Leituras

por João Pedro Baptista

Quo Vadis, de Henryk Sienkiewicz

Durante muitos anos da minha juventude, habituei-me a ver o filme Quo Vadis nas quadras festivas. Creio que era por ocasião do Natal que o filme era transmitido na televisão, normalmente alternando com o Ben-Hur ou com Os Dez Mandamentos. A memória que retenho dessas grandes produções da época de ouro de Hollywood é muito escassa, mas invariavelmente positiva. Recordo apenas que eram grandes épicos, onde a apoteose das grandes cenas de massas, de cariz mais religioso, andava a par com o entusiasmo das corridas de quadrigas ou das lutas de gladiadores, e o lirismo dos amores proibidos, contrariados pela pertença dos amantes a religiões ou a povos diferentes e antagónicos.

Foi neste quadro que me lancei na leitura da obra maior de Henryk Sienkiewicz. Fi-lo, todavia, bem consciente da enorme distância que pode existir entre um livro e a sua adaptação cinematográfica e que, em via de regra, faz com que a segunda seja uma pálida imagem do primeiro.

Antes de apresentar as minhas impressões dessa leitura e de tecer alguns comentários que ela me suscitou, creio ser útil apresentar sinteticamente Henryk Sienkiewicz, nome cuja visibilidade, pelo menos entre nós, se veio a perder com o passar do tempo.

Henryk Sienkiewicz nasceu em 1846 em Wola Okrzejska, numa família de origem nobre, mas empobrecida. Depois da derrocada financeira e da subsequente mudança familiar para Varsóvia, Sienkiewicz viria a estudar literatura, história e filologia. O seu primeiro romance foi publicado em 1872, após o que Sienkiewicz viajou longamente pelos Estados Unidos, tendo também vivido em Paris. De regresso à Polónia natal, em 1879, a sua produção literária aumentou em número de obras publicadas, na sua extensão e, acima de tudo, na sua derivação para as narrativas históricas, com especial pendor para a temática das lutas históricas dos povos contra a dominação estrangeira.

A sua formação intelectual foi marcada pelo positivismo de origem comtiana que florescia na altura, o que o fez entusiasmar com o grande progresso científico a que se assistia. Opondo-se genericamente ao Romantismo que havia dominado grande parte do século XIX, o Positivismo assumia na Polónia da época uma feição particular, muito por força da situação política vivida.

Recorde-se que, à data, se viviam ainda os resultados da partição da Polónia entre os Impérios Russo, Prussiano e Austríaco. A chamada Polónia do Congresso, ou Polónia Russa, era uma monarquia em união constitucional com o Império Russo, criada em 1815 pelo Congresso de Viena e que, embora formalmente fosse um Estado autónomo, na realidade estava inteiramente subjugada ao poder do Czar Russo, que mais tarde o degradou em província do Império na sequência do falhanço de tentativas de libertação em 1830-31 e 1863.

O Positivismo polaco, no qual Sienkiewicz se filiava intelectualmente, traduzia-se na ideia de que o papel que a Polónia deveria desempenhar no mundo deveria ser alcançado por via da soma dos contributos dos seus cidadãos nos planos do progresso científico, económico e cultural. A reconquista da independência, a ser alcançada, teria de assentar no estabelecimento de uma infraestrutura material e educacional do seu povo e no desenvolvimento de um trabalho orgânico que permitisse à sociedade polaca funcionar como um organismo social integrado.

Não espanta, por isso, que muitos dos romances de Sienkiewicz se prestem a uma leitura marcada por este contexto histórico-ideológico e Quo Vadis não é excepção. Podendo ser visto como um estudo brilhante sobre a tirania e sobre a resistência à mesma, foi amiúde interpretado como uma metáfora na Polónia natal do autor, dominada e espartilhada entre os estados da Prússia, Áustria e Rússia.

Em 1905 Henryk Sienkiewicz foi laureado com o prémio Nobel da Literatura, «por causa de seus méritos notáveis enquanto escritor épico».

Faleceu em 1916, na Suíça, onde se havia estabelecido em 1916, aí fundando com outros notáveis polacos – designadamente o grande pianista Ignacy Paderewski – uma organização humanitária polaca de auxílio às vítimas da Grande Guerra.

Situado na Roma do tempo do imperador Nero (imp. 54-68), o romance Quo Vadis constitui um magnífico épico histórico que retrata o conflito entre o domínio romano, visto como opressor e tirânico, e o surgimento do cristianismo enquanto religião e doutrina daquele antitética e capaz de minar as fundações da civilização imperial e que, por isso, é objecto de perseguição brutal.

O título é a abreviatura da pergunta “Quō vādis, Domine?” (Onde ides, Senhor?), extraída de um episódio dos apócrifos “Actos de Pedro”. Ao fugir de Roma, para escapar à captura e execução a mando de Nero, o apóstolo Pedro cruza-se com Cristo na estrada. Vendo que este se dirige para Roma, dirige-lhe a mencionada pergunta, recebendo como resposta “Rōmam eō iterum crucifīgī” (Vou a Roma para ser crucificado de novo). Pedro retorna então a Roma para prosseguir o trabalho missionário, onde vem a ser capturado e crucificado.

Toda a narrativa do romance gira em torno da polarização de duas mundividências que são apresentadas conflituantes, senão mesmo antitéticas: por um lado, uma sociedade romana pagã em visível decadência, onde o culto das artes, da beleza e de uma ética essencialmente hedonista convivem estreitamente com a tirania do povo, a escravatura, a violência e o terror induzido pelo domínio de Nero, um imperador louco e todo-poderoso, de cujos voláteis humores depende a vida de qualquer pessoa, por mais elevado que seja o seu estatuto social ou os seus méritos – o que, alias, parece ser uma imagem histórica pouco rigorosa, embora bastante comum. Roma é caracterizada como uma sociedade violenta e bestializada pelo culto de deuses impiedosos, cruéis, despóticos, insaciáveis de sangue e – pior – nos quais nem os próprios romanos sinceramente acreditam. Em contraponto, Sienkiewicz mostra-nos um cristianismo primitivo em rápida expansão, sem teologias dogmáticas nem sofisticação intelectual, mas que vive da palavra e do exemplo de Pedro e de Paulo e onde imperam o amor incondicional pelo semelhante, o culto do perdão, a certeza absoluta da possibilidade de redenção e, acima de tudo, uma fé inquebrantável na sua divindade e na promessa da ressurreição, de uma outra vida de bem-aventurança para além da vida terrena.

Essa polarização é ilustrada, prima facie, pela história dos amores de Lígia e de Marco Vinício: ela, uma princesa lígia cativa em Roma e convertida ao cristianismo, pura e imaculada como um lírio-do-vale; ele, um patrício impetuoso e violento, epítome do espírito romano, mas que se vem a converter ao cristianismo por amor daquela.

É a vertente mais romanesca, mas nem por isso a mais interessante do livro ou a melhor maneira de ilustrar a tensão entre Roma e o Cristianismo, sem cair no maniqueísmo que por vezes ressalta um pouco em algumas passagens da obra.

A dimensão mais interessante – e mais importante, diria mesmo – da obra surge através daquela que, para mim, é a personagem mais fascinante do romance: Petrónio, escritor romano, mestre na prosa da literatura latina, satirista notável e autor de Satíricon. Petrónio é um epicurista e um esteta consumado (tem como epíteto “Árbitro da moda”), espírito céptico que apenas jura por Pirro e por Anacreonte e que, pela sua grande cultura e autoridade em matérias estéticas, é respeitado e ouvido por Nero, mas também alvo da sua inveja.

De certo modo, ele é um representante do apogeu da cultura clássica, ao contrário dos demais patrícios, embrutecidos pela adulação do imperador e pelo culto dos espectáculos violentos. É nele que encontramos a real face da tensão e da antítese entre esses dois mundos, entre o mundo antigo que se aproximava do fim e a época medieval que lhe sucederia, marcada pelo domínio e centralidade social da religião católica. E se é certo que o cristianismo virá a alicerçar o seu edifício teológico sobre dois grandes pensadores do mundo antigo – primeiro Platão (reinterpretado por Plotino, figura de proa da escola neoplatónica), depois Aristóteles, bem exemplificados nos “correlativos” Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino – e a sua organização eclesiástica no modelo do império romano, subsiste uma antítese inarredável e que encontra aqui dois dos seus melhores representantes: Petrónio por um lado e as grandes figuras do cristianismo primitivo, Pedro e Paulo, por outro.

O aspecto fundamental em que essa antítese se manifesta é a dimensão religiosa. Como é sabido, o mundo greco-romano era politeísta. Mas o politeísmo grego – que é em grande medida recebido e reproduzido por Roma – não difere do monoteísmo cristão apenas no número de deuses, mas sim no próprio arquétipo. Subjacente ao politeísmo antigo está o conceito fundamental da phýsis, correspondente grosso modo à ideia de uma natureza viva e criadora. O politeísmo caracteriza-se pela existência de um panteão, conjunto de divindades que se aliam e se organizam de forma específica e que encarnam aspectos, qualidades e defeitos diferenciados, por vezes opostos. A ideia de criação do mundo pelos deuses não tem cabimento neste modelo. Ao invés, as divindades antigas provêm da phýsis, e estão no mundo, nasceram do mundo e são imanentes a ele. As religiões helénicas e romana não conhecem profetas, nem messias, nem um livro sagrado onde estaria depositada a verdade, nem promessas de salvação e de imortalidade; ao invés, vivem de um fundo de crenças comuns e de saberes tradicionais, afastando do seu âmbito os conceitos de alma e de transcendência e entregando à filosofia grande parte das questões essenciais. Como se vê, este modelo encontra-se nos antípodas da visão judaico-cristã, que postula a doutrina de um deus único, perfeito, eterno, criador de toda a realidade pelo seu verbo divino, assim afirmando a sua radical transcendência em relação à criação, de si inteiramente depende. O Deus cristão revela-se ao Homem de uma maneira sobrenatural, apelando à fé e a uma adesão profunda do espírito que suplante a certeza. A ideia de um Cristo-homem estabelece uma ponte entre a humanidade e a transcendência divina, surgindo como instrumento de salvação e de redenção do estado natural de pecado. Criação, revelação, pecado, redenção e ressurreição, são categorias absolutamente novas que se opõem ao naturalismo greco-latino.

A esta diferença radical acrescenta-se uma outra, situada no plano ético e político. As sociedades greco-latinas assentavam num modelo de estratificação marcada e no culto de uma ética de perfeccionismo individual, embora acessível apenas aos homens livres. A escravatura era praticada e justificada nas doutrinas filosóficas mais insuspeitas, como é o caso da Política, de Aristóteles. Em contraposição, a visão judaico-cristã afirma a absoluta igualdade de todos os homens perante deus, sejam eles ricos ou pobres, livres ou escravos, cidadãos ou estrangeiros; apela à fraternidade universal e a considerar, aceitar e amar o outro, com os seus defeitos e virtudes e mesmo a perdoar os inimigos. A vida humana é imbuída de um sentido transcendente pela inserção e cumprimento do projecto divino culminante na ressurreição e na vida eterna, que a justifica eticamente em padrões absolutamente divergentes aos do mundo greco-latino.

Ora, é todo este conflito que encontramos subjacente à construção literária do Quo Vadis, em especial nas figuras de Petrónio, por um lado, e de Pedro e Paulo, por outro. Aliás, um dos momentos mais notáveis da obra situa-se na sua parte final, em que assistimos ao diálogo entre Petrónio e Paulo, em cujos destinos vislumbramos perfeitamente esta dicotomia.

E é precisamente no desfecho da obra que Sienkiewicz nos faz antever a “vitória” da nova visão, concretizada na cristianização progressiva do Império Romano, sendo de destacar a sua legalização por Constantino, com o Édito de Milão de 313 e a sua adopção como religião oficial do estado romano pelo imperador Teodósio, com o Édito de Tessalónica, de 380. É como se víssemos a edificação da Cidade de Deus agostiniana – descrita magistralmente aquando da queda do Império – sobre as ruínas de Roma saqueada por Alarico. Porém, e como já se salientou acima, não podemos esquecer que o cristianismo acabou por preservar e construir-se sobre o espírito e a herança cultural greco-latinas, de que Agostinho de Hipona constitui, precisamente, um dos exemplos paradigmáticos.

O estilo de Sienkiewicz é cultivado e erudito e é evidente a sua mestria narrativa, bem patente nos episódios do banquete no palácio de Nero, no incêndio de Roma e nas execuções de cristãos no Circo. Apesar da natureza marcadamente messiânica e apologética do cristianismo que o perpassa, da adopção de uma visão histórica pouco rigorosa no que concerne à perseguição cristã que descreve e à própria figura de Nero, e ao facto de muita da sua fama ser consequência das inúmeras adaptações cinematográficas de que foi alvo, creio que vale a pena ler ou reler este romance, pois ele encerra uma fecundidade literária e cultural de grande interesse.

Termino como comecei, ou seja, pela adaptação cinematográfica mais conhecida: o filme Quo Vadis, de 1951, realizado por Mervyn LeRoy e contando com Robert Taylor, Deborah Kerr e Peter Ustinov nos principais papéis, presença assídua na televisão portuguesa até há algum tempo.

Após a leitura do livro, decidi rever o filme, mesmo sabendo que provavelmente iria destruir uma agradável memória de juventude. Infelizmente, assim sucedeu. A produção hollywoodesca é de um artificialismo atroz e de uma banalidade entediante e, como seria de esperar, centra-se essencialmente na intriga amorosa e na construção de grandes cenas épicas, deixando completamente na sombra toda a dimensão metafórica, filosófica e cultural que a obra convoca.

Felizmente, a perda de uma cara, mas difusa impressão de infância foi substituída e compensada por um mais fecundo e perene prazer literário!

(Henryk Sienkiewicz)

(O martírio de Dirce, Henryk Siemiradzki, 1897)


Quo Vadis, Henryk Sienkiewicz, Civilização Ed., 1978, 448 p.

Bibliografia consultada:

– Pierre Grimal, A Civilização Romana, Lisboa, Edições 70, 2017;

– Jacqueline Russ, L’aventure de la pensée européene, Paris, Armand Colin, 1998;

– A. A. Long, Hellenistic Philosophy – Stoics, Epicureans, Sceptics, 2.ª ed., London, Duckworth, 1986;

– Keith Bradley, Slavery and Society at Rome, Cambridge University Press, 1994.