Leituras

À Espera do Fim

por Antónia Sá

– Eu já só estou aqui à espera da morte.

– Ó avó, não diga isso.

– Ó filha, é verdade! Diz-me lá tu o que é que eu faço mais aqui se não esperar pela morte?! O que é que me resta mais?! Que remédio milagroso conheces tu para me devolveres o que eu já fui? Para me pores boa outra vez?

Depois de ouvir estas frases, parte do meu mundo ruiu. E para sempre. Perdi um bom bocado daquilo que eu sou, ou fui, ou daquilo em que me fiz e que devo em grande parte à minha avó. Pode parecer um lugar-comum, mas é assim que sinto.

Vieram-me à memória, em torrente, imagens de mim pequena, em que aguardava a chegada da minha avó ao fim do dia a casa, com os seus bonitos saias-casaco e sapatos de salto alto. O batom vermelho impecável e uma palavra sempre doce para me dizer. Os nossos passeios à Baixa e os presentes mais incríveis que me oferecia. Ocorreu-me também a memória do desvelo com que a via a fazer bolos, bolachas, doces e docinhos na sua cozinha limpa, arejada e luminosa. O quanto, à data, me irritava obrigar-me a usar sempre um pratinho por baixo de tudo quanto comesse, por mais pequeno ou insignificante que fosse: “Vai lá buscar um pratinho, que se não sujas o chão todo.”. Que saudades tenho eu agora que me mandem usar um pratinho…

Como todas as noites me dizia para eu pedir ao Menino Jesus saúde para mim e para a minha família e que me ajudasse a continuar a ser boa menina.

E como me lembro bem do seu ar de tristeza e incredulidade quando lhe disse, anos mais tarde, que não acreditava no Menino Jesus e que por isso a minha saúde não me poderia ser trazida por Ele, nem seria Ele o responsável por fazer de mim uma menina como devia ser.

À minha avó logo ocorreu as inúmeras viagens que fizéramos a Fátima por ocasião do 13 de Maio (e de outras festas religiosas que a minha avó gostava de assinalar ali, onde, dizia, que a fé se sentia de forma que quase se podia tocar): “Mas não acreditas como? Sempre vieste com a avó…. Nunca me disseste nada! Sempre gostaste! Sempre rezaste comigo…!”.

Como é que eu então explicava à minha avó que aquilo de que eu gostava mesmo era do passeio; do piquenique sempre majestoso e delicioso que levava; das lojas com todo aquele bric-à-brac, em que havia sempre uma medalhinha de recordação para eu trazer para casa…

Não. Não podia dizer-lhe. Não podia magoá-la mais. Deixemos assim. Não acreditava e ponto.

Depois de uns dias de amuo, lá se habituou à ideia e voltou a ser a mesma de sempre.

Agora é que já não tem tempo para isso. Ou melhor, já teve muito tempo para isso.

É pena. O tempo é uma besta.

A minha avó sempre foi uma mulher grande. Literal – tinha cerca de 1,70m o que, para a época, era considerável – e metaforicamente falando.

Tinha um ar distinto, elegante e sem ser propriamente uma estampa, tinha uma luz própria, que invariavelmente, captava a atenção de quem dividisse uma sala consigo.

Tinha um sorriso franco e simpático, ao qual juntava por vezes uma pitada de ironia, acompanhada de um ligeiro menear de cabeça e um certo barulho nasal quando a “mostarda lhe chegava ao nariz” ou quando era confrontada com algum facto que não era do seu agrado. Mas nunca precisou de me levantar a voz ou a mão, para conseguir que eu aderisse a qualquer causa dela. Sempre me senti, naturalmente, atraída para isso e sempre nos entendemos de uma forma quase perfeita.

Vejo hoje, à distância de mais de 30 anos, que eu sou ela. Eu sou igual a ela – a mesma obsessão com a perfeição, a organização e a limpeza. O mesmo gosto pela rectidão das coisas. A mesma paixão pelos livros, pelo bric-à-brac, pelos doces e pelas viagens. O mesmo desvelo por fazer crer quem faz parte da nossa vida que nada existe mais importante que eles. O gosto de ajudar o próximo.

E eu nunca precisei de acreditar no Menino Jesus para isso avó…

Mas tenho pena de nunca lhe ter dito isto. Mas ela sabia. Ela sabia tudo. Mesmo aquilo que a magoava e que preferiria não saber (como a minha falta de fé no Menino Jesus).

Dou-lhe uma festa nas mãos, na cara, na testa e um beijinho longo na face como fazia quando era pequena. E ouço-a suspirar. À espera do fim, talvez.

E isso dói-me.

Porque eu não posso alterar o rumo do tempo e da vida que lhe está intimamente ligada. Porque eu não domino o relógio, nem esta corrida contra o tempo.

E isso volta a doer-me.

Quando a deixo, com a sensação de não saber se foi a última vez que a vi, passo pela sala, onde estão outros tantos velhos, talvez também à espera do fim, como a minha avó.

E ouço uma velhinha dizer-me (gritar talvez seja o verbo mais correcto), certamente demente, ou não, simplesmente porque inveja (e eu juro que entendo isso) a minha juventude, a minha liberdade, de acção, de movimentos, de pensamentos, a minha vida por viver. “É isso! Vai-te embora! Vai, vai! A porta é por ali! Nem sei porque vieste!” E para as funcionárias: “Abram-lhe a porta, que ela quer sair!”.

Os outros velhinhos olhavam-me. Uns perceberiam e olhavam para mim, talvez à espera da resposta. Para outros, aquilo seria já só um mero ruído de fundo.

Ainda bem. Assim nem todos perceberam a minha comoção e as minhas lágrimas. E até a minha vergonha por não ter estado mais tempo com a minha avó. E não ter estado quando era mais importante que eu estivesse. Quando eu ainda podia fazer alguma diferença. Quando ainda tínhamos tempo. E tristeza por não lhe ter dito tudo o que sentia.

Digo-te agora avó: isto é para ti. Amo-te.