No radar

A luz de Pequim, de Francisco José Viegas

por Fernando M.*

Na Literatura, como em tantos outros aspetos da vida humana, há sempre quem olhe de soslaio para manifestações artísticas, pedantemente, apelidadas de menores.

O policial, seja ele sob a forma de conto, novela ou romance, é disso exemplo modelar, pois muita intelligentsia apouca a narrativa ficcional que tem no seu centro o crime, os seus autores e os meandros da investigação.

Tal, suponho, esteja, por um lado, relacionado com o tema criminal que devido à sua sordidez não deveria ser elevado à forma de arte; mantendo-se confinado aos pasquins, que dias depois apenas servem de invólucro ao que se vende no mercado ou na feira.

Por outro lado, estou em crer que este azedume com o género se prende também com a sua popularidade.

É público e notório que uma certa elite desdenha do gosto da maioria. Se é popular então é porque, certamente, não será grande coisa. São os dramas do mainstream!

No que me diz respeito, orgulhosamente confesso-me do crime. Pertenço ao vulgo que encontra no policial espaço para um certo escapismo e, ao mesmo tempo, desafio para as pequenas células cinzentas, num jogo intrincado de pistas e suspeitos, em busca da solução.

Comecei lá atrás na velhinha Coleção Vampiro e sob a pena de Conan Doyle foi-me apresentado Sherlock Holmes e a sua capacidade dedutiva. Pouco depois iniciei-me nas histórias de Poirot e Miss Marple, produtos do espírito da sabiamente denominada Rainha do Crime Agatha Christie, que me encheram as medidas quer seja em Londres, a bordo do Expresso Oriente ou na paróquia de St. Mary Mead.

Desde então muitos outros se seguiram, de diferentes estilos e proveniências.

O Comissário Maigret, Kurt Wallander, o Padre Brown, Kay Scarpetta, Erica Falck ou Javier Falcón são alguns dos muitos “detetives” que acompanhei meticulosamente em investigações criminais, mais ou menos complexas, de Inglaterra à Suécia, passando por Paris ou Sevilha até ao continente americano.

Se é verdade que, em regra, todos apresentam em comum uma certa sagacidade, decorrente de uma elevada capacidade de observação do outro e da sua envolvente, não é menos certo que as personagens que mais perduram são aquelas que, além daquelas características, aportam uma humanidade própria, plena de idiossincrasias, fruto da sua história e, também, da sua geografia.

São inolvidáveis o bigode empertigado do expatriado belga Poirot, que tem nas suas células cinzentas o maior trunfo perante um povo a que não pertence, ou a tendência coscuvilheira da solteirona Jane Marple, que entre scones e chás das cinco tudo vê e sabe.

Por outro lado, é impossível dissociar o Comissário Maigret da sua Paris, Wallander de Ystad ou Falcón das sinuosas ruas sevilhanas. A geografia dos espaços salienta o carácter dos personagens, funcionando umas vezes como contraste, outras tantas como reflexo.

Ora, o Porto também tem o seu detetive, o seu inspetor: Jaime Ramos de seu nome.

Nascido no início dos anos 90, pela mão de Francisco José Viegas, o inspetor da PJ Jaime Ramos ocupa, desde então e por mérito próprio, o papel de protagonista no romance policial português.

De facto, com exceção, talvez, dos romances que Dinis Machado escreveu à sombra de um pseudónimo – Dennis McShade – nenhum outro autor contemporâneo nacional enveredou, sem pejo, pelo tortuoso caminho da literatura maldita: o romance policial.

Mas, Francisco José Viegas não só cultivou o género, como o suplantou, ao fazer do crime, muitas vezes, mero pretexto para retratar com pormenor uma cidade que desaparece ao ritmo da gentrificação e as suas gentes.

“A Luz de Pequim” é o nono romance de Jaime Ramos e… talvez o seu último. Será?

A partir de um corpo pendurado dos pilares da ponte D. Luís, no Porto, somos levados pelo inspetor da PJ, responsável pela secção de homicídios, a entrar no submundo portuense de homens do tamanho de armários, de alcunhas peculiares, que alternam entre encher ferro e vender crack aos ainda mais incautos.

De interrogatório em interrogatório, Jaime Ramos vai desenhando uma geografia de pessoas perdidas, que se descobrem entre si, formando uma família que renega o sangue e valoriza a amizade criada nas ruas, criada à margem.

Nesta demanda pela verdade outros crimes surgem, enquanto encontramos pais abandonados pelos filhos e pela esperança, o flagelo da droga tatuado na pele das gentes ou velhos comunistas à espera da morte.

Jaime Ramos é encurralado pelos pecados do passado, que o apertam, pelas memórias de um Porto que desaparece ao ritmo da abertura de hostels, por mulheres amadas, perdidas e achadas, por bibliotecas à procura de um dono, pela própria consciência ou por uma organização profissional que o esmaga, numa encruzilhada entre o que foi e o que há de ser.

No meio disto tudo, Francisco José Viegas conjuga o Porto em todas as suas declinações. Nas páginas encontramos um pantagruel de receitas durienses, referências a restaurantes ou tascas do Porto, que nos fazem salivar por mais e servem de atestado que criatura e criador são adeptos da boa mesa. 

Ao fundo o Douro serve de cenário à ação, mesmo quando, por momentos, nos afastamos da cidade. Ele está lá: luzidio e sibilino.

As referências geográficas sucedem-se, como se o Autor pretendesse criar um atlas literário de uma cidade que existiu e parece hoje estar perdida irreparavelmente.

Do Porto ao Brasil, do Brasil à China, a viagem literária apresenta-se intensa e vibrante, carregada de substantivos que enriquecem a narrativa e nos recordam da importância da palavra.

Para os iniciados importa advertir que este policial não é canónico, na medida em que não segue linearmente o cometimento de um crime, a sua investigação e, last but not the least, a revelação do culpado e seu aprisionamento.

Este policial, que não renega o género, é um romance sobre um homem melancólico, que por acaso é PJ, e que numa fase final da vida, enquanto investiga crimes/desaparecimentos, vê erguerem-se fantasmas de campas entreabertas, que o atormentam e fazem questionar sobre a bondade do seu caminho.

Este romance é Literatura. E, certamente, por isso não pode deixar de ser lido.


“A Luz de Pequim”, de Francisco José Viegas

Porto Editora, outubro de 2019


* Sobre Fernando M:
“Sou dos livros, dos filmes, do Teatro, da mesa e das esplanadas nos dias de Sol”.