Sociedade

As Origens

por Luís Ramos

Do que nos lembramos quando pensamos nas nossas origens? Com certeza, e de imediato, lembramo-nos dos nossos pais e avós. Possivelmente, há quem tenha ainda na sua memória uma bisavó já muito velhinha que ia visitar quando era criança ou adolescente.

Para além destes graus de parentesco, regra geral, os nossos antepassados tornam-se uma perfeita interrogação, parecendo até nunca terem existido. Porque não nos foram contemporâneos e ninguém deles guarda memória para que possamos saber, constituem uma existência que nos é completamente alheia.

Neste traçado familiar somos igualmente levados a nos lembrarmos de outros familiares, os familiares colaterais, como tios e primos que, partilham connosco metade das nossas origens…

As nossas origens, ou por outras palavras, os nossos ascendentes, são de facto mais do que aqueles que pensamos numa primeira análise. A contabilidade genealógica é então a seguinte: temos 2 pais, 4 avós, 8 bisavós, 16 trisavós, 32 tetravós, 64 quintos avós, 128 sextos avós, … A sequência continua e aumenta de acordo com a progressão geométrica 2n (dois elevado a n), sendo n o número da geração. Tendo isto em conta, pode-se fazer o seguinte exercício: se a cada 100 anos existem entre 3 a 4 gerações, a que geração pertenceria um antepassado nosso que tivesse vivido no tempo de Jesus Cristo, por exemplo? Ora, há 2000 anos estaríamos por volta da octogésima geração e, assim sendo, elevando 2 a 80 obteríamos um número gigantesco, com 24 zeros, o que é muitíssimo mais que a população mundial nos dias de hoje. Matematicamente a conta está certa, quer operacionalmente, quer logicamente, mas se não podemos ter mais ancestrais que população na Terra, estará este raciocínio correcto?

A conclusão que tiramos deste resultado é a de que, muito remotamente, partilhamos todos os mesmos antepassados. Por outras palavras, e de forma muito simplista, é o mesmo que dizer que somos todos primos uns dos outros. Assim sendo, se conseguíssemos ver o panorama completode todos os nossos antepassados, a forma da árvore genealógica não seria algo sempre crescente, mas sim algo inicialmente divergente com um aumento da ramificação, que algures no tempo se torna convergente, tendendo, no limite, para um único casal num passado muito distante. Chamar-lhe-emos uma espécie de losango genealógico em que numa extremidade estamos nós e na outra estará a origem mais remota.

Do ponto de vista prático da construção de uma árvore genealógica, não há qualquer dúvida que até há pouco tempo o estudo da genealogia, a título recreativo, exigia uma certa disponibilidade para pesquisas em vários arquivos físicos. Contudo, hoje em dia, com milhares de documentos digitalizados, é possível aceder aos assentos fundamentais para a construção de uma árvore genealógica, sem sair de casa e a qualquer hora. Com algum tempo e paciência é relativamente fácil construir uma árvore genealógica com 4 ou 5 gerações, tendo sempre em vista que ao investir-se mais tempo na pesquisa, e também com um pouco de sorte, chegar-se-á a gerações mais distantes.

Mas o estudo genealógico não deve ser apenas uma mera colecção de nomes de pessoas vivas ou de pessoas que já viveram. Durante a pesquisa, apercebemo-nos que a documentação disponível é de tal ordem que se consegue por vezes reconstruir o percurso de vida de um antepassado que desconhecíamos totalmente.  Assim, a genealogia é também redescobrir a história de uma forma totalmente diferente. É entender que um pai testemunhou o 25 de Abril, ou o cenário de guerra do Ultramar. É saber que os avós atravessaram a terrível epidemia da gripe Espanhola, ou que passaram fome pelo racionamento de alimentos devido ao apoio à II Guerra Mundial. É descobrir que um bisavô foi destacado para o Norte de França para combater, em nome de Portugal, na I Grande Guerra. É imaginar a incredulidade dos trisavós quando souberam que o Rei fora assassinado, ou saber que testemunharam a evolução da tecnologia do vapor e que por isso fizeram parte do êxodo rural. É imaginar como terão resistido os tetravós, ainda em tenra idade, à invasão Francesa. É questionar o que terão visto os olhos de uns sextos avós quando o terramoto de 1755 arrasou Lisboa. É tentar, por um bocadinho, perceber a dor de um sétimo avô, condenado num processo de Inquisição a abjurar às suas convicções, aceitar chicotadas em praça pública e ser obrigado ao degredo em África. É supor de que forma terá sido o dia de celebração quando os décimos primeiros avós viram a independência de Portugal restaurada. E podia-se continuar pelas várias épocas ao longo dos tempos até onde quiséssemos, pois um antepassado nosso esteve lá, viveu e testemunhou essa janela temporal. É justamente neste enquadramento que nos apercebemos que a memória individual se imiscuí com a memória colectiva, memória essa que define um grupo, um povo ou uma nação.

E nós que vivemos neste tempo, que testemunho deixaremos? O que será a história dos nossos tempos?

A construção genealógica apega-se de uma forma muito curiosa às vicissitudes que a vida tem, e ao indecifrável mistério do livre arbítrio ou à falta dele.

O resultado da árvore genealógica de cada um poderá ser identificado como um sistema dinâmico, complexo, e de carácter aparentemente aleatório, cuja evolução dos resultados poderiam eventualmente ser explicados pela teoria dos caos, teoria essa também conhecida como “efeito borboleta”. A origem da nossa existência depende de uma afortunada conjugação de infindável variáveis que se somaram desde um passado remoto até ao presente. Que impacto terá tido nos dias de hoje uma determinada decisão de um antepassado nosso? E que impacto no futuro terá uma decisão nossa tomada no presente?

Nesta encruzilhada aparentemente aleatória, o filme “Regresso ao futuro” representa bem o problema de uma variável com resultado diferente do esperado. Marty McFly depois de transportado para a década de 50 pela máquina do tempo, tem de forçosamente reparar o dano que causou quando a sua mãe se apaixona por ele e não pelo seu pai, pondo assim em risco a existência do próprio Marty McFly. Embora este filme não passe de ficção científica não podemos deixar de fazer o mesmo exercício e pensar que somos bastante sortudos pelo facto de os nossos pais se terem conhecido. Absolutamente incrível, é pensarmos em mais gerações, por exemplo, se somarmos todos os antepassados dos quais dependemos desde há 10 gerações até agora. Concluímos que dependemos de 2046 indivíduos, ou se quisermos, de 1023 casais, e quanto mais andarmos para trás mais indivíduos se somam a um sem fim de resultados que nos foram totalmente favoráveis. Isto leva-nos a uma questão limite: como seria se tivesse falhado apenas 1 antepassado nessa cadeia sucessória? Não existiríamos? Ou existíamos, mas seríamos fisicamente diferentes?

Mas não percamos o foco neste tipo de perguntas para as quais não há resposta, afinal de contas a pesquisa genealógica também tem o privilégio de nos trazer respostas para perguntas que nem sequer tinham sido colocadas, o que sem dúvida é um bálsamo para a curiosidade de quem gosta de descortinar as histórias que o passado encerra.

João Francisco Ramos (1843-1907), tio-trisavó do autor. Fotografia encontrada no arquivo do Ministério da Obras Públicas, no decurso de pesquisa genealógica. João Francisco Ramos foi doutor em matemática pela faculdade de Coimbra e engenheiro civil, tendo colaborado em importantes projectos no desenvolvimento dos caminhos de ferro do Algarve em finais do século XIX, início do século XX.