traduz-se em incentivos fiscais, quer para o utilizador, quer para o fabricante, medidas regulatórias que aumentem a proposta de valor dos elétricos, apoio financeiro à investigação e desincentivos à utilização do VC.

Por sua vez, o setor privado está a responder proativamente, sendo este um esforço conjunto entre a indústria automóvel – principais marcas interessadas em produzir VEs – e a indústria energética – melhoria da infraestrutura elétrica com vista a suportar o aumento esperado de VEs.

Em jeito de conclusão e de forma despretensiosa, reencaminho o leitor para a questão inicial: “Será o futuro elétrico?” Aparentemente de resposta simples, esta reveste-se de uma complexidade dicotómica que está longe de ser consensual, dado o elevado número de variáveis a ter em conta e a correlação das mesmas. Ainda assim, espero ter contribuído com alguns tópicos de reflexão que possam ajudar o leitor a fundamentar a sua posição sobre este assunto.

(Imagem de https://pixabay.com)


[1] Elon Musk – empreendedor e visionário, figura altamente mediática nos dias de hoje. Entre outros, é o CEO da Tesla Motors e da SpaceX.


Manuel Nunes nas suas próprias palavras:

Nasci em Lisboa, 1995 e sou engenheiro. Apaixonado por tecnologia e energia, bem como por pessoas e pela sua história.