Sociedade

Meu querido diário: divagações e lamentos, esperanças e lutas por brasis menos desiguais

por Adriana Ramos

Brasil, meu dengo
A Mangueira chegou
Com versos que o livro apagou
Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento
Tem sangue retinto pisado
Atrás do herói emoldurado
Mulheres, tamoios, mulatos
Eu quero um país que não está no retrato
Brasil, o teu nome é Dandara
E a tua cara é de cariri
Não veio do céu
Nem das mãos de Isabel
A liberdade é um dragão no mar de Aracati
Salve os caboclos de julho
Quem foi de aço nos anos de chumbo
Brasil, chegou a vez
De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês[a]

Assim, sem pretensão, escrevo esse desabafo para tentar dar forma ao aperto que carrego no peito. Assim, sem sossego, coloco em palavras o desalento e o choro que ainda não eclodiu. Assim, como num suspiro, transformo a folha em branco na amiga confidente.

Os ventos que sopram nas praias da costa brasileira são pesados e o céu carregado de nuvens cinzas que deixam o ar difícil de respirar. Esse é o cenário, esses são os sentimentos e muitos são os fantasmas que rodeiam a realidade de um país que, sonhando ser o futuro, se voltou para o passado sombrio e bolorento cor verde oliva.

Os entulhos autoritários são muitos e sempre estiveram presentes em uma sociedade que nunca rompeu com a relação subalternizada existente entre a casa grande e a senzala. As polícias de hoje funcionam como os capitães do mato de ontem e os poderes constituídos, formados pela donos do poder, ratificam a violência contra todos aqueles que nunca tiveram sua humanidade reconhecida. Temos uma das maiores concentrações de renda do mundo e isso, por si, reforça o argumento da brutalidade em nossas vísceras[1].

Os periféricos sempre estiveram na mira dos canhões e aqueles considerados de matriz ideológica à esquerda e, portanto, subversivos, são os velhos/novos inimigos a serem combatidos. Estamos todos, nesse momento, declarados inimigos do estado (em minúsculo mesmo).
A ferida colonial sangra, fomos forjados pela escravidão, embalados pela mentira da democracia racial e pela falácia da cordialidade do brasileiro. Nossa afabilidade é direcionada àqueles que consideramos da mesma casta, aos nossos pares, à elite nacional e do mundo. “Sejam bem-vindos”!

Dizíamos (e dizemos), desde que os visitantes fossem (sejam) originários dos países do norte, numa tentativa de branqueamento cultural e racial.
Com alguns suspiros democráticos, teimosamente fomos sobrevivendo às intempéries, ora lutando contra a aristocracia, ora contra os latifundiários, ora contra os militares, ora contra todos eles que, ao fim e ao cabo, estão de mãos dadas, bebendo na mesma taça e comendo no mesmo prato. Espectros que se fundem e não sabemos ao certo se fazem parte de um mesmo corpo ou se, apesar de distintos, estão juntos nos interesses e trincheiras.

Em 1988 tivemos a promulgação da atual Constituição após os anos de chumbo. Não tivemos cravos, mas tivemos sorrisos resistentes e um alento.

A Assembleia Nacional Constituinte nos trouxe a esperança de um país mais justo, de uma sociedade menos desigual e de instituições mais democráticas. Sonhamos grande.

Entretanto, não fizemos o nosso dever de casa e a transição inacabada cobrou caro. Torturadores não foram judicialmente responsabilizados, protegidos pela lei de (auto) anistia assinada pelas mãos dos generais, militares de alta patente seguem com seus nomes em escolas e vias públicas, não há museus que preservem a memória das violências sofridas.

A exaltação de um criminoso chamado Brilhante Ustra, em pleno Congresso Nacional durante o procedimento do (ilegal) impedimento da presidenta Dilma, é o exemplo claro de um dever não feito. Não honramos a memória daqueles que lutaram pela nossa liberdade e falhamos na defesa da democracia.

Percebo o bolsonarismo como um militarismo inflado pelos discursos ideológicos olavistas, arquitetado pelos factóides construídos nos escritórios de Steve Bannon e banhado nas águas neopentencostais do rio Jordão – uma mistura explosiva com cheiro de enxofre. Tudo parece permitido quando se tem inimigos de alta periculosidade a serem combatidos: pretos, pobres, putas, comunistas e todos aqueles que não seguem a cartilha conservadora evangélica.  Uma lógica que revive a guerra fria e nos próxima da distópica Gilead da série The Handmaid’s Tale.

Os discursos virulentos de uma campanha presidencial regada a ódio tomam corpo, as promessas estão sendo cumpridas. Apenas em 2019, houve um aumento dos feminicídios em 4% em todo o país (e de 44% no estado de São Paulo)[2], o número de mortes provocadas por policiais dispara no Rio de Janeiro (são cinco mortes por dia)[3], as práticas de violência contra os indígenas se multiplicam (já são 60 casos de invasão registrados neste ano afetaram 153 territórios em 19 estados)[4] e o registo de 141 morte de pessoas LGBT até maio desse ano[5] demonstra, em números, a política do extermínio. É a necropolítica em estado puro.

Muitas são as possíveis críticas ao presidente, que passam pelo descompromisso com a liturgia do cargo aos ataques frontais às instituições e as construções de narrativas descomprometidas com a realidade, mas não poderá ser criticado por não revelar a verdadeira face:  um saudosista da ditadura. Seus discursos foram claros e seus eleitores sabiam de suas escolhas. A bandeira deles não é vermelha (como já afirmou em diversos eventos oficiais rechaçando o que rotula como “a esquerda”), mas está suja de sangue das “Marias, Mahins, Marielles, malês”.

Os fatos que estampam as manchetes dos jornais e inundam as redes sociais da mais nova pseudo monarquia do planeta (que é plano, frise-se) nos fazem viver sobressaltados, mas ao mesmo tempo, pela rapidez dos escândalos, são capazes de criar uma letargia difícil de ser rompida. Os excessos nos neutralizam, os absurdos nos silenciam, as afrontas nos pautam.

Numa semana somos atingidos por um vídeo em uma mídia social achincalhando as instituições (todas, inclusive o partido pelo qual foi eleito foram comparadas a hienas)[6], seguimos com a defesa pública ao AI-5[7] pelo filho do presidente, deputado pelo estado de São Paulo[8], no mesmo dia em que o próprio presidente, após uma notícia no telejornal de maior audiência no país, relatando possível ligação da sua família com os supostos assassinos da vereadora Marielle, faz uma live em outra rede social encharcada de palavras de baixo calão, ira, descontrole e ameaças de não renovar concessão da empresa[9]. Talvez morreremos de susto, mas de tédio jamais.

Noutra, apenas numa segunda-feira, já tínhamos as notícias de fogo no pantanal (nas mesmas proporções do incêndio na Amazônia), do assassinato do líder indígena Paulo Guajajara e da possível criação, pelo presidente, no meio do seu mandato, de um novo partido para abrigá-lo e a seus filhos e seguidores depois de acirradas brigas internas no PSL (além do óleo em nossas praias, crime ambiental que serve de pilhéria para o secretário da pesca)[10].

A ralé, no sentido assegurado por Hannah Arendt (1973)[11], o refugo de todas as classes, se tornou a classe dos burocratas, são os nossos novos senhores. A ralé está no poder.

Em que pese a claridade emanada por essa branquitude que hoje nos comanda, me agarro no samba da Mangueira de 2019, minha escola do coração, ao afirmar que “Brasil, o teu nome é Dandara E a tua cara é de cariri, Não veio do céu, Nem das mãos de Isabel, A liberdade é um dragão no mar de Aracati” e me inspiro na letra da minha campeã em 2020 para terminar:  “Os profetas da intolerância, Sem saber que a esperança, Brilha mais que a escuridão, Favela, pega a visão, Não tem futuro sem partilha, Nem Messias de arma na mão”[12].

A esperança brilha e vencerá o medo! Assim seguimos, na esperança de um amanhã mais plural, mais inclusivo, mais colorido e menos violento.

PS: Como os acontecimentos por aqui estão na velocidade da luz, do dia que coloquei o ponto de exclamação final para hoje, num curto intervalo, o Supremo Tribunal Federal entendeu que a Constituição deve ser respeitada e o Lula está em liberdade, a Bolívia sofreu um duro golpe teocrático, a embaixada da Venezuela no Brasil foi palco de uma enorme violência institucional e a saída do presidente Bolsonaro do PSL foi confirmada. Prometo contar nos nossos próximos encontros sobre esses episódios que superam as melhores temporadas de House of Cards.

Complexo do Alemão, RJ, Nicola Dracoulis

(José Dias/PR/Flickr)


[a] Mangueira – Samba-Enredo 2019 [Enredo: História pra Ninar Gente Grande]. Disponível em https://www.letras.mus.br/sambas/mangueira-2019/. Acesso aos 31 de outubro de 2019.

[1] “O rendimento médio mensal obtido com trabalho do 1% mais rico da população brasileira atingiu, em 2018, o equivalente a 33,8 vezes o ganho obtido pelos 50% mais pobres. No topo, o rendimento médio foi de R$ 27.744; na metade mais pobre, de R$ 820. A diferença entre os rendimentos obtidos pelo 1% mais rico e dos 50% mais pobres no ano passado é recorde na série histórica da PNADC (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua) do IBGE, iniciada em 2012”. Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/10/diferenca-de-rendimentos-entre-pobres-e-ricos-e-recorde.shtml. Acesso em 4 de novembro de 2019.
[2] Disponível em https://brasil.elpais.com/brasil/2019/10/24/opinion/1571868956_647096.html. Acesso em 4 de novembro de 2019.
[3] “Segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) do estado: 1.249 casos foram registrados entre janeiro e agosto de 2019. Em agosto, houve uma ligeira queda em relação ao mês anterior, mas a média de 2019 continua assustadora: cinco mortes por dia”. Disponível em https://g1.globo.com/jornal-nac ional/noticia/2019/09/20/no-rio-numero-de-mortes-por-policiais-em-2019-e-recorde.ghtml. Acesso em 4 de novembro de 2019.
[4] Disponível em https://exame.abril.com.br/brasil/praticas-de-violencia-se-multiplicaram-em-2019-diz-coordenador-do-cimi/. Acesso em 4 de novembro de 2019.
[5] Disponível em https://www.ufrgs.br/humanista/2019/05/17/brasil-ja-registra-141-mortes-de-lgbts-em-2019-personalidades-se-manifestam-nas-redes-socias/. Acesso em novembro de 2019.
[6] Disponível em https://exame.abril.com.br/brasil/carlos-bolsonaro-diz-que-video-da-hiena-foi-publicado-por-jair-bolsonaro/. Acesso em 4 de novembro de 2019.
[7] “O Ato Institucional nº 5, AI-5, baixado em 13 de dezembro de 1968, durante o governo do general Costa e Silva, foi a expressão mais acabada da ditadura militar brasileira (1964-1985). Vigorou até dezembro de 1978 e produziu um elenco de ações arbitrárias de efeitos duradouros. Definiu o momento mais duro do regime, dando poder de exceção aos governantes para punir arbitrariamente os que fossem inimigos do regime ou como tal considerados”. Disponível em https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/FatosImagens/AI5. Acesso aos 2 de novembro de 2019
[8] Disponível em  https://www.bbc.com/portuguese/brasil-50258147. Acesso em 4 de novembro de 2019.
[9] Disponível em https://www.facebook.com/jairmessias.bolsonaro/videos/-live-mais-uma-matéria-porca-da-globo-caso-marielle-link-no-youtube-httpsyoutube/558804064888548/. Acesso em 4 de novembro de 2019.
[10] Disponível em https://revistaforum.com.br/politica/em-novo-vexame-secretario-de-pesca-pergunta-se-alguem-ja-viu-um-cardume-se-jogando-no-oleo/. Acesso em 4 de novembro de 2019.
[11] ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo. Disponível em http://www.dhnet.org.br/direitos/anthist/marcos/hdh_arendt_origens_totalitarismo.pdf. Acesso em 5 de novembro de 2019.
[12] Disponível  em https://www.letras.mus.br/samba-concorrente/mangueira-2020-manu-da-cuica-e-cia/. Acesso em 4 de novembro de 2019.