Leituras

A Lagarta Gigante

por Joana Nascimento

Não é fácil ser criança. Especialmente quando se tem 6 anos, se é filha única e tem uma imaginação muito fértil. No entanto, o que aconteceu naquela manhã de Verão e mais tarde, não foi fruto da minha imaginação, pelo menos até onde sei. Ainda hoje estou para saber como foi possível porque até eu, Diana, tive dificuldade em acreditar.

Tudo começou numa manhã de Verão igual a tantas outras. As férias ainda não iam a meio, mas eu já me sentia farta. Precisava que alguma coisa excitante acontecesse. O sol espreitava por entre as figas da janela do meu quarto. 

Era uma divisão pequena, toda de madeira com uma cama encostada a uma das paredes, um armário de roupa no canto oposto e uma janela próxima da cama.

Abri os olhos devagar. Meio ensonada, espreguicei-me para começar mais um dia. Levantei-me e abri as cortinas para deixar entrar a luz do sol. Foi então que ouvi um barulho estranho, como se algo estivesse a roçar na madeira do chão do quarto. Assustada, e ainda a pensar que estava a sonhar, fui ver o que era.

Nem quis acreditar no que os meus olhos viam: a um canto do quarto, a comer parte da medeira, estava uma lagarta, mas esta não era uma lagarta normal era gigante. Toda verde com listas pretas e uma boca enorme e muitas patas pequenas. Olhou-me com os seus olhos neutros e continuou a mordiscar a madeira.

Esfreguei os olhos e até me belisquei. Tinha mesmo uma lagarta gigante no quarto! «O que hei-de fazer?» Pensei. «Ninguém te pode ver ou ainda se assustam. Tenho de te esconder num sítio longe daqui e discretamente. O problema é onde e como é que te vou levar até lá, uma vez que és tão grande».

Vesti-me e, depois de tomar o pequeno-almoço com tanta pressa que os meus pais até se admiraram, voltei para o quarto e fiz uma lista com os sítios onde a poderia esconder, mas nenhum deles me pareceu bom, pois eram pequenos demais. Tinha de se um sítio grande e espaçoso. «Mas onde vou arranjar esse sítio?» Pensei. «Não há muitos sítios assim na vila e se me virem por aí com uma lagarta deste tamanho está tudo perdido».

Então, lembrei-me do velho armazém abandonado junto às docas. Em tempos, tinha sido onde os navios descarregavam o peixe e eram reparados. Depois, os pescadores separavam as melhores peças para vender no mercado da vila. Hoje em dia, era apenas uma grande casa vazia por causa do surgimento das grandes superfícies comerciais. «Mas como levar-te sem que ninguém dê por isso?» Pensei.

Foi, então, que me lembrei que àquela hora não havia ninguém na rua por ser Verão. As actividades só começavam mais tarde.

Consegui atrair a enorme e grotesca lagarta para fora de casa graças a um rasto de madeira que fui deixando. Todos os pedaços que encontrava eram para ela. Foi comendo até chegarmos ao armazém. O cheiro a peixe e a mar ainda estavam impregnados naquelas paredes. Instalei-a numa carcaça de navio pesqueiro e ai ficou a mordiscar a madeira. Depois, fechei a porta com o trinco para ninguém, além de mim, entrar.  

Durante o resto das minhas férias, fui alimentando e cuidando daquele animal gigantesco. Sempre que podia, saía de casa com pedaços de madeira velha para lhe dar. E assim ela foi comendo. Sempre que me perguntavam para onde ia, dizia que ia visitar uma amiga. «Se é uma amiga, então está tudo bem.» Dizia a minha mãe.

Um belo dia, quando a fui visitar, depois de ter estado na piscina com os meus amigos, deparei-me com a porta do armazém entreaberta. Estranhei, normalmente, estava trancada. Entrei devagar, com uma vara de ferro na mão. Lá dentro, reinava o silêncio. Pedaços de madeira estavam espalhados por todo o lado. Foi, então, que me apercebi que além da madeira também havia fios brancos e pegajosos como os das teias de aranha. Segui o seu rasto e olhei para cima. Arregalei os olhos. Pendurado no tecto do armazém, estava um enorme casulo feito de fios brancos. Tinha comido tanto que fizera um casulo estava a pronta para mudar de forma. A porta ficou entreaberta por causa dos fios que rebentaram com a fechadura. Tive de improvisar com um cadeado e algumas peças que encontrara no porto. Ninguém a podia ver. Voltei para casa e nunca mais fui ao armazém durante os meses que se seguiram.

As aulas começaram entretanto e as minhas visitas ao armazém passaram a ser mais espaçadas para não dar tanto nas vistas.

Um dia, depois da escola, resolvi passar pelo armazém. Cheguei mesmo a tempo de testemunhar um fenómeno extraordinário: o casulo abriu-se e dele surgiu a maior borboleta que alguma vez vira. As suas asas coloridas ocupavam todo o armazém, enchendo-o de cor e algum vento, pois quando as bateu, todo o espaço estremeceu e uma pequena ventania levantou-se. Olhou-me com os seus olhos de borboleta como se agradecesse ter cuidado dela e saiu por um buraco no tecto do armazém desaparecendo no céu.

Depois de me despedir, fui para a saída, mas tropecei num fio de casulo que não tinha visto, bati com a cabeça numa viga metálica ainda com alguma força e caí inconsciente no chão.

Abri os olhos devagar. Estava de volta ao meu quarto sem saber como tinha ido ali parar. Ainda me doía a cabeça e estava meio zonza. A última coisa de que me lembrava era de estar no armazém e da borboleta gigante. 

A minha mãe aproximou-se da cama e sorriu quando me viu acordada. A sua expressão era de alívio. Sentei-me na cama, ela abraçou-me e começou a chorar.

Perguntei-lhe, confusa:

-Porque choras, mãe? O que aconteceu?-

Ela respondeu, olhando para mim:

– Quando os homens do porto te encontraram inconsciente no armazém, chamaram logo a ambulância. Estiveste no hospital durante bastante tempo, mas tudo não passou de um grande susto e o médico achou melhor vires recuperar para casa.-

Fiz uma expressão confusa, mas depois encolhi os ombros. A minha mãe saiu do quarto e eu voltei a deitar-me. Olhei pela janela e, no parapeito, estava uma lagarta num dos cantos a roer a madeira.

(“Alice meets the Caterpillar”, Il. de Sir John Tenniel, 1865, para “Alice no País das Maravilhas” de Lewis Carroll)