No radar

O Caso de Richard Jewell

por Fernando M*

Lembro-me perfeitamente da primeira vez que, associado ao fenómeno futebolístico, ouvi a expressão “passar repentinamente de bestial a besta”.

A expressão, desprovida de carácter literário, é causadora de impacto pela singeleza da ideia-feita que contempla, a de que na alquimia da vida a nossa natureza se pode transmutar subitamente, sem que possamos fazer algo para o impedir.

A história verídica de Richard Jewell, que Clint Eastwood elegeu como tema do seu filme mais recente, é disso paradigmática.

Em Atlanta, no verão de 1986, durante a Olimpíada um homem – segurança – com um fascínio pelo exercício da autoridade descobre, casualmente, um engenho explosivo, de que dá conhecimento às autoridades presentes, retirando pessoas, ajudando na criação de um perímetro de segurança e na prevenção de uma tragédia de maiores dimensões.

Elevado a herói nacional, com entrevistas na televisão e proposta de um contrato para a publicação de um livro, Richard Jewell vê a sua vida alterada quando vem a público, poucos dias depois e através de um jornal local, que o mesmo é o principal suspeito de ser o autor do atentado.

É essa tormenta que a câmara de Eastwood expõe com maestria, trazendo para a arte do cinema as fragilidades de um homem acossado, que rodeado de poucos, tenta na melhor das suas capacidades superar os obstáculos de um libelo popular.

Como os mais atentos não poderão ter deixado de notar, a cinematografia mais recente de Eastwood mostra-se, a cada filme, mais impregnada de realidade, aproximando-a por vezes de uma espécie de registo documental sobre pessoas e eventos, que serve de pretexto para uma reflexão (encoberta) sobre duas questões essenciais filosóficas: quem somos e para onde vamos?

Por outro lado, o seu cinema continua a homenagear o feito individual de quem, em circunstâncias inauditas, ultrapassa adversidades e assume o papel de herói, quase sempre de forma involuntária e natural.

É também esse o papel da sétima arte, expor o individual para inspirar/fazer refletir o coletivo.

Formalmente o filme apresenta-se irrepreensível para a batuta de um homem que dedicou toda a sua vida à produção de filmes à frente e atrás das câmaras, apostando em planos fechados nas suas personagens, humanizando-as.

O elenco é primoroso.

O protagonista – Paul Walter Hauser – tem aqui a sua primeira grande aposta, após uma prolífica série de pequenos papéis em cinema e televisão, sob a direção de grandes realizadores.

À parte a sua semelhança física com o verdadeiro Jewell, o que impressiona na sua interpretação é a verdade contida nas suas palavras e gestos, que retratam um homem crédulo, fascinado por uma autoridade que não sabe exercer e enredado numa situação que não controla.

Sam Rockwell e Kathy Bates, respetivamente advogado e mãe do protagonista, são as estrelas do filme, demonstrando com singeleza as razões pelas quais tantas e tantas vezes foram agraciados com nomeações e prémios.

O desespero contido que Kathy Bates coloca na sua personagem é um referencial na sublime arte de representar, cabendo a Rockwell o papel do arguto advogado que não se deixa intimidar.

Numa época em que a oferta cinematográfica sobeja, sucedendo-se os títulos estreados todas as semanas, quer seja no grande ecrã ou em plataformas que o pretendem substituir, Richard Jewell e Clint Eastwood justificam uma deslocação ao escuro do cinema para nos recordarmos de uma velha máxima: nem tudo o que parece é! 


* Sobre Fernando M:
“Sou dos livros, dos filmes, do Teatro, da mesa e das esplanadas nos dias de Sol”.