Sociedade

A palavra dos outros: António Soares

por Maria Leonor Duarte (revisto por Joana João)*

(António Soares, Feno de Portugal, c. 1933. Colecção da Família de António e de Américo Soares)

Antes de introduzir o artista que é o tema deste texto, peço aos leitores da Epulata que façam um rápida pesquisa no Google, como imagino que a maior parte das pessoas fazem quando se deparam com um nome ou um tópico que não conhecem. Pesquisem: António Soares.

Os resultados deixam muito a desejar, com uma mistura entre António Soares (pintor e ilustrador do século XX), António Soares (ilustrador de moda), António Soares (futebolista) e entre muitos outros Antónios Soares (perfis do Facebook e outras páginas). Mesmo na secção das imagens, os primeiros dois homónimos dividem o espaço e dificultam uma pesquisa focada.

Não obstante, uma das primeiras imagens que aparecem é sem dúvida a pintura associada ao nome de Soares: Natacha, de 1928, um retrato da famosa bailarina russa, reconhecido por historiadores como José Augusto França e exposto no Museu Calouste Gulbenkian. Duas outras obras também reconhecidas são Retrato de Maria de Mello Breyner, de 1932, e Retrato da irmã do artista, de 1936 (não confundir este último com um outro quadro de 1937 que, segundo a Gulbenkian, é também um retrato da irmã de Soares mas, na realidade, retrata a sua mulher).

Para além da informação dada por este museu, o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado proporciona ainda outros dados, pinturas e esboços da autoria de Soares. O que ambos têm em comum é o facto de se focarem na carreira de Soares como pintor, nas principais obras, nos prémios que ganhou, onde exibiu e ainda uma breve descrição do seu estilo artístico como parte da primeira geração de modernistas.

Assim, pareceu-me que essa informação não é pertinente para este artigo, porque se encontra disponível em dois cliques e poucos segundos. O que me interessa a mim e, oxalá também aos leitores, é todo o conhecimento que não está disponível e que vai para além destas fontes superficiais.

Este ano completei o meu mestrado em História de Arte, e a minha tese focou-se precisamente em António Soares e no seu trabalho que não está necessariamente disponível, que praticamente ainda não foi estudado ou devidamente apresentado ao público.

Assim, foquei-me no trabalho de design gráfico realizado nas décadas de 1930 e 1950, em colaboração com duas companhias portuguesas.

O conhecimento de que Soares foi também proeminente neste sector não é necessariamente fácil de adquirir a partir de uma pesquisa no Google mas, surpreendentemente, é mencionado na Wikipédia. Isto é, o autor do artigo refere maioritariamente o trabalho realizado para a revista Ilustração Portuguesa durante o seu período modernista, mas dá também a entender que a carreira artística de Soares ia muito além da pintura.

Um bom ponto de partida, a Wikipédia usa como referência principal o trabalho de José Augusto França, considerado um dos principais historiadores no que toca a arte do século XX. O seu livro inclui algumas páginas exclusivamente dedicadas a Soares, uma pequena biografia do artista que, apesar de mais elaborada, acaba por não se focar nesta parte da sua carreira. No entanto, Soares é momentaneamente caracterizado como artista publicitário.

Voltando à Internet, as últimas fontes de informação que quero introduzir são as mais importantes no que toca ao design gráfico de Soares, e sem dúvida as que me permitiram avançar com o tema da minha tese. A página e o blogue Mestre António Soares são exclusivamente dedicadas ao artista, incluindo uma biografia, bibliografia, pinturas, ilustrações e ainda a localização destas obras em coleções. Mas, mais importante, a página inclui uma secção dedicada ao design gráfico.

Apesar de apenas indicar o nome de algumas das companhias com as quais Soares colaborou, é um reconhecimento da importância deste trabalho. O blogue elabora de uma forma mais concisa as várias intervenções do artista, incluindo imagens dos produtos realizados. Adicionalmente, a entrada ligada à exposição ‘Olhares’, realizada em 2014/2015 na Fundação Escultor José Rodrigues, inclui um cronograma completo que, mais uma vez, comprova a colaboração de Soares com companhias.

A pessoa por detrás destas duas páginas é Ana Ornellas, a sobrinha do pintor, armada com a ‘Coleção da Família de António e de Américo Soares’, um imenso arquivo familiar começado pelo irmão do artista. O inventário compreende milhares de peças, desde pinturas originais a cópias, rascunhos, e até correspondência, todo este material deixado pelo artista.

Apesar de este não se encontrar disponível pela Internet, o blogue e a página são a ponta do iceberg que, por agora, contribuem para a divulgação da intervenção artística de Soares em vários sectores. O volume da coleção, e particularmente a quantidade de material dedicado à parte de design gráfico, revela toda uma história e uma dedicação que não transparece de outra maneira.

No entanto, existe uma dúvida no que toca ao valor deste trabalho, especialmente ligada ao mundo artístico dos anos 20, altura em que Soares começa a trabalhar neste sector. A falta de apoio e o ambiente estagnado desta década levou vários artistas a procurarem trabalhos de ilustrações em revistas, jornais e livros como uma segunda fonte de rendimento. Esta tendência criou verdadeiras obras de arte, incluindo as mencionadas capas da revista Ilustração Portuguesa sob a direção de António Ferro.

Assim nasceu a noção de que muitos artistas só aceitaram este tipo de trabalho por necessidade. Sem dúvida muitos críticos e historiadores consideravam esta arte como secundária e inferior. Porém, a maneira de encarar este material deve ser diferente, porque na realidade muitos artistas dedicavam-se a ilustrações e a este sector por várias razoes, e não apenas pela remuneração monetária. O termo ‘arte secundária’ levanta dúvidas sobre o valor do design gráfico de Soares, mas estas cedem face ao peso do material encontrado no inventário da família, não só pela quantidade, mas também pela qualidade das peças.

Uma das mais extensivas colaborações ocorreu durante a década de 30, quando Soares trabalhou para a Fábrica Santa Clara. Esta companhia situava-se em Lisboa e dedicava-se a produtos de higiene e beleza, incluindo o famoso Feno de Portugal. A correspondência e o material indicam que Soares começou esta colaboração em 1932/33, focando-se numa renovação da imagem da empresa.

A intervenção de Soares compreendeu vários sectores, desde a tipografia ao logótipo e ainda produtos e respetivos anúncios. A embalagem criada para o sabonete Feno de Portugal é uma das que melhor representa o seu estilo, revelando uma influência do estilo art déco através do uso de linhas e volumes ortogonais. O ritmo criado pela tipografia enche o espaço, e a composição é equilibrada pelo resto dos elementos, mas existe uma simplicidade na escolha destes componentes.

Os anúncios, que podem ser encontrados em algumas das revistas disponíveis na Hemeroteca Digital, corroboram uma continuação deste estilo (apesar da embalagem representada ser uma versão anterior, de autor desconhecido). A característica mais evidente é a construção de uma composição onde o produto ‘fala por si’. Todos os elementos funcionam em função da imagem do sabonete, que é o componente principal, e o anúncio acaba por funcionar como um ‘retrato’ do produto. Assim, a publicidade criada por Soares destacava-se e interrompia a semiótica convencional destas páginas de revistas.

Esta atenção aos elementos da composição é uma clara prioridade de Soares, presente também no material preparatório que enche a maior parte dos dossiers do arquivo familiar. O texto, por exemplo, é sempre reduzido ao mínimo, e a forma criada pelas letras e a tipografia em si eram mais importantes do que o conteúdo.

Esta embalagem, os anúncios e o material preparatório são confirmações visuais do argumento de que há algo formalmente inovador no trabalho de Soares. Consequentemente, evidenciam também o valor do seu design gráfico.

Uma análise profunda e detalhada deste valor seria impossível de realizar neste pequeno texto, mas o que é importante reter do exemplo da embalagem do Feno de Portugal é que da parte de Soares existiu uma verdadeira dedicação e um ‘carinho’ pelo design gráfico.

O arquivo familiar demonstra este afeto, pois contém todo, mesmo todo, o material relacionado com esta colaboração(incluindo pedaços de papel rasgados com esboços quase ilegíveis). A caracterização do trabalho realizado para a Fábrica Santa Clara como ‘secundário’ é depreciativa e nega o reconhecimento que o material pede e que artistas como Soares merecem.

Este reconhecimento na sua totalidade também seria impossível de realizar neste texto, mas esta introdução aos leitores da Epulata é um meio de apresentar o artista de um modo diferente, separado de Natacha e dos retratos com os quais é constantemente associado. O esforço de Ana Ornellas em divulgar esta forma de compreender Soares é importante, até porque o artista acaba por ser um entre muitos outros que, de uma maneira geral, são reduzidos a poucas obras de arte.

A pesquisa inicial no Google acaba por revelar a superficialidade com que vários artistas são muitas vezes vistos, e como é importante divulgar e aprofundar esta perceção.

(Diário da Manhã, página 14, 12 May, 1933. Hemeroteca Digital)


*Maria Leonor Duarte nas suas próprias palavras:

Nasci e cresci em Lisboa, mas dei um salto para Inglaterra para estudar. Quatros anos, uma licenciatura e um mestrado em história de arte depois, cá continuo. Gosto de arte do século XX, de dança, de teorias da conspiração e de descobrir coisas novas.

Joana João nas suas próprias palavras:

Nascida em 1996 em Lisboa, estudante de história de arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Lisboa. Para além de arte, interessa-se por cinema e moda. É modesta, mas faz o melhor arroz de polvo do mundo.