Entrevistas

À conversa com Colin Vieira

por Filipa Gonçalves

Colin Vieira, bailarino, professor de dança e coreógrafo, nasceu no Funchal em 1988, e ainda era uma criança quando se encontrou, num pas de deux perfeito, com a dança.

Recebeu formação específica e consolidou experiência em dança Jazz, Lyrical, Ballet Clássico, Contemporâneo e Musical Theater e, complementarmente, em teatro, acrobacia aérea e novo circo.

Conversámos sobre a sua paixão pela dança, que vê como veículo de emoções, e fê-lo atravessar a ponte entre a interpretação e a coreografia, participando em vários espectáculos, competições, programas televisivos conhecidos do grande público, nos corsos de Carnaval da Madeira e da Festa da Flor da Escola de Samba “Caneca Furada”, eventos acarinhados na sua ilha e nos quais faz questão de continuar a participar.

O seu projecto “Art of Dance by Colin”, a menina dos seus olhos, funcionando como um estúdio coreográfico, cujo trabalho é apresentado regularmente em espectáculos, festivais e competições de dança nacionais e internacionais, granjeou-lhe, e aos seus alunos, vários prémios dos quais se orgulha.

O maior orgulho são, porém, os seus alunos, esses que não admite não virem a tornar-se melhores que ele.

Como é que começaste a querer dançar?

Havia um filme que adorava, que me punha quieto. Era o “Flashdance”. Tinha cerca de cinco anos e queria sempre ver a parte em que ela entrava numa companhia de dança.

Quando o Colégio da Apresentação de Maria abriu a primeira turma para rapazes eu entrei. Havia o “dia do filme” em que trazíamos para a escola o nosso filme favorito. O meu era aquele. Lembro-me de ter posto o filme e de a Irmã ter saltado por cima de três filas de crianças para tapar a televisão. A minha mãe foi chamada à Madre Superiora e quase fui expulso (risos). Foi um bocadinho escandaloso. A minha vida começou muito bem. A partir daí… (risos).

Quando entraste na escola, quiseste logo ter aulas de dança?

A minha mãe, contra a família toda, sempre disse que se eu gostava de dança ia descobrir o que existia. Descobriu a escola do Francis [Cardoso], e comecei a ter aulas de jazz. Fiquei derretido da vida.

Começaste a participar em eventos da escola? Em que momento percebeste que afinal não era só um gosto, que ias ser bailarino?

É curioso porque nunca tive essa percepção. Sempre vi a dança como “só sei dança”. Gostava e tinha jeito para muita coisa. Tudo o que achava que podia fazer para ajudar alguém, queria fazer.

Tudo era estimulante para ti.

Sim. Quando me perguntavam o que queria fazer quando crescesse, respondia com base nas minhas experiências. Mas a dança sempre esteve ali. Só via aquilo. Pensava, talvez por estigma social, que tinha que ter um trabalho…

Uma profissão mais convencional…

Exactamente.

Apesar disso estavas na escola de uma pessoa [Francis Cardoso], muito conhecida dos madeirenses, que desde cedo seguiu um percurso profissionalizante com a dança. Não vias essa possibilidade para ti?

Não, não via. Sempre me disseram que podia dançar à vontade, mas como hobby. Tinha que ter um curso e um trabalho normal. Então decidi que queria tirar Educação Física. Só que, penso que tinha oito anos, fizemos [a escola de dança] um espectáculo que esteve residente no [Hotel] Baía Azul cerca de um ano. A temática era a Branca de Neve e os sete anões. Toda a gente gostava e achava piada. Aí percebi que só queria dançar e participar em espectáculos.

Só pensavas na dança.

Só pensava na dança. Mas nem era pelos aplausos. Era o que gostava e queria que vissem a minha paixão. Na minha vida profissional o que me ajudou, de certa forma, a destacar-me dos meus colegas era a emoção que punha quando estava em cena. Era a paixão e vontade de dançar. Até hoje tenho essa regra com os meus alunos: todas as minhas coreografias têm de passar qualquer tipo de emoção. Quando crio emoções nas pessoas, sei que fiz um bom trabalho.

No meio deste processo entrava na [nos desfiles] Festa da Flor e no Carnaval, sempre na Caneca Furada. Acho que foi aos oito anos que entrei no Carnaval e na altura ainda não havia crianças no desfile. Fui a abrir uma ala de rapazes, lembro-me que estava com um fraque, com abas de grilo e uns sapatos que pareciam do Fred Astaire, que a minha mãe conseguiu arranjar.

Falamos de outra vertente que, de certo modo, já tinhas vivido no Baía Azul, que é a da dança como espectáculo, com tudo o que isso implica, designadamente em termos de guarda-roupa…

Para mim já era normal. Acho piada quando me perguntam coisas específicas sobre a preparação, mas é uma coisa a que honestamente nem ligo. A cena do fato, do vestir, já faz parte. Via-o como uma forma de chegar ao objectivo e só mais tarde, com a idade, tornou-se um ritual. A minha paixão é estar em palco e passar aquela emoção toda.

Foi também nos carnavais que a Caneca Furada, quando o Francis saiu, convidou-me para coreografar. Tinha catorze anos. Lembro-me de chegar à frente de duzentas pessoas que estavam todos a falar, já se conheciam, era a comunidade Caneca Furada e cheguei, dei boa-tarde e disse que era quem ia coreografar. Começaram a rir na minha cara (risos).

As pessoas pensavam que era uma brincadeira…

Sim. Eu olhei para aquela gente toda e disse “não, vocês vão começar a ensaiar e vão começar agora”. Recomeçaram a falar como se nada fosse. Agarrei numa coluna, atirei-a para o chão e parti aquilo tudo. Ficaram a olhar para mim, eu disse “ou vão começar ou vão sair”. Chegaram-se todos para a rente e, a partir daquele momento, senti que tinha começado a impor respeito. Tinha que fazer com que me respeitassem e ouvissem o que tinha a dizer. A maneira que arranjei foi destruir uma coluna (risos).

Num ano, o Casino da Madeira participou no cortejo como patrocinador do nosso carro alegórico – o tema do desfile era “Noites da Madeira” – e trouxe o show na Sian Lesley com alguns bailarinos em cima do carro, e ela viu-me e disse que queria que fizesse uma audição. Aceitei, entusiasmado, porque os bailarinos do casino eram o máximo em termos de dança na Madeira. Fiz a audição e fiquei. Tinha dezassete anos e como era menor tinha que entrar pelas catacumbas do Casino para fazer o espectáculo (risos).

Quantas vezes por semana e a que horas era?

Era de quarta a sábado, sempre às 21.30 horas, durante sensivelmente quarenta e cinco minutos.

E os teus pais?

No início ficaram um bocadinho reticentes, mas a minha mãe disse que ia pôr-me e buscar-me. Até estava a receber dinheiro, o que era simpático. Comecei a trabalhar profissionalmente aí. Ao longo do tempo que lá fiquei percebi que era o que queria fazer.

Entretanto, cerca de dois/três anos depois, recebi uma proposta para vir trabalhar para um espectáculo, que era o “Four”, no Casino Estoril.

Quando estava a acabar o 12.º ano, e não estava a concordar nada com aquilo, percebi que tinha que arranjar alternativas.

E nesse momento surge o convite para vires para cá. Uma conjugação de circunstâncias.

Foi um mais um. Disse à minha mãe que lamentava, mas não iria continuar a estudar, ia trabalhar. Vim para Lisboa, onde estive durante treze meses. Nesse período tive que fazer substituições em momentos de acrobacia área, e gostei muito. Quando acabei o contrato voltei para o Casino da Madeira, onde fiquei cerca de um ano, e decidi, para ter uma formação mais profissionalizante e ter um back-up se deixasse de dançar, inscrever-me no Chapitô.

Como decidiste participar no programa “Acha que sabes dançar?”

Dentro do Casino todos víamos o programa a nível internacional e por piada dizíamos que se um dia viesse para Portugal concorríamos todos. Era o primeiro programa a sério de dança, com bons bailarinos, etc. Entretanto a SIC e a Endemol decidiram fazer a versão portuguesa. Estava no 2.º ano do Chapitô…

Enquanto frequentaste o Chapitô continuaste a dançar?

Estive quase um ano sem dançar porque estava focado no curso. Quando podia fazia uma aula, mas basicamente não dancei. No meio do 2.º ano fiz uma audição para o “Achas que sabes dançar?”. Era um programa em que gostava de participar e que poderia dar-me o estatuto que tinha na Madeira, maior, e decidi arriscar. Inscrevi-me, fiz as audições e passei para as audições finais. Antes destas, decidi fazer uma audição para um espectáculo do Filipe La Féria, no Casino Estoril. Fui ficando até à última e no fim, quando ele decidiu quem ficava, éramos cerca de dez, levantei o braço, agradeci e disse que não podia ficar. Estava a acabar o curso no Chapitô e ponderei que se ficasse no espectáculo não ia acabar. Ligaram-me mais tarde a perguntar se tinha a certeza e disse que sim até porque não sabia o que ia acontecer com o “Achas que sabes dançar?”. Fui convidado, entretanto, para ver uma peça dele, um musical, e ele reconheceu-me e disse que regressasse quando acabasse o programa, mas já não me sentia confortável.

Já tinhas seguido outro caminho?

Sim. Sempre disse que tinha que começar a criar raízes aqui, ter estabilidade. Como a dança não tem grandes possibilidades tinha que ser mais esperto que os meus colegas. Lentamente, ia fazendo as coisas que queria e como queria, porque tinha a ajuda da minha mãe no pagamento das rendas e estudos, mas sempre pensei que não queria ser igual aos meus colegas a ter que pedir trabalhos. Não queria fazer isso.

Era o desconforto da precariedade?

Exactamente. Até porque nós, madeirenses, temos uma grande qualidade de vida, mesmo não tendo o mesmo dinheiro. Tinha medo. Alugar quartos, ter um estilo de vida muito desprendido, onde nada é teu, sempre me fez um bocadinho de confusão porque gosto de ter as minhas coisas.

Tiveste que desenvolver estratégias para ter aquilo que te fazia sentir bem, continuando a prosseguir a tua paixão.

Exactamente. Até porque quando vim para cá estava num quarto alugado e senti que não estava a fazer as coisas com a mesma vontade que fazia antes.

Era preciso um certo equilíbrio…

Mais, era preciso um conforto maior para eu estar bem. Porque, bem ou mal, está muito interligado. Como gosto de jogar muito com as emoções posso ter que fazer um trabalho em que tenho que estar de cara séria, e faço, mas não de dá gozo nenhum. Tem que ter algo mais, senão fico quieto. Senão é trabalhar por dinheiro, já não é paixão. Conforme os anos vão passando, vai-se tornando diferente, temos outras prioridades, etc., mas no fundo eu já deixei de sentir aquele nervosismo, só voltei a ganhá-lo agora, enquanto coreografo, quando decidimos ir a competições.

Houve a necessidade de procurares mais desafios?

Sim, cada vez mais. Sentia que bastava entrar em palco, estar bem penteado e dar duas piruetas e era suficiente para as pessoas ficarem felizes e dizerem que gostaram. Já não era aquela coisa em que eu dançava para tocar as pessoas. Tentei voltar a trazer isso para mim mesmo e decidi dar aulas.

Mas depois do “Achas que sabes dançar?”, a par das tuas aulas, continuaste no circuito televisivo.

Continuei um pouco porque, logo a seguir, outra estação fez o “Dança com as estrelas” e pediram-me uma ajuda na coreografia. A partir daí começaram a chamar-me sempre para tudo o que era Contemporâneo.

Comecei a ficar mais focado na coreografia quando já não era tão prazeroso ser intérprete. No segundo “Achas que sabes dançar?” convidaram-me como coreógrafo e começaram a surgir muitos projectos televisivos. Até agora não houve nenhum programa de dança, a não ser o “Dança Comigo”, em que não tivesse participado, num como bailarino e nos outros como coreógrafo. Fui ficando (risos).

Optaste por te apresentar assim?

Nunca me apresentei como coreógrafo. Sempre como bailarino, professor de dança e por último, agora, coreógrafo. A ordem normalmente era esta. Depois, com o tempo, o público, os clientes, as escolas e o pessoal da dança já não me via só como bailarino, mas como corégrafo. Como gostaram parece que anularam tudo o que eu já tinha feito. Já não consegui dar a volta a isso, o que para mim até foi bom porque estava a fazer aquilo que gostava, o meu estilo.

Em todo esse contexto surge o teu projecto mais pessoal que é o “Art of Dance” …

Sim. Esse projecto surge de forma engraçada. Tinha alunos que já estavam comigo há algum tempo, a atingir uma boa qualidade técnica e, entretanto, a Ana Köhler decide levar a escola dela a Las Vegas (aos “The Dance Awards”) pela primeira vez com Jazz e pediu-me que preparasse uma equipa para ir. Quando o fizemos havia discrepâncias de idades nos participantes, tivemos que dividi-los em duas idades para toda a gente a competir e sobrava uma aluna. Surgiu a hipótese de trazer gente de fora da EDAK para ajudar a tornar possível a participação desta aluna. Chamei as minhas alunas mais avançadas para dar esse apoio e criar um grupo. Foi quando ganhámos os títulos lá fora. Ficámos em 1.º lugar em (Open) Lyrical e 4.º lugar em Open Groups. Ficamos muito surpresos por, no primeiro ano, arrecadar qualquer coisa de interessante. Pensei: se estes gurus da dança conseguiram olhar, classificar e na pontuação e descrição de júri elogiaram a técnica, se calhar estou a fazer alguma coisa interessa e decidi reunir um grupo para fazer um estudo coreográfico e ver no que ia dar.

A ideia era trabalhar uma coreografia de modo mais prolongado no tempo?

Inicialmente era para ser um projecto em que os alunos trabalhariam coreografias e, mais tarde, se desse para apresentar alguma coisa logo víamos.

A funcionalidade de um estudo coreográfico é, no fundo, trabalhar-se em grupo – ou não – mas principalmente em grupo uma coreografia ou um excerto de forma a que toda a gente se sinta quase dentro de uma companhia.

Depois, surgiu a hipótese de participar num concurso, o “Gym for Life”, da Federação Portuguesa de Ginástica, e as coisas tomaram outro nível de exigência. Fomos puxando cada vez mais. Algumas pessoas acharam que já não era aquele o seu intuito. Sempre esteve em cima da mesa a possibilidade de entrarmos em competições, se calhar não no primeiro ano, mas talvez no segundo, com mais maturidade. Mas aconteceu tudo no mesmo ano: começamos a competir, ganhámos e toda a gente começou a olhar para nós.

No início como foste buscar essas pessoas? Já eram teus alunos de outras valências?

Abri uma audição, mas disse aos meus alunos dos níveis mais avançados que, caso quisessem entrar, ficavam automaticamente seleccionados. Alguns fizeram a audição, outros não e vieram outros de fora que, sem saber bem o que era, pelo meu nome, vieram. Na primeira audição tivemos cerca de cinquenta pessoas.

Estavas à espera ou surpreendeste-te?

Fiquei um bocadinho surpreso. Sabia que alguns alunos iam aparecer, mas não estava à espera que tantas pessoas de fora, que não conhecia ou que depois mencionaram que já tinham feito um workshop comigo, quisessem participar.

O bailarino ficou para trás e o coreógrafo está agora em pleno?

Sempre disse que me ia reformar aos trinta anos, e diziam-me que era uma estupidez. A nossa esperança de vida profissional é entre os 18 e os 25. 30 anos já é bom.

Continuas, ainda hoje, a achar que é assim?

Não em Portugal. Lá fora sim. Os níveis de exigência são cada vez maiores e conseguimos dançar até aos trinta. Quarenta anos é mesmo excepção, quando seja alguém que tenha um físico muito bom, treinado desde novo e etc., porque as limitações surgem a partir nos trinta. A flexibilidade começa a perder-se, as costas e joelhos começam a reclamar. Trabalhamos para além daquilo que o nosso corpo permite.

A esse nível tiveste que fazer muitos sacrifícios?

Não, porque gostava do que fazia. Ter que alongar, trabalhar muito os pés – tinha pés muito “feios”, chatos, e não aquilo que nós chamamos um “pé bonito”, com um bom coup de pied, e tive de trabalhá-los muito – era normal para mim. Fiz muitas coisas por curiosidade e inconscientemente, com o propósito de aperfeiçoar determinados movimentos, que vieram a ajudar-me depois.

Como coreógrafo referes a dança como veículo de transmissão de emoção. Tive oportunidade de ver um ensaio teu e achei curioso que aparentemente, na tua coreografia, há um texto e um subtexto, parece que é bifocal. Dirias que isso é característico do teu trabalho?

É. Acho que é uma das coisas que mais me define, e têm tentando imitar-me, mas ainda não conseguiram (risos). Gosto que não se consiga perceber tudo à primeira. As dúvidas criam a vontade de querer ver outra vez o trabalho.

Foi intuitivo?

Sempre fui muito intuitivo no meu trabalho, de fazer as coisas de maneira diferente e não só o que os cânones impõe. Não mando no mundo, mas com as pessoas que querem estar comigo vou desenvolver o meu trabalho da forma que acho que deve ser feita. Sempre com essa directriz de passar a máxima emoção. Em todas as minhas coreografias pode haver vinte pessoas a olhar para a frente e uma está a olhar para o lado. Temos que que perceber onde essa pessoa está. O que mais gosto de fazer é criar histórias para interpretação de cada pessoa.

Sentes-te confortável com o facto da interpretação da tua coreografia se desprender de ti como autor? Que ela tome uma vida própria?

Gosto que as pessoas tenham a sua própria interpretação. Eu tenho a minha e muitas vezes não digo o que estou a fazer. Começo a fazer as coisas e não explico. E eles (bailarinos) às vezes perguntam sobre o que é, digo que é sobre isto ou aquilo e às vezes nem é porque quero que se foquem no que estou a fazer. Depois, quem estiver a observar, terá outra interpretação.

Acaba por ser muito interessante esse input que tens do público…

Super. Porque acabo por olhar para aquilo de maneira diferente, tentando ver o que as pessoas vêem e como viram. Acho imensa piada porque não gosto de ser óbvio naquilo que faço.

Gosto de deixar espaço para a imaginação de quem vê. Acho crucial.

Há alguém que identifiques como influência ou referência no teu trabalho?

Visivelmente, o Mike McCabe, o coreógrafo do Casino da Madeira. Apesar antes de ter tido o Francis como professor, quando comecei a dançar profissionalmente era ele quem dizia “isto é bom, isto não é”. Em tudo o que fazia, para mim, era um génio.

Teve um papel formativo no teu gosto?

Teve porque para eu trabalhar tinha que fazer da forma que ele dizia. E fez-me ficar muito agarrado à parte técnica do Jazz porque o exigia. Acabou, sem se apercebeu, por tornar-se uma grande influência no meu trabalho porque eu “sugava” tudo o que ele dizia, gostava muito das coreografias dele e o modo como as abordava. Achava-o um génio porque estava a fazer coisas simples, mas a forma como fazia, a ligação que tinha à música, era muito interessante. Acho que tem muito mais influência em mim do que pensava porque vejo-me a fazer coisas, e parece que o ouço a dizer “atenção ao pé, atenção que isto não está muito bem feito”, e exijo isso aos meus alunos. Tenho mesmo referências dele. No meu inconsciente ele está a gritar-me (risos). E depois tenho daqueles de quem sempre vi peças ou outros trabalhos e admiro muito, como o Travis Wall. Ele é muito emocional também e gosto imenso do trabalho dele, com o qual me identifico. A base é a mesma que a minha, o Jazz, o Clássico, e o Contemporâneo e encontramo-nos num futuro completamente distinto, mas com paralelismos.

Por onde começa uma nova coreografia?

Eu nunca sei. Às vezes pelo refrão, às vezes pelo fim, raramente pelo início.

Escolhes uma música primeiro?

Às vezes sim, outras com um tipo de movimento ou sequências de movimento, e não gosto da música e troco, mas tento não desperdiçar o que está ali. Mudo a música, depois vejo que não encaixa apago tudo o que fiz e crio deste o inicio. O processo de trabalho nunca é o mesmo, mas sei qual vai ser o resultado final, a visão que quero.

Então começa com uma abstracção?

Às vezes, o problema é que na minha cabeça isso é tão complexo que não consigo dizer que a formula é essa. Às vezes é uma ideia, uma inspiração com uma coisa que vi na rua, às vezes quero criar um determinado momento. Mas começo a criar e conforme vou desenvolvendo vai para outra coisa completamente diferente e, aquele início que me estimulou, já não tem importância. É um pouco como as raízes, estão a ir para todo o lado e não sei porquê que uma é mais grossa que outra ou tem mais importância que outra. Sou muito emocional, se estou bem consigo coreografar; se não estou nada bem, não consigo. Faço porque tenho que fazer, mas no dia seguinte apago porque não gosto. É muito complexo e confuso, e é com isso que tenho que lidar na minha cabeça todos os dias (risos)

Como te vês daqui a dois anos?

Na realidade ou nos meus sonhos?

A escolha é tua.

Vejo-me a ter um projecto maior ao nível da formação de dança; ainda com menos tempo do que tenho agora (risos); com menos amigos porque não terei tempo para eles; e muito cansado. Gostaria de ver-me com a minha própria escola, com os meus projectos a funcionarem muito bem, mas principalmente ver os meus alunos a ultrapassarem-me, a serem melhores do que eu. Quando sinto que já não tenho nada para ensinar-lhes mando-os embora, e quero que cheguem a esse ponto. Não consigo que sejam inferiores ou iguais a mim. Têm que ser melhores, em tudo a nível ético e técnico; mas a parte ética…o pessoal de Lisboa – talvez seja eu que sou muito formatado em inglês – mas tem uma forma de estar que não consigo compreender.

Em que medida?

Talvez por sermos ilhéus, queremos uma coisa e vamos a ela porque não temos outra hipótese. Agarramos muito as actividades que temos e tornamos aquilo quase prioritário. Aqui não, é mais “vou ali dançar um bocadinho e está bom” e quando se lembram que querem ser bailarinos já é um pouco tarde. Não há essa paixão, essa vontade de agarrar as coisas.

Notas uma tendência para a dispersão?

Muito. Aqui há muita distracção. E uma coisa curiosa, porquê que os bailarinos do Norte e as escolas do Norte são melhores que as de Lisboa? Porque há menos distracções. Eles só têm aquilo, como nós na Madeira só temos aquilo. Não temos mais. Não temos a variedade e possibilidade de distracções ao longo do dia. Aqui há e acaba-se por perder o foco. Até eu sinto dificuldade…

Achas que será isso ou será geracional, a a questão da cultura de entretenimento generalizado?

Há isso, mas eu próprio às vezes não consigo completar projectos. Há muita coisa a acontecer ao mesmo tempo. Lisboa vive 24 horas. Na Madeira acabamos o trabalho às oito da noite, chegamos a casa e temos o prazer do lazer. Aqui há telefonemas a acontecer, estamos constantemente a trabalhar e acabamos, no meio de tanta coisa, por dispersar muito. São raras as pessoas que têm “fome” de fazer uma coisa.

Falando nessa questão, que me parece ter muito a ver com uma certa resiliência, com a vontade de atingir um determinado objectivo, qual foi o maior sacrifício que tiveste e tens que fazer pela tua carreira?

Tenho que fazer muita coisa que muitos não entendem. Muitas vezes tenho que não existir. Quase não existo no meu círculo de amigos; os meus amigos próximos sabem que só falo com eles uma vez por mês porque a seguir acabo por não ter muita vida pessoal e aquela que tento ter não é suficiente. Às horas que estou a trabalhar é quando a maioria das pessoas sai do trabalho. Não sei o que é ir a um jantar de amigos há muitos anos. Ou é o dia de aniversário de uma pessoa importante e faço trinta por uma linha para estar lá ou é rara a vez que tenho a malta reunida em casa para jantar.

Compensa?

Às vezes. A dança é muito solitária. Sempre soube lidar com isso porque gosto, mas sinto muitas vezes a falta de viver um pouco. E aquele horário mínimo que tenho e até tinha que trabalhar noutras coisas, digo que não consigo e preciso de desligar. São horas, ou dias ou desgaste que tive naquele dia e, a determinada hora, não quero fazer nada a não ser estar em casa a ver filmes e esconder-me. Há uma coisa que a dança exige que é a resiliência emocional. É preciso ter muita para dançar, porque há muitos “nãos”, muitas limitações físicas e outras sobre as quais não temos qualquer tipo de controlo, seja porque não é uma boa época, porque não há apoios, não há um sítio para expores o teu tipo de dança. É o meu caso com o Jazz, que esteve muito em voga e depois surgiu em força o Hip-Hop e só voltou agora à cena, principalmente em Portugal, com o “Achas que sabes dançar?”. A dança é cíclica, ora isto vende, isto está na moda…

Isso também exige uma certa capacidade de antecipar tendências?

Muito, principalmente para quem está a criar. No último espectáculo da Jazzy (Dance Studios), por acaso encontrei uma versão do Rei Leão que adorava e, a altura em que ia levar essa coreografia a palco, coincidiu com a estreia do filme. Estava engraçada, mas acho que foi um sucesso principalmente por causa do filme. É preciso antecipar, mas por vezes as coisas conjugam-se. Acho piada a essa parte porque às vezes tenho sorte em pequenas coisas.

O que achas importante transmitir?

Acho que as pessoas têm que ser felizes a fazer o que mais querem e gostam, é muito importante. Eu não me via a trabalhar atrás de uma secretária, dava em louco. Mas essa felicidade desaparece, torna-se trabalho. É essencial não nos esquecermos que estamos primeiro porque se não estivermos bem não conseguimos fazer nada.

É preciso ter para dar?

Sempre. E faço questão que os meus alunos saibam isso e tenham a humildade de ter para poder dar.

(Entrevista realizada no dia 30-11-2019 e editada para facilidade de leitura)