Leituras

Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus

por Filipa Gonçalves

“Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludo, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo.” (Carolina Maria de Jesus, Quarto de despejo, 1960)

Foi a 14 de Março de 1914, numa pequena cidade de Minas Gerais chamada Sacramento, que nasceu Carolina Maria de Jesus, apelidada de Bitita no seu círculo familiar, neta de escravos, filha de uma lavadeira analfabeta e de um homem boémio, pouco “afeito ao batente diário”, figura ausente da vida da filha e com quem a mãe, Cota, se envolveu quando ainda era casada, gerando falatório geral na sociedade conservadora da época.

Nesta cidade, recém-saída da escravidão e em pleno clima de transformação social que atingiu o Brasil no limiar do século passado, cresceu uma menina inquieta, demonstrando desde cedo uma “inteligência fora do comum, pelo menos em termos de memória, para assuntos relacionados com a gente grande”, segundo a biografia do ensaísta Tom Farias. Era, na opinião dos seus familiares, excessivamente curiosa, inquisitiva sobre tudo e nunca se satisfazendo com as respostas que recebia. Queria saber se “era gente”, se “era bicho” e se podia “ser homem”, o que desejava por se indignar com a obediência generalizada que as mulheres tinham pelos homens ou pelos maridos. A curiosidade era tal ao ponto de a mãe levá-la a consulta com Eurípedes de Barsanulfo, afamado espirita da época, que logo profetizou: “Ela vai adorar tudo que é belo. A sua filha é poetisa”.

A profecia concretizou-se.

Durante a infância, pautada pela pobreza que atingia todas as crianças negras do pós-abolição, como era o seu caso, Carolina Maria de Jesus recebeu o incentivo e a ajuda de uma das freguesas da sua mãe para frequentar a escola. Com sete anos, ingressou no colégio Alan Kardec, fundado pelo referido espirita, e frequentou os dois primeiros anos do ensino primário. Porém, teve que deixar a escola pois a mãe não conseguia mais manter-se a si e aos filhos na cidade e mudou-se para a roça. Teve uma educação formal breve, mas tal não a impediu de desenvolver uma paixão voraz pela leitura e pela escrita.

A família morou em diversos outros lugares, sempre tentando fugir da fome, pobreza, precariedade laboral e habitacional que teimavam em persegui-la. Em 1930, em Franca, São Paulo, Carolina Maria de Jesus trabalha como lavradora, depois, como empregada doméstica e com 23 anos, aquando da morte de Cota, decide deslocar-se para a capital do Estado onde se emprega como faxineira e, mais tarde, como empregada doméstica sem grande êxito já que a poesia não lhe saia da cabeça e fazia-a esturricar os cozinhados no fogão.

Em 1948, Carolina Maria de Jesus passa a viver na favela do Canindé, um grande terreno à margem esquerda do rio Tietê, ao qual o então governador paulista mandara recolher todos os mendigos das ruas. Aí construiu o seu próprio barraco, usando madeira, lata, papelão e qualquer material que pudesse encontrar, no qual nasceram seus três filhos cada um de um relacionamento diferente. Viria a escrever em “Quarto de Despejo”: “não casei e não estou descontente. Os que preferiu me eram soezes e as condições que eles me impunham eram horríveis”.

É catadora de papel, deambulando pela cidade em busca de papéis para venda e encontrando no lixo os cadernos que se tornarão os “seus diários”. Em 1955, inicia a escrita do “estranho diário” que virá a ser “Quarto de Despejo”, registando as agruras do seu dia a dia, as suas reflexões sobre o sofrimento, fome, ira e obsessão em transformar sua vida através da escrita. A escrita é quotidiana e revela a necessidade que dela tem como meio de aplacar a revolta social em ebulição dentro de si.

Na favela, Carolina Maria de Jesus sentia-se diferente, sentimento que perpassará em “Quarto de Despejo”, escrevendo acerca de um diálogo com outras mulheres: “’Vocês são inculta, não pode compreender. Vou escrever um livro referente a favela. Hei de citar tudo que aqui se pasa. E tudo que vocês me fazem”. Guardava entre os seus pertences livros como “Os Miseráveis”, de Victor Hugo; ensinava a ler e escrever e impunha-se como mulher independente apesar de saber ser alvo de críticas. Era preta, favelada e miserável, mas escritora.

Em 1958, o jornalista Audálio Dantas propôs ao chefe de reportagem das “Folhas” de São Paulo, escrever sobre a favela. Era suposto o repórter permanecer cerca de uma semana no local, mas pouco depois da sua chegada conheceu Carolina Maria de Jesus. Esta tinha tanto a dizer sobre a situação vivida pelas pessoas da favela que lhe entregou vinte cadernos “onde descrevia o seu quotidiano e dos seus companheiros de triste viagem”. Nessa ocasião, reconhece em prefácio a uma das edições de Quarto de Despejo,a história da favela que eu buscava estava escrita em uns vinte cadernos encardidos que Carolina guardava em seu barraco. Li, e logo vi: repórter nenhum, escritor nenhum poderia escrever melhor aquela história – a visão de dentro da favela”.

Da reportagem, com trechos dos diários, publicada na edição de 9 de Maio de 1958, na “Folha da Noite”, com o título de “O drama da favela escrito por uma favelada”, e mais tarde (1959) na revista “O Cruzeiro” chegou-se ao livro, em 1960, de que o jornalista foi editor.

No livro, mais do que um registo documental, sociológico e até antropológico, sobressai a reflexão da autora sobre as problemáticas sociais que a afectavam. É, portanto, também um livro com forte componente de intervenção social.

Sobre a fome escreve, no dia 10 de Maio, que “o Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora. Quem passa fome aprende a pensar no próximo, e nas crianças”; essa fome que a autora diz ser amarela, por na sua busca pela sobrevivência no lixo da cidade, ter descoberto que todas as coisas do mundo – o céu, as árvores, as pessoas” – ficavam amarelas quando a fome atingia o limite do suportável. E a presença constante da fome no livro assume forma insuportável. A luta para conseguir dar de comer aos filhos e alimentar-se repete-se incessantemente, a par dos demais acontecimentos da favela: a prostituição, os efeitos destruidores do álcool, a constante violência de homens que espancam as suas mulheres e o quanto essas mesmas criticavam a autora por esta não querer casar-se. A par disto, lamenta que as suas crianças tenham que presenciar tais situações e, nos seus contactos com a delegacia e Juizado de Menores para tratar de assuntos relativos a um dos filhos, deseja fervorosamente ter condições para tirá-las daquele lugar, evitando que se tornem delinquentes.

A autora salienta de modo impressivo a sua condição de negra além de pobre. Com alguma ingenuidade – ou, quem sabe, esperança – pede a Deus que ilumine os brancos. Assim, no dia 13 de Maio, escreve Hoje amanheceu chovendo. É um dia simpático para mim. E o dia da Abolição. Dia que comemoramos a libertação dos escravos…. Nas prisões os negros eram os bodes espiatorios. Mas os brancos agora são mais cultos. E não nos trata com despreso. Que Deus ilumine os brancos para que os pretos sejam feliz.”, e prossegue, registando com clarividência: “Choveu esfriou, E o inverno que chega. E no inverno a gente come mais. A Vera começou pedir comida. E eu não tinha. Era a reprise do espectáculo. Eu estava com dois cruzeiros (…). E assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual – a fome.”.

Carolina Maria de Jesus escreve sobre as questões raciais dentro e fora da favela, relatando episódios de racismo quotidiano, e deixa transparecer um pouco da estrutura racial da cidade de São Paulo na época e da posição que os negros ocupavam, mas também salienta o orgulho na sua cor e o desejo de igualdade: “Esquecendo eles que eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo rustico. Eu até acho o cabelo de negro mais iducado do que o cabelo de branco. Porque o cabelo de preto onde põe fica. É obediente. E o cabelo de branco, é só dar um movimento na cabeça ele já sai do lugar. É indisciplinado. Se é que existe reencarnações, eu quero voltar sempre preta […] O branco é que diz que é superior. Mas que superioridade apresenta o branco? Se o negro bebe pinga, o branco bebe. A enfermidade que atinge o preto, atinge o branco. Se o branco sente fome, o negro também. A natureza não seleciona ninguém”.

A publicação dos seus diários e, posteriormente, do livro provocou, nas palavras de Audálio Dantas, a excitação dos consumidores fascinados pela novidade, pelo improvável feito desta mulher negra semianalfabeta que alcançara o estrelato e, mais do que isto, “ganhara dinheiro, pairava a força do livro, sua imponência como depoimento, sua autenticidade e sua paradoxal beleza”, embora alguns pusessem em causa a autenticidade dos registos. Carolina Maria de Jesus tornava-se, assim, numa espécie de “Cinderela Negra”, no dizer de Bom Meihy e Robert M. Levine, uma celebridade internacional com honras na “Time”, “Life”, “Paris Match” e “Le Monde”.

Porém, a sua trajectória até a morte, em 1977, foi conturbada já que a autora não se “enquadrou” como celebridade. Em pouco tempo, voltou à condição de pobre, com dificuldades de sobrevivência. Terá sido vítima de um meio social que apenas a consumiu como um “fruto estranho”, no dizer de Audálio Dantas.

As questões que perpassaram a vida de Carolina Maria de Jesus e o seu “Quarto de Despejo” continuam actuais numa sociedade em que persistem gritantes assimetrias e injustiças sociais: muitas “salas de visita” e muitos “quartos de despejo”.

A leitura do seu livro é uma forma de (re)conhecer tais realidades pelo punho de uma escritora singular que, com uma sensibilidade comovente, é capaz de equilibrar a crueza dos factos com a esperança num futuro mais justo e mais digno.

Referências:

Quarto de Despejo, Carolina Maria de Jesus, Edição Popular, 1963, prefácio de Audálio Dantas;

Carolina: uma biografia, Tom Farias, Malé, 2018;

Carolina Maria de Jesus: uma escritora improvável, Joel Rufino dos Santos, Garamond, 2009;

Cinderela negra – A saga de Carolina Maria de Jesus, de José Carlos Sebe Bom Meihy e Robert M. Levine, Editora da UERJ, Rio de Janeiro, 1994;

Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada: a escrita como válvula de escape, Estela Santos, 2014;

Um mundo feito de papel: sofrimento e estetização da vida (os diários de Carolina Maria de Jesus), Marco Antonio Gonçalves, 2013.

Vida por escrito – Portal biobibliográfico de Carolina Maria de Jesus;