Música

A Causa Real

por Pedro Faria

A rainha, olhos castanhos aquosos e protuberantes, confessa-se incapaz de chorar e isso perturba-a. Rasgo a embalagem do pequeno chocolate recheado de caramelo e trinco-o. Falta geada àquele olhar. Olivia Coleman talvez seja um erro de casting e o enredo é sensaborão e previsível, mas é magnifico vê-la esboçar uma rainha que nunca poderia ser, que jamais existiu, porque aqueles olhos castanhos, encantos tamanhos, não cabem no palácio de Buckingham

Fica sozinha na sua saleta de várias assoalhadas, deambula pelas suas vísceras sentimentais e a lágrima redentora brota. Hail to the Queen: é uma pessoa humana (aprendi esta redundância nas aulas de direito constitucional e nunca mais a larguei).

I wanted to change the world, But I could not even change my underwear (John Grant, Queen of Denmark). Pois é, Ma’am, a vida não cabe no palácio e o palácio está fora da vida.

Já a meio do segundo pequeno chocolate, siderado com a previsibilidade da lágrima valente, olho para o teto (procurava Deus, mas dei com o estuque branco e com o candeeiro que os meus tios, a pedido, guardaram para me darem quando finalmente tivesse uma casa a que pudesse chamar minha) e digo para o cada vez mais pequeno ecrã: Dont you know your queen, gleaming, wraped in golden leaf… Não era no limbo aristocrático que Perfume Genius estava a pensar quando compôs Queen, mas vai tão bem com esta humanização do poder genético…

E chegamos ao destino da perambulação que antecede: há uma música nova de Perfume Genius que me revolve as entranhas e faz os meus débeis neurónios se eletrificarem. Não a largo. Não me larga. Insinua-se como um pensamento pecaminoso em dia santo, evolui numa onda agitada de sussurros impiedosos, lamentosos e psicadélicos (há qualquer coisa que me faz lembrar Pop Dell’Arte) e acaba com uma convulsão. Eye in the Wall, Perfume Genius no seu melhor.

Por cada montra que passam olham de soslaio para o reflexo. Ele mantém-se hirto, aparentemente satisfeito com o que vê. Ela, a mão esquerda entrelaçada na mão direita dele, vai compondo o cabelo ou ajustando a posição da mala ou a gola do casaco ou o vinco das calças. A marcha mantém-se constante e vão trocando palavras que não consigo perceber. São frases breves. Caminham como se fossem um só, uma composição de pernas, braços, cores, texturas e padrões.

Pura realeza.

Be in love with me, Narcissus, canta a Róisin Murphy a voar pelos violinos disco, single novo com o mesmo nome.

Never had a broken heart, am I incapable of love? Finge responder na segunda música do single, Incapable.

Seguem pela rua fora, solenes, impecáveis. Mais tarde dirão um ao outro, como se falassem em confissão, e apesar de não conhecerem a música da Jessie Ware, Adore You, que acabei de ouvir enquanto arrumava a louça do almoço, I wanna tell the world, want everyone to see that you belong to me.

Vou à minha vida, a dançar por dentro.

Vencido mas não convencido, volto à Coroa. Ainda há alguns chocolates. Não tenho nada a perder. Margarida, a princesa, é uma fúria caricatural, sedada e alcoolizada. Uma caprichosa atormentada que aterra com um playboy na ilha tropical. A ilha, o clichê colonial, o azul celofane do céu, os drinks by the sea.

Aruba, Jamaica, ooh I wanna take ya, Bermuda, Bahama, come on pretty mama, Key Largo, Montego, Baby why don’t we go Jamaica.

Imagino a princesa a fazer comboinho ao som de Kokomo dos Beach Boys na versão assassina dos Holiday Sidewinder. Alguém devia ter pensado nisso.

Depois há o jovem Charles, o improvável herdeiro indeciso, tosco e anguloso, um quase-nada, perplexo com a mulher impudente que o consome.

Desperate for passing grades, The virility fades, You’ve got the wrong guy, You wanna slip right in, Amp up the masculine, You’ve got the wrong idea, son, Dear son, We pick our own prisons, oh ah. A música nova de Moses Sumney, Virile, um delírio de harpas sintéticas, cascadas de baixo e falsettos indecentes, assenta-lhe como um fato de Savile Row.

And we’ll never be royals, It don’t run in our blood, That kind of lux just ain’t for us, We crave a different kind of buzz, Lorde dixit em Royals.

O Senhor seja louvado na sua infinita misericórdia.