No radar

Estreia esta quinta-feira no nosso país J’accuse de Roman Polanski, com o título O oficial e o espião. Apresentado em Veneza no ano passado o filme tem sido recebido de forma entusiástica por toda a Europa. As polémicas que envolvem o realizador não devem toldar a importância deste filme que nos traz o Caso Dreyfus, um episódio da história francesa cuja importância transcende aquele país e o tempo em que ocorreu.

Alfred Dreyfus era um oficial do exército francês que foi acusado de espionagem e traição. Num ambiente de antissemitismo, foi julgado e condenado a prisão perpétua, naquele que tem sido apresentado como um exemplo histórico de erro judicial. A França dividiu-se, com visões extremadas da opinião pública, claramente cindida em duas barricadas. Os que sustentavam a culpa de Dreyfus e os que defendiam que o mesmo era inocente e apenas tinha sido condenado por ser judeu.

 A imprensa teve um papel essencial neste caso, sendo abundantes os artigos e panfletos apoiando a condenação e considerando-a uma vergonha. Entre os indignados estava Emílio Zola, o grande nome do naturalismo europeu. Zola tem uma vasta obra, onde pontificam romances como O germinal (o seu retrato cru do operariado conseguiu irritar quer os burgueses, quer os revolucionários) e A obra (onde a sua amizade de infância com Paul Cézanne se perdeu depois de este ter ficado convencido de que era o modelo do pintor tão brilhante quanto egoísta ali retratado). Mas, para além de uma prolífica obra literária, Zola era também jornalista (foi um dos primeiros defensores dos impressionistas). E é nessa qualidade que escreve no jornal L’Aurore, o libelo J’acuse. Dirigido ao Presidente francês, o texto põe em relevo a actuação antissemitista do governo, sustentando que é apenas ela, e não provas concretas, o que sustenta a condenação de Dreyfus.

 Pela ousadia de defender em público a sua convicção, Zola foi também ele julgado e condenado, tendo fugido para Inglaterra, regressando a França anos mais tarde (em 1899). Ainda assim, teve melhor sorte do que Dreyfus que teve de esperar até 1906 para ser reabilitado, recebendo a Legião de Honra e sendo então integrado no exército.

O recordar deste caso alerta-nos para os perigos da pressão da opinião pública e de uma imprensa irresponsável em sociedades onde emoções como o medo e a raiva grassam e ameaçam toldar o próprio funcionamento das instituições. Por isso, este filme é muito mais do que um documento histórico. É também um aviso a que não devemos ficar indiferentes.

(Émile Zola, L’Aurore – Musée d’Art et d’Histoire du Judaïsme)