Leituras

O iniciado (capítulo III)

por Adriana Calado

Nada. Absolutamente nenhum sinal de livraria ou qualquer outro tipo de comércio, diga-se.

Germano olhava, ora para mim, ora para o pequeno prédio azul, entalado entre duas ruínas preparadas para a reconversão em mais hostels. Perguntei-lhe:

– Tens a certeza que era aqui? Estas vielas são muito parecidas umas com as outras.

Mas não havia dúvidas. O próprio livro tinha carimbado na capa interior a morada da livraria. Era inequívoca a indicação do número 7-A daquela travessa, exactamente onde nos encontrávamos. E, todavia, o local parecia desabitado. A velha porta de madeira tinha ar de há muito não servir, estando coberta por tapumes. Tentámos uma pesquisa no Google, por alfarrabistas, livrarias, livros velhos. Não foi muito original, é certo. Mas não tínhamos ideia melhor. Àquela hora era impensável ir bater à porta de alguém a perguntar pela loja ou pelo idoso livreiro que Germano me tinha descrito. Não se via ninguém por perto e os ruídos do bairro chegavam de longe. Parecia-me ouvir leves resquícios de Total Eclipse of the Heart, o que em nada me reconfortou, diga-se.

Sentámo-nos na escadaria de pedra na frente do prédio, dedilhando cuidadosamente o ecrã do meu telemóvel. Sussurrávamos hipóteses, tendo-nos ocorrido a ideia de pesquisar o nome do dono da livraria. As primeiras entradas para “Antonino Gusmão da Silva” revelaram-se pouco animadoras. Muitos Antónios, nenhum Antonino. Mas, à medida que fomos passando páginas da pesquisa, surgiu algo que me despertou interesse. Fiz menção de clicar, ouvindo Germano advertir-me “vê lá que o nome da página é um bocado manhoso … se calhar é vírus. “

Cliquei e comecei a ler “Antonino Gusmão da Silva, nascido em 1777, é o nome de baptismo do fundador de Aérola, associação que se diz ter sido fund…”

E, de repente, o visor escureceu. Toquei-lhe, primeiro com gentileza e depois com maior energia, premi vários botões e nada.

– Ficaste sem bateria? Que lugar comum!

– Não. Estava carregado. Não sei o que se passa! Que estranho…

Germano pegou no seu próprio telemóvel e começou a procurar a página que estávamos a ler. Mas também o aparelho dele faleceu de súbito. Ecrã negro e coberto com uma película de gelo. Tal como o meu diga-se. A agradável noite estival tinha desaparecido sem darmos por nada. Uma bruma espessa friíssima envolveu-nos. Enquanto escrevo estas linhas, tantos anos depois, sinto-me transportado para aqueles momentos extraordinários, gravados para sempre na minha memória. Os meus ossos estão gelados e o coração palpitante, tal como naquela noite em que eu e Germano assistimos ao súbito tingir do céu da cor da noite escura para um encarnado gradualmente mais vivo. Ao longe, ouvíamos latidos nervosos e uma bulha de gatos. Nunca tinha assistido a um tal fenómeno. E nunca encontrei explicação para a sua ocorrência. Apenas um ou outro relato de alguém que nunca foi levado muito a sério por quem o lia.

Mas eu sei bem o que vimos naquela noite.

– Mas o que é isto? – Balbuciei …

Germano olhava-me sem outra resposta que não o susto estampado no rosto.

– Se calhar devíamos ir embora, ouvi-me dizer após uns minutos de silêncio.

Levantei-me e também Germano se pôs em pé. Nisto, ecoaram na travessa passadas seguras. Não tardámos a vislumbrar uma figura trajada de negro encaminhando-se na nossa direcção. Tinha configuração humana, sem dúvida. Mas não saberia descrever se era homem ou mulher, nova ou velha, gorda ou magra, enfim…. Passou por entre nós como se não existíssemos. Apercebi-me de que o seu rosto estava coberto por uma mascarilha em tom rosa muito leve. Subiu com destreza os degraus de onde nos tínhamos levantado há instantes. Soou então um pequeno sininho (ainda hoje não sei de onde o desencantou). A porta escondida pelos tapumes abriu-se de imediato, com facilidade que desmentia o seu ar perro. Um aroma de orquídea espalhou-se à nossa volta.  

A figura de negro entrou sem hesitação. Vi então, ainda à porta, ostentando uma afabilidade majestática um homem idoso trajado de forma simples, mas elegante. Ainda hoje o vejo, vestido com fato cinzento completo, incluindo um colete que, afinal, a geada da noite tornava acertado.

Silencioso, fez-nos um sinal para entrarmos. Tudo aquilo era espantoso. O céu encarnado, a geada na noite de Verão, a figura de mascarilha, o velho que nos convocava em silêncio, sabe Deus para quê! Mas acima de tudo o clima de tensão que nos rodeava, uma espécie de opressão à nossa volta que me parecia irreal face à vida comum que era a nossa.

Hesitei, mas Germano, que ali nos tinha levado nas mãos, disse-me: “É o livreiro. Vamos!”

Assenti. A porta fechou-se mal entrámos.  Quando me virei, o seu espaço tinha desaparecido e as quatro paredes à nossa volta eram totalmente forradas a livros, de diferentes tamanhos e cores, colocados uns por cima dos outros, uns fechados outros abertos, alguns servindo de marcadores de páginas a um outro. Uma secretária de madeira escura onde estava cravado um unicórnio cujo corno brandia uma medusa com cabelos esvoaçantes que tapavam o focinho do animal, uma velha caixa registadora e dois sofás de veludo verde-escuro compunham o lado esquerdo da sala. Num deles, estava sentada a figura de negro, com um sorriso levemente trocista nos lábios. Do lado direito, uma pequena mesa estava preparada para quatro. Pão, queijos, uvas e maçãs, um jarro de vinho tinto, pequenos biscoitos e chávenas para café. Apesar disso e do ar acolhedor de Antonino Gusmão da Silva, não me senti nada seguro. E lembrei-me das advertências da nossa amiga Carolina, meio a brincar, meio a sério: “Quem procura, acha”.

(Imagem: Cher Amio/Flickr)