Música

No Concerto dos Belle and Sebastian

por Raquel Reis

A sala esgotada para ir ver Joana Espadinha “empurrou-me” para o concerto dos Belle and Sebastian, na Aula Magna. 

Foi a Sofia quem deu a ideia alternativa: “E se fôssemos ver os Belle and Sebastian?”. A Sofia é aquela amiga com quem temos mais afinidades musicais; com quem partilhamos aquelas adorações, que mais ninguém entende e comunga, no nosso caso, Rufus Wainwrigth! Por isso, quando me lançou o desafio dos Belle and Sebastian não hesitei por um segundo. Confio sempre nas escolhas de Sofia e, mais uma vez, não me arrependi.

Por isso, naquela noite chuvosa, pouco agradável para se estar longe do conforto do lar, rumámos aceleradas à Aula Magna, como é já nossa tradição, sem sequer conseguir jantar ou não fôssemos nós fiéis causídicas. Como já não estávamos juntas há um par de meses, aproveitámos a primeira parte, a cargo dos “Tape Junk”, para tentar pôr a conversa (a meia voz) em dia. Mas mesmo em surdina, acabámos por receber uns olhares furibundos de um sujeito, sentado na fila da frente, pelo que resolvemos abafar as cusquices e prestar devida atenção ao que estava a ser tocado em palco. Foi uma bela surpresa. Nova música portuguesa com sotaque inglês, bem tocada e com músicas bem construídas, suportadas apenas pela voz do vocalista e duas guitarras acústicas.

Ao minimalismo da primeira parte haveria de seguir-se, na segunda, um palco cheio de músicos e instrumentos musicais.

Com alguns minutos de atraso, a banda indie pop escocesa regressou aos palcos da Capital. Mas o que são alguns minutos para quem aguardou 13 anos para voltar a vibrar com o cancioneiro de Stuart Murdoch e companhia? (quando a minha amiga Sofia me sussurra para dizer que esteve no Coliseu nos idos de 2006, peço-lhe que não o volte a referir a ninguém… escuso-me de especificar porquê).

E a noite do reencontro começou em alta com “Nobody´s Empire” do último “Girls in peacetime want to dance”, um claro presságio para o que ainda estava para vir. Com efeito, pouco depois, ao som dos acordes de “I Want the world to stop” começaram a ver-se os primeiros corajosos a levantar-se das cadeiras e a ocupar os espaços livres dos corredores da magna casa académica para, simplesmente, dançar. Eu comecei também a sentir essa espécie de formigueiro e quando olhei para o meu lado esquerdo já um casal espanhol, com aquela liberdade própria de quem está num país que é de outros, se tinha deixado simplesmente levar. Não preciso dizer que a minha cadeira ficou recolhida até final, enquanto desfilavam canções antigas, novas, de sempre, umas atrás de outras.

Pelo meio, vamos sabendo, através de um Stuart Murdoch genuinamente à vontade (com excepção do português, mas isso também se compreende) que a doce “Piazza, New York catcher” retrata o início da sua relação com a mulher. 

Com “The Boy with the arab strap” o palco é pacificamente invadido pelos ocupantes das filas da frente e eu sou acometida desse sentimento doentio que é a inveja. Estou na 2.ª plateia (compras de última hora dá nisto) e por isso longe dessa explosão de alegria que se dá em palco. Estou de pé a acompanhar, o melhor que posso e o espaço exíguo deixa, o ritmo da música, claramente feita para dançar (julgo que quem a ouve não poderá deixar de me dar razão).

O tempo vai passando rápido e somos simpaticamente alertados para o facto de que tudo está quase a terminar.

A última música (antes do necessário encore), “The State I am In”, foi a primeira canção a dar a conhecer o grupo ao mundo, o que não deixa de ser uma forma quase poética de terminar uma setlist que percorreu todo o universo musical da banda.

Depois de “The Stars of track and field” e “Sukie in the Graveyard” as despedidas são feitas e as luzes acendem-se. 

Saímos novamente para a noite chuvosa, acompanhadas por uma pequena multidão que, tal como nós, espera que o regresso dos Belle and Sebastian não demore novamente 13 anos.


Raquel Reis nas suas palavras: Um coração dividido entre o bulício da capital e a paz das serranias transmontanas; entre o vermelho e branco do Benfica e o azul-grená do G.D. Chaves; entre a luz de Lisboa e o nevoeiro de Aqua Flavie. Há espaço para tudo. Tem de haver…