Leituras

Encontro na Floresta

por Tess Eichenwald

Já tinha medo de ver a luz vermelha do mostrador. O relógio marcava 03h17. Não era a primeira vez que via precisamente aquela hora marcada. Evitava olhar para lá, mas não conseguia. Acabava por olhar. Sabia que às 07h00 tinha de estar a pé. Era recorrente.

Mais uma noite de angústia. Dava voltas e voltas na cama, tirava a almofada, voltava a pô-la sob a cabeça, barriga para baixo, barriga para cima, de lado. Tentava todas as técnicas conhecidas. Um céptico que, na hora de dormir, já acreditava em tudo, por vezes até pensava em rezar. O desespero fazia-me acreditar no inacreditável. Rebobinava a minha vida, ou apenas os últimos anos na vã esperança de descobrir o que me podia estar a causar o mal-estar. Era saudável, que se soubesse. Já tinha feito exames a tudo. Não podia ser nada físico. Seria mental? Isso não me descansava, até tornava tudo muito pior. A demência tinha-me atacado. Ainda era novo para estar já demente. Não queria voltar aos anti-depressivos e ansiolíticos que me entorpeciam e embotavam emocionalmente sem nada resolverem. A apatia não era solução.

Estava profissionalmente satisfeito. Tinha a casa perfeita. Grande. Boa. Cara. Quem dera a muita gente ter essa sorte. Não tinha problemas. Tinha dinheiro para fazer o que quisesse. Não gostava de pensar no que queria porque tinha dificuldade em ter certezas. Não queria muito, mas queria tudo. Tinha tudo o que precisava. Tinha dinheiro. Repetia a mim mesmo que estava tudo bem, como se entoasse um mantra.

Então porquê? Porque é que isto me torturava? Tinha medo de me ir deitar. A aproximação da hora de ir dormir era angustiante. Aquecia muito, mas antes tinha frio. Não digeria bem o que comia. Ficava agoniado e com tonturas. Sentia dormência nos membros. Sentia o coração acelerado. Quando estava quase a adormecer sentia um safanão como se fosse cair. Mas cair de onde? Estava deitado no centro da cama. Aí despertava e voltava tudo ao mesmo. Podia conversar. Mas com quem? Sentia-me extremamente só. Mas isso nada teria que ver. Não podia. Não vamos agora ser lamechas, que isso é sinal de fraqueza.

Que se passaria comigo? Algo traumático na infância que me assombrava agora? Seriam os meus insucessos a nível emocional? O não conseguir envolver-me? Não, isso era algo a que dedicava pouco tempo. Evitava pensar. E não ia manifestar-se durante a noite. Ou ia?

As pessoas invejam-me. Tenho tanta coisa.

Li algures que podíamos criar algo confortável na nossa mente, um refúgio. Podíamos fugir para um sítio onde nos sentíssemos seguros e aí sim, seria fácil sentir-me embalado e pegar no sono. Tinha dificuldade em visualizar o que quer que fosse. Não era dado a essas invenções da auto-ajuda. Visualização, lei da atracção, ou inutilidades afins.

No entanto, ao fechar os olhos durante mais tempo, quando finalmente vencia a barreira que me impedia de adormecer, surgia-me uma imagem mental que não conseguia ainda ver com clareza. Sentia um calor confortável e via manchas. Com o passar do tempo as manchas tornaram-se pequenas malhas. Em vez da tradicional contagem de carneiros, contava manchinhas. A sensação era agradável, embora não a compreendesse. Porém, conferia-me o conforto necessário para me sentir embalado, calmo, seguro.

Depois dormia até o despertador tocar. Por uma ou duas vezes nem ouvira o despertador. O problema é que nem sempre me lembrava deste refúgio, que surgia sempre já num estado de semi-inconsciência. Benzodiazepinas? Loucura? Ou tudo junto?

Isto repetia-se dia após dia. Era agonizante. Esgotante. Roubava-me a capacidade de concentração no trabalho. E como eu precisava de me concentrar no trabalho. O meu sustento. A minha alegria. A minha muleta emocional. O que me permitia desviar as atenções de mim.

Os dias passavam. A angústia depois do pôr-do-sol aumentava. Entre o mau e o péssimo, as noites corriam ao sabor do acaso. Não sentia alegria com a aproximação do fim-de-semana. Queria que algo mudasse.

Descartando uma causa física, sentia que tinha de me confrontar com o lado que mais me amedrontava. O meu interior. O meu Eu. Os problemas que não eram de fácil resolução. O confronto comigo mesmo. Tanto lixo acumulado ao longo de anos. Tanto emaranhado de emoções, camuflagens, sentimentos, sim, sentimentos. Esse veneno. Esse algo. Isso. Durante anos reprimira-os. Não os encarava. Não precisava deles, varria-os para debaixo do tapete. Mascarava-os com o conhecimento armazenado das leituras. Sim, eu lia compulsivamente. Fugia para as vidas alheias, onde me escondia. Ignorava a minha. Preferia os problemas das personagens, pois elas resolviam-nos. Ou não. Mas eram externos a mim.

05h20 da manhã de sexta-feira. Acordei em sobressalto. Estava a sonhar, não me lembro com o quê. Mas era absurdo. Sinto o coração acelerado e penso que não aguento mais ficar deitado de um lado para o outro enquanto amplio os problemas na minha cabeça. Não sei o que fazer. Ler? Fora de questão. Não me consigo concentrar e a esta hora é algo que eu não costumo fazer. Tenho os olhos inchados. Também não me apetece ouvir música. Simplesmente não quero estar quieto na cama. Apetece-me fugir de casa, fugir de mim.

Levanto-me e nem banho tomo. Visto-me de imediato. Como uma torrada e bebo um café. Pego na carteira e na chave do carro quase sem pensar e saio porta fora. Não sei onde ir, nem sei o que este ímpeto resolve. Tento perceber o que se passa comigo enquanto ponho o carro a trabalhar e decido que me apetece simplesmente conduzir sem destino enquanto procuro respostas. Saio da cidade, rumo não sei bem aonde. Conduzo durante uma hora por estradas secundárias sem pensar, com o rádio desligado. Apetece-me fechar os olhos, mas não posso. Tenho de estar atento à estrada e aos sinais. Não se vê ninguém. A aurora tranquiliza-me e faz-me sentir melhor. Lembro-me das manchinhas. Mas agora não posso dormir. Abro a janela enquanto conduzo para sentir o frio e ouvir a natureza. Natureza. Palavra estranha para mim, pois raramente estou em contacto com a natureza. Apesar do alcatrão e da sinalética sinto agora que entrei noutro mundo. E continuo a conduzir, cada vez com mais sono. Curva perigosa à direita com contra-curva à esquerda. Típico. E outra. Vejo tantas vezes a indicação de que a estrada pode ser atravessada por animais selvagens e, na realidade, nunca vi nenhum. Não acredito sequer que existam por aqui.

Enquanto conduzo quase automaticamente algo se atravessa de repente à frente do carro. Travo de súbito e sinto o cheiro a borracha queimada.

Desapareceu? Mas de onde veio? Como é que apareceu? Acertei-lhe? Que animal era aquele?

Paro o carro na berma. Saio e a pé afasto-me da estrada em busca do animal que se atravessou no meu caminho. Não sei bem onde estou mas entro no bosque. Vejo-me cercado por árvores e arbustos. Ouço alguns pássaros e os meus passos nas folhas caídas no chão. Caminho, claramente fora do meu habitat, fora do meio onde me sinto seguro. Não sei porque não continuei simplesmente a conduzir, mas sinto uma necessidade incontrolável de me perder na natureza em busca do bicho que se cruzou no meu caminho, ou simplesmente em busca de algo.

Sem ver bem onde ponho os pés tropeço em algo que está no chão. Numas hastes. Reparo então que há cervídeos pela zona e não sei que fazer. Assustam-se? Atacam? Olho em frente e noto a presença de um gamo entre a folhagem a olhar-me fixamente. Ficamos assim um bom bocado a observar-nos mutuamente sem que um de nós diga ou faça algo. Não sinto medo, apenas alguma apreensão. Invejo a paz que ele emana e o brilho do seu olhar. Parece desconfiado mas simultaneamente curioso. Não, não consigo tomar a iniciativa. Sinto que devia dizer qualquer coisa, mas estou petrificado. Olho para trás e sinto que o bosque me engoliu, não encontro o caminho de regresso para o meu carro. O animal fita-me, como se visse mais do que era suposto.

– Estás cansado.

Foi simplesmente isto. Parecia que queria saber algo mas não perguntava. Ou teria sido isto uma pergunta? Esperei que dissesse mais qualquer coisa, mas percebi que não. Mas não foi o bicho que falou. Caramba, os animais não falam. Mas ouvi uma voz que não conseguia identificar de onde vinha. Ouvi-o.  Finjo que isso não me intriga e respondo.

– Um pouco, sim. É visível?

– Muito. Estás cansado. E não é de agora. – incomodava-me a forma como via mais do que aquilo que eu queria mostrar. Não nos conhecíamos. Ou sim?

– Não sei, sim. É possível. Eu trabalho. Tenho responsabilidades.

– Eu também, embora diferentes.

– Sem dúvida. – desvalorizei, com ironia, arrependendo-me de imediato mas sem o mostrar. Este tipo de agressão era a minha forma de esconder os sentimentos, o desconforto de ser apanhado, descoberto. Era o meu muro. Mas que raio era isto? Quem seria a criatura falante que me desafiava?

Saiu de entre as folhas e aproximou-se uns passos. Havia algo gracioso no modo como se deslocava. O som das patas na vegetação era quase reconfortante mas fazia-me ficar simultaneamente alerta. Assustava-me ou atraía-me? Ou ambos? Creio que ambos. Sim, é possível. Mas não devia ser. Não gosto destas situações novas. Não. Como é que se lida com isto?

Esperou. Desafiava-me. Desafiava-me? Não, não é bem isso. Não sei o que é isto.

Senti um aperto no estômago quando se colocou ligeiramente de lado. As manchinhas. Conheço aquelas manchinhas. Mas como?

Sorriu. Percebeu o que eu acabava de ver.

– Conhecemo-nos? – perguntei, sabendo que não. Nunca tinha visto um veado ou um gamo – ou lá o que raio era aquilo -, a não ser no Jardim Zoológico, muito menos um que falasse. Não andava sequer na natureza. Tudo ali me parecia estranho. Contudo, parecia mesmo que já nos conhecíamos. Ou que havia uma qualquer familiaridade.

– Não sei, diz-me tu. Aliás, porque é que perguntas?

– As malhas. Essas malhas aí no dorso – apontei, sentindo-me perfeitamente parvo e confuso.

Sorriu novamente, com muita serenidade.

– Estás cansado e não é de agora. E vieste até aqui, porque estás desesperado. Porque é que vieste até aqui e não a outro lugar?

– Não faço a mínima ideia. Fui conduzindo.

– Aproxima-te de mim. Agora é a tua vez. Não posso ser novamente eu.

Não estava a gostar da ideia. Não estava habituado a ser eu a aproximar-me do que quer que fosse. Mas lá fui. A curiosidade ajudou-me. Sentia-me melhor, embora também assustado.

– Estou aqui.

– Dizes que foste conduzindo. Não sabes bem porquê. Mas seguiste a tua intuição. Olhas para mim e sentes que me conheces. Se pensares bem, até sabes de onde.

– Creio que já vi as tuas malhas. – disse isto sem tirar os olhos das manchas, que me deixavam maravilhado. Era uma sensação inexplicável. Ele sorriu, como se eu não lhe estivesse a dar uma novidade. Aquilo que para mim era uma curiosa coincidência, para ele era algo esperado.

– Possivelmente até fui eu que te chamei. De certa forma atraí-te até mim.

– Mas como? – perguntei, não sem sentir alguma confusão. Afinal, eu tinha pegado na chave do carro e saído de casa por impulso, sem saber onde ía.

– Através do labirinto da tua mente, onde estão tantas respostas que tens medo de vir a descobrir. Repara, se dizes que até já tinhas visto as minhas malhas, não achas que era eu a chamar-te e tu a quereres vir até mim? E, já agora, como é que as viste?

– Pode parecer estranho, mas vejo-as quando estou quase a adormecer. Elas ajudam-me. Conto-as. – revelei, sem o olhar nos olhos, pois tal revelação envergonhava-me. Não parecia plausível.

– Faz sentido agora? Já acreditas que eu te chamei?

– Mas porquê?

– Porque, mesmo sem saberes, querias encontrar-me. Para que eu te desse uma resposta. Para olhares para ti através de mim. Para fugires da «gruta» em que vives e vires para a natureza. Para me encontrares e perceberes que nada será como antes na tua vida. Há a tua vida antes deste momento e a tua vida a partir deste momento. Essencialmente por isso.

– Não sei se percebo.

– Aproxima-te. Confia em mim.

Ui, estava tudo estragado. Tinha dito aquela palavra: «confia». Tão difícil. Mas este ser tinha algo de extraordinário. Algo que me atraía. Era um animal elegante, movia-se com graça e parecia conhecer-me. Parecia humano, de certo modo. Mas apresentava-se-me sob esta forma. À medida que o observava, parecia conhecer mais um pouco sobre mim. Creio que ele via através da minha capa. Através da armadura que eu usava para não me dar a conhecer. A armadura que me protegia. Protegia-me? De quê? Pensando bem, creio que me aprisionava, mais do que me protegia.

Mas este belo ser via mais além. Como eu não me aproximei logo, por receio, ele tomou a iniciativa. Rondou-me, como se pedisse festas. Parecia frágil, fisicamente. Era delicado. Afastou-se ligeiramente, como se quisesse que o seguisse. Saltitou, embrenhando-se ainda mais no bosque. Segui-o, numa espécie de hipnose.

Quando parou, sentou-se. Eu próprio já fazia uma pausa. Senti as pálpebras pesadas. O cansaço estava a tomar conta de mim. As manchinhas atraíam-me. Sentei-me ao lado dele.

– Não tenhas medo. – disse ele, e eu deitei a minha cabeça no seu dorso.

Não sei se vou sequer precisar de contar malhas. Adormeci imediatamente.


Meto a chave à porta, abro-a e sinto o calor que vem lá de dentro. É bom. O forno está ligado e é dia de bolo de laranja. Ouço uma voz feminina. Surge uma mulher sorridente que me dá um beijo e me abraça. Mas quem é? Sou casado? Tenho uma mulher em casa e não sei? Mas eu já a vi. Já sei, estou a sonhar. Mas se sei que estou a sonhar, não era suposto acordar agora? Há alguma familiaridade entre ela e o gamo com quem conversei no bosque. É o gamo em forma humana? Nada faz sentido, mas ela está aqui. Conheço-a.

Tomo um duche e vou almoçar, que ela já chamou duas vezes. E sabe o meu nome. Tenho tanta fome que me dói o estômago. Sentamo-nos, conversamos, almoçamos. A comida tem sabor, a casa é quente, não me refiro à temperatura, mas a casa tem vida. Tem luz e cor. Tem tudo o que não tinha antes de eu sair. Eu e ela almoçamos, repetimos, comemos o bolo acabado meia hora antes. Ela embrulha uma fatia para eu comer à tarde, ao lanche. É verdade, tenho de ir trabalhar. Despeço-me, entre beijos e abraços e só mais um beijinho e gosto de ti. Saio. A tarde passa a correr, nem tenho tempo de perguntar a ninguém, de quem trabalha comigo, se sabia que eu vivia com uma pessoa. Não, já me devem achar tão estranho, não vou também fazer perguntas destas. Ainda que numa situação que não sabia que tinha sinto-me bem. Até estou mais focado no trabalho para sair a horas e ir para casa, que é onde me apetece estar. Às 18h30 saio porta fora e o que tiver de fazer, faço depois.

Entro em casa e não dou pela presença de ninguém. Avanço para o quarto, tentado perceber o que é que estará diferente. Se realmente houver uma mulher pelo apartamento isso percebe-se rapidamente.

Acendo a luz do quarto e vejo molduras em cima da cómoda com fotos minhas e dela tiradas em viagens, no dia-a-dia, em datas festivas e nas férias de verão. Vejo roupa espalhada e acessórios que, como é óbvio, não me pertencem. Casa de banho: duas escovas de dentes. Não há margem para dúvidas.

– Estás cansado.

Raios, que é o gamo!

– Desculpa, não te queria assustar. Chamei-te assim que entrei, mas não ouviste. Fui às compras. Estás cansado?

– Sim, não. Não muito, um bocado. – nem sei o que dizer. Apanhei um susto que parece que tenho o coração ao pé da boca. É estranho, sinto que há algo comum entre ela e o ser com quem eu falei de manhã, sinto que há. Parecem ter a mesma essência, mas o «invólucro» é diferente. Aliás, de manhã quando acordei não tinha nada disto. É estranho.

Fizemos o relato de como foi o dia de cada um, da chatice do trânsito, da avaria da máquina do café no trabalho dela e depois retomamos os nossos hábitos rotineiros com naturalidade. Preparamos o que temos de preparar para o dia seguinte. Jantamos, eu até exagero, o que não é costume, e arrumamos a cozinha juntos. Já nos conhecemos, claramente. Temos tudo combinado para o fim-de-semana. O cansaço é tanto que é melhor não sair sequer de casa. Fazemos zapping e depois eu tento ler algo que não consigo, porque o cansaço acumulado durante a semana inteira está a tornar-se insuportável.

Deitamo-nos e eu mal me lembro de apagar a luz.


Acordo no carro. Pela posição do sol passou algum tempo. Doem-me as costas porque não estou habituado a dormir sentado. Agora estou com calor e sede. Adormeci tão quente e confortável… Olho à volta, o gamo não está lá. Saio do carro e entro no bosque, tentando encontrar o bicho. Terei sonhado? Já começam a ser sonhos a mais para um sono só. Já não sei o que é real. Porém, sinto-me feliz. Penso na conversa que tive com o gamo, se é que aconteceu mesmo. Não me sinto o mesmo. Nada me parece real, cada passo a partir deste momento é uma surpresa. E porquê? Penso na felicidade que senti durante o sonho que tive enquanto dormia, se é que não foi um sonho dentro de outro. Se foi um sonho, preferia não ter acordado. Estou ansioso, afinal, qual dos episódios é que era real?

É sexta-feira. Convém ainda passar pelo trabalho. Antes tenho é de ir a casa comer qualquer coisa e tomar um duche.

Chego e estaciono. Subo de elevador e assim que chego ao meu piso, expectante, meto a chave na porta.

(imagem: Flickr)