Sociedade

A ganância ou o verdadeiro sentido das luzes de Natal

por Carla Coelho

E assim chega dezembro, o último mês de um ano que às vezes parece estar ainda a começar, tal não foi a rapidez com que passou por nós. Isso e a multiplicidade de acontecimentos, efeito agridoce de vivermos em tempos interessantes. Com as festas natalícias e as férias que muitos gozam nesse período em breve estaremos em 2020, um ano novinho em folha.

Antes, porém, convém fazermos um compasso de espera e mergulharmos no significado mais pleno deste mês de Dezembro. E, como o verbo de eleição do mês é dar, pareceu-me o momento certo para trocamos umas ideias sobre a ganância, voltando ao sempre entusiasmante tópico dos pecados mortais.

Todos temos as nossas tradições nesta época. Uma das minhas é voltar a ler Um conto de Natal de Charles Dickens. Publicado pela primeira vez em 19 de Dezembro de 1843, o seu protagonista é Ebenezer Scrooge um homem que detesta o Natal. Scrooge, ao lado de Oliver Twist, é o mais famoso personagem do prolífico escritor inglês. A sua história é por demais conhecida. Ganancioso em último grau, prepara-se para amargar a quadra festiva a todos os que o rodeiam, desde os seus colegas comerciantes, ao alegre e natalício sobrinho, terminando no seu amanuense, a quem quase mata de frio ao recusar manter a lareira acesa de modo a combater os rigores do inverno inglês. A avareza de Scrooge não é sequer travada pelo recente falecimento do sócio, Marley.

Mas os seus planos saem totalmente gorados. Durante o sono é sucessivamente visitado pelos Fantasmas do Natal Passado, do Natal Presente e do Natal Futuro. O resultado dessa noite assombrada é uma transformação radical de Scrooge. De comerciante agarrado doentiamente ao dinheiro, uma espécie de Tio Patinhas sem graça, transforma-se num ser radiante, generoso, feliz por estar vivo e capaz de compreender a beleza do Natal, com o seu apelo à partilha e à renovação dos seres humanos.

O avarento torna-se generoso. Distribui dádivas aos menos afortunados, em forma de esmolas, gratificações e perus. E também aos seus familiares, a quem presenteia com a sua alegria e boa disposição, sentimentos que envolvem a capacidade de ir ao encontro do sobrinho e reconhecer o erro da sua forma anterior de estar. Num momento que considero especialmente tocante, Scrooge volta para o escritório após as festividades. Percebemos aí que o Natal não terminou e que se instalou para sempre no seu coração.

Quando investigamos a origem do Natal percebemos que, para lá do seu fundamento religioso, ele surge a ocupar um período que para a Europa Ocidental foi sempre festivo. O solstício de inverno desde tempos imemoriais encerra a promessa de dias mais longos e quentes, paisagens verdejantes e culturas futuras abundantes. Os velhos costumes do solstício instalam-se por esta altura na casa de alguns de nós, com o verde e o tronco natalício, as iluminações festivas (herdeiras da convicção de que a luz afasta a obscuridade) as refeições opíparas e a solidariedade com os mais desfavorecidos.

O mesmo espírito de renovação e reencontro presidia também às festividades à volta do deus pagão Mitra e à celebração do Sol Invictus romano. Os presentes que ainda hoje trocamos têm a sua origem nesta última celebração. Simbolizavam os desejos de abundância e saúde para o novo ano que se aproximava. O que explica o motivo pelo qual, durante séculos as prendas eram essencialmente alimentos, como as laranjas e o açúcar, por exemplo. É só com a ascensão da burguesia que o Natal começa a ter a configuração que hoje lhe conhecemos, com a troca de presentes mais elaborados e a deslocação do centro da celebração do espaço comunitário (tradição que permanece, por exemplo, em algumas aldeias portuguesas) para o seio familiar.

As prendas são hoje uma das pedras de toque do Natal. Numa sociedade em que o elemento espiritual se esbate e o consumismo e desperdício se instalam isso não surpreende. Apesar de quase todos reconhecermos um certo exagero na sua aquisição, na hora da verdade não é fácil exercer o esforço de contenção. Por outro lado, todos sabemos que para muitos de nós, o Natal implica também a obrigação (moral ou social) de presentear pessoas que, em circunstâncias diversas, não estariam na nossa lista de compras. Será isto hipocrisia? Talvez não. Na verdade, se pensarmos no verdadeiro sentido do Natal, talvez que esses presentes que nos obrigam a pensar por um momento nos que não nos são tão queridos, e os que traduzem um agradecimento, acabem por ser, se deixarmos, compatíveis com a verdade do Natal. São eles que nos obrigam a ser generosos e nos convidam a abrir o coração, nem que seja apenas uma fresta, àqueles com quem não nos sentimos habitualmente em comunhão.

Ebenezer Scrooge ilustra de forma perfeita um dos sete pecados mortais, a ganância. De forma sucinta, podemos entendê-la como um apreço excessivo pelo dinheiro e as coisas materiais, destituída de preocupação quanto ao modo como chegamos a ela e as consequências do nosso acto para terceiros. Este pecado, que caminha a par e passo com a avareza (receio obsessivo de perder bens materiais), introduziu limitações importantes na vida dos cristãos do ponto de vista histórico. A proibição de se dedicar ao comércio e, em particular, ao empréstimo de dinheiro só lentamente foi afastada, muitas vezes com recurso a bulas e doações avultadas à Igreja. Dante, no seu Inferno, colocou no quarto círculo, lado a lado, os avarentos e os esbanjadores. Porque no fundo o pecado é o mesmo, um apreço excessivo pelo dinheiro e as coisas que ele pode comprar. Aliás, o castigo reservado aos gananciosos no inferno é ainda uma homenagem, servida com ironia, a isso mesmo: ferver eternamente num caldeirão cheio de óleo. O mais refinado e caro dos óleos, claro. Mas isso pouca diferença deve fazer face à temperatura do mesmo, digo eu.

Há quem defenda que a ganância tem um lado bom, porquanto nos conduz ao trabalho e à luta para conquistarmos as coisas que desejamos. Francamente, embora eu esteja sempre à espreita do lado bom dos pecados, não me parece que aquele raciocínio, completado ou não com a recordação da mão invisível de Adam Smith, tenha grande viabilidade. Simplesmente porque a ganância não é apenas o apreço pelo dinheiro e coisas materiais. Há um outro elemento que a caracteriza e que não tem redenção: o desinteresse pelo modo como aquelas são obtidas, designadamente pelo seu custo para terceiros.

Basta olharmos à nossa volta para vermos como a ganância não tem um lado que se aproveite. O estado do planeta em termos climáticos e as desigualdades sócio-económicas, com uma parte da população mundial mergulhada em pobreza endémica que, para além de múltiplos factores de ocorrência, tem também nas estruturas de produção e comércio global, um importante esteio e motivo de manutenção, são exemplos claros. Mas também os exercícios de manipulação que estão muitas vezes subjacentes à publicidade para todas as idades. Basta acompanharmos um segmento publicitário para percebermos que um perfume ou um carro não são apenas um perfume ou um carro. São um passaporte para um estilo de vida.

Mr. Scrooge é o mais famoso avarento da literatura ocidental. E mostra bem como a ganância não só espalha a miséria à sua volta, como não faz feliz o pecador. A riqueza acumulada em nada contribui para ser alegre, pelo contrário, apenas adensa a sua solidão. Talvez porque, como diz o povo, o dinheiro é um bom criado e um mau patrão.

Mas a personagem de Dickens acaba por ser um exemplo de redenção. Não enquanto persiste em navegar as ondas encrespadas da ganância. Mas sim, quando se transforma e aprende a dar bom uso ao dinheiro. Veja-se que não se torna um esbanjador. Compreende que o dinheiro, é um meio, não um fim em si mesmo. Daí que Dickens não o tenha colocado apenas a oferecer dinheiro e prendas. Percebendo que a ganância de Scrooge lhe tinha também afectado a alma, coloca-o a ir ao encontro do sobrinho, dando-se a si próprio, com o coração aberto e renovado.

O seu exemplo é o antídoto perfeito para estes tempos em que o frenesim da época nos pode fazer esquecer o essencial. Ainda bem que temos luzes de Natal à nossa volta, ainda bem que temos família e amigos com quem reunir à mesa e até aquela pessoa que nos testa na hora de escolher o presente para lhe dar.  Que não sejamos gananciosos nas ofertas, não só desejando o que não nos cabe, mas não sendo avarentos na hora de oferecer. Para com os que conhecemos. E também para os que estão longe e nem sabemos quem são, mas que são responsáveis pela elaboração dos bens que vamos oferecer. Que saibamos eleger quem produz coisas bonitas de forma bonita, com respeito pelo ambiente e pelo planeta e para com todos os que entram no processo de produção, distribuição e venda. Que tenhamos disponibilidade mental para escolher o presente certo para cada pessoa em vez de corrermos os conhecidos a latas de chá e velas. Que tenhamos a capacidade de pensar e agir a favor dos mais desprotegidos na nossa sociedade. E que não sejamos avarentos com os nossos afectos, sabendo reencontrar amigos, colegas, conhecidos e família, esquecendo mágoas e arquivando zangas antigas.

E que, como Scrooge, saibamos acolher o espírito de renovação e partilha do Natal nos nossos corações durante todo o ano.

Boas Festas!

(Imagens do filme “Scrooge”, de Brian Desmund Hurst, 1951)

Bibliografia:

– “Um conto de Natal”, in Contos de Natal, Charles Dickens, Círculo de Leitores.

– A Divina Comédia, Dante Alighieri, Quetzal

The Joy of sin, The Psychology of the Seven Deadly Sins, Simon Laham;

Fête des fous, Saint Jean e Belles de Mai – Une Histoire du calendrier, Seuil, 2008