Leituras

Livros: as nossas escolhas de 2019

Ecologia, Joana Bértholo (Caminho, 2018)

A premissa do livro é simples e assustadora. Num mundo onde o valor de tudo se mede em dinheiro e onde as palavras são desbaratadas surge o Plano de Revalorização da Linguagem: para falar tem de se pagar. Projecto cultural com evidentes vantagens económicas para quem o explore, avança materializado em palavras apenas para o bolso dos ricos e outras que estão a preço de saldo, palavras ditas em surdina e alfabetos que os tempos de crise voltam a por na moda. Pelo meio, um sistema de vigilância global, resistentes mais ou menos organizados e o correr da vida dita normal. Escrito de forma imaginativa e rica, esta é uma distopia a que não se fica indiferente parecendo aqui e ali demasiado próxima do presente.

Eliete, Dulce Maria Cardoso (Tinta da China, 2018)

Eliete é uma mulher de meia-idade normal, com uma vida também normal. Tem “Uma casa, um homem bom, filhos saudáveis, um carro, Natais em família, jantares com amigos, álbuns de fotografias com as viagens de férias”, como sempre quis ter. É, porém, durante um acontecimento festivo, com honras nacionais, vivido entre família e amigos, que tem a relevação: sente-se profundamente só. Através da personagem, e suas aspirações, a autora, uma observadora notável, traça um retrato do país, de uma determinada classe social, dos simulacros de relações humanas potenciados pelas redes sociais, e das vivências familiares, de maternidade, amor, desejo e velhice.

Monstros fabulosos, Alberto Manguel (Tinta-da-China, 2019)

Alberto Manguel é escritor e leitor e são essas as qualidades em que assenta de forma inspiradora este livro que corresponde ao subgénero “livros sobre livros”. São revisitados personagens de ficção que o têm acompanhado ao longo dos anos. Desde Alice a Frankenstein, passando pelo marido de Madame Bovary ou o exemplo acabado do erudito seco, Causabon, de Middlemarch, há espaço para escolhas inesperadas como Emília, a boneca viva do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Quem ama os livros sabe que são uma forma privilegiada de compreender o mundo e não de nos escondermos dele. Manguel oferece um sentido contemporâneo para cada uma das suas escolhas e convidando-nos a fazer o mesmo exercício.

Quarto de Despejo, Carolina Maria de Jesus (Ática, 2019)

Carolina Maria de Jesus vivia na favela do Canindé e catava papel para sobreviver quando começou a escrever o “estranho diário” que viria a ser “Quarto de Despejo”, publicado pela primeira vez em 1960. A autora, mulher, negra e pobre, registou as agruras do seu quotidiano, as suas cogitações sobre o sofrimento, fome, ira e, também, a obstinação em transformar a sua vida através da escrita. Trata-se de mais do que um registo documental, sociológico e até antropológico, pois nele ressalta a reflexão crítica da autora sobre as problemáticas sociais que a afectavam. As questões que perpassaram a sua vida e o seu “Quarto de Despejo” continuam actuais numa sociedade de persistentes assimetrias e injustiças sociais.

Se o Disseres na Montanha, James Baldwin (Alfaguara, 2019)

James Baldwin, nascido em 1924, destacou-se desde cedo como romancista, ensaísta, poeta e dramaturgo, e, a par disso, notabilizou-se como uma das vozes mais influentes do movimento de direitos civis, intervindo publicamente em prol dos direitos dos negros e dos homossexuais. Inspirado na juventude do autor, o romance escrito em 195, foi agora publicado em Portugal, retrata a luta de John Grimes, um jovem que quer para si um destino diferente daquele que a família e a comunidade lhe reservaram: o de seguir os passos do padrasto, ministro da Igreja Pentecostal.  A liberdade de traçar a individualidade no seio de uma comunidade segregada é o tema central do livro, desenvolvido numa prosa com lírica, comovente, rica em ira, compaixão e simbolismo.

Uma beleza que nos pertence, José Tolentino Mendonça (Quetzal, 2019)

Este livro reúne um conjunto de textos (aforismos) extraídos das obras que Tolentino Mendonça tem escrito nos últimos anos. Organizados por temas, encontramos entradas sobre a alegria, a vulnerabilidade e o tanto que se pode encontrar, no alfabeto e na vida, entre um A e um V. A figura de Deus perpassa pelos textos, mas ser católico não é ponto essencial para mergulhar neles. Convocam-nos à reflexão, conduzindo-nos a pensamentos e emoções inesperadas. Num mundo que corre veloz, as palavras deste livro trazem-nos para um modo mais lento e atento ao modo como vivemos os dias. Há vida para lá da superfície das coisas, ainda que esta seja, como disse Palomar, inesgotável.