Leituras

Fernão de Magalhães, de Stefan Zweig

por Filipa Gonçalves

A 20 de Setembro de 1519, Fernão de Magalhães partiu de Sevilha ao comando, sob a bandeira do rei de Espanha, da expedição marítima que efectuou a primeira viagem de circum-navegação ao globo.

Neste ano, em que se celebram os quinhentos anos deste extraordinário evento, assinalado com inúmeras iniciativas da qual destaco a peça musical de António Chagas Rosa, Circumnavigare, coincidência ou não, li Fernão de Magalhães de Stefan Zweig por sugestão amiga.

Também o encontro entre Zweig e Magalhães foi coincidência. Aconteceu quando o autor, irritado com uma sucessão de mares azuis e tranquilos durante uma viagem de barco entre a Europa e a América do Sul, foi acometido de um sentimento de vergonha ao pensar nas difíceis viagens dos primeiros conquistadores dos mares.

A vergonha também pode ser, aparentemente, uma força produtiva já que Zweig se enfiou na biblioteca do navio, tomou alguns volumes ao acaso e entre os nomes daqueles heróis, um lhe surgiu como maior, o que “realizou o que de mais grandioso existe na história do descobrimento da terra: Fernão Magalhães – aquele que partiu de Sevilha, com cinco minúsculos barcos, para dar a volta ao mundo”. Não é difícil perceber o fascínio de Zweig pela figura daquele que empreendeu, com determinação obstinada, “talvez a mais extraordinária odisseia na história da humanidade, esta expedição de 265 homens decididos, dos quais só regressaram 18 no navio desmantelado, mas trazendo içada no mastro a bandeira da máxima vitória”.

A narração da vida e aventura de uma figura universal por outra, também universal, goste-se mais ou menos do estilo de qualquer uma delas, é um acontecimento. Apesar do centro ser o biografado, de permeio o biógrafo revela-se também.

Stefan Zweig foi escritor, romancista, poeta, dramaturgo, jornalista e biógrafo (escreveu as biografias de Dostoievski, Dickens, Balzac, Nietzsche, Tolstoi, Stendhal, Maria Antonieta, Fouché, Rilke e Romain Rolland).

Nascido em Viena, em 1881, numa família de judeus burgueses (o pai era industrial têxtil e a mãe provinha de uma família de banqueiros ítalo-austríacos), recebeu uma educação e formação clássicas, próprias do seu tempo e condição social, tendo estudado Filosofia na Universidade de Viena. Desde cedo, porém, revelou talento para a literatura, publicando seu primeiro livro, uma colectânea de poesias, aos 20 anos de idade.

No período entre guerras privou e estabeleceu amizades com figuras proeminentes da cultura europeia da época, Émile Verhaeren, seu primeiro grande mestre, passando por Rilke, Auguste Rodin a Sigmund Freud tendo vivido um período rico em encontros, viagens e de vasta produção em todos os géneros literários.

Em 1934 abandonou a Áustria, então sob domínio do regime fascista de Dollfuss, e viveu na Inglaterra, nos Estados Unidos da América e no Brasil, onde se viria a suicidar a 22 de Fevereiro de 1942.

Da sua extensa obra, assumem relevo as novelas Amok (1922) e Confusão de Sentimentos (1927), o ensaio Brasil, País do Futuro (1941), a autobiografia O Mundo de Ontem (1942), verdadeira crónica do seu tempo e merecedora de leitura. A Novela de Xadrez foi a sua última obra, concluída pouco antes do seu suicídio conjunto com a sua mulher, tolhido de sofrimento com a autodestruição do seu lar espiritual –  a Europa –  conforme refere na declaração que então deixou.

Neste percurso destaca-se, precisamente, a biografia Magalhães.

Fernão de Magalhães, nascido em 1480, em Sabrosa, numa família nobre, com apenas 10 anos de idade era pajem da Corte da Rainha D. Leonor, mulher de D. João II, o Perfeito.

Era inquieto por natureza. Queria ver o mundo e explorá-lo, sendo assim um perfeito sujeito a biografar. Afinal, quem não gosta de aventuras e aventureiros? A sorte protege os audazes, diz-se, embora no caso já saibamos não ter sido exactamente assim.

Terá sido este espirito aventureiro que o fez, aos vinte e cinco anos, alistar-se na Armada da Índia, na frota enviada para conceder o vice-reinado a D. Francisco de Almeida, participando nas viagens para as Índias Orientais que incluíam as regiões da China, Japão, Índia, Arábia e Pérsia.

Desde o século XV navegantes e exploradores estavam enfeitiçados pelas Índias, inebriados por promessas de pimenta, gengibre, canela, cravo, maças e noz-moscada. Encontrar a rota marítima para as Molucas, as famosas ilhas de onde provinha tal mercadoria era o principal objectivo. Magalhães tinha-o.

Tendo sempre viajado pelo Oriente, fez parte de expedições a Quíloa, Sumatra e Malaca. Em 1506 foi ferido em Cananor. Em 1508 voltou à Índia, onde novamente foi ferido na batalha de Diu. Em 1510 recebeu o título de capitão, em reconhecimento aos serviços prestados. Entre 1513 e 1514 tomou parte na luta contra Azamor.

Apesar de todos estes serviços, demonstrativos de um ímpeto patriótico que Zweig salienta, veio a ser acusado, por compatriotas, de traição por negociações com os mouros. O rei D. Manuel deu ouvido a tais rumores e não mais aceitou os serviços do nosso herói.

E é assim, depois de muitos anos de valiosos serviços à Coroa portuguesa, que, escorraçado por D. Manuel, foi ao serviço de um rei estrangeiro, Carlos V de Espanha, que Fernão de Magalhães veio concretizar o seu “feito”.

Em Março de 1518, Magalhães e Faleiro, o cosmógrafo português sócio e mestre do primeiro e responsável pela cartografia e navegação da expedição, assinam um compromisso com D. Carlos V, pelo qual proclamariam espanholas todas as terras que encontrassem no curso da navegação pelo ocidente e que receberiam 1/5 do ganho obtido, descontadas as despesas.

A armada era composta de cinco embarcações, “Vitória”, “Santiago”, “Conceição”, “Santo António” e a nau “Trindad” sob o comando de Magalhães, com tripulação, provisões e armas para dois anos.

As démarches de Magalhães no sentido de que a tripulação contasse com mais navegadores portugueses, pela sua maior experiência nos mares a navegar, foram vetadas pelo rei – temendo uma traição – e a tripulação acabou por ser composta de marinheiros espanhóis, portugueses, italianos, franceses, alemães, gregos, ingleses, africanos e também malaios que serviriam de intérpretes. Entre eles Henrique de Malaca, tomado como escravo por Magalhães em 1511 e cuja liberdade por ocasião da sua morte assegurou no seu testamento. A vida deste homem, bem como a sua relação com Magalhães, que apesar de tudo é caracterizada por várias fontes, entre as quais Zweig, como de amizade (perdoem-me o cepticismo neste ponto, mas não me parece crível uma relação de tal natureza entre um escravo e o seu senhor) dava, como deu, um filme: o documentário “Henrique De Malaca, um Malaio e Magalhães”, de Pedro Palma.

Fernão Magalhães teve que usar toda a sua experiência, por vezes inclemência, para lidar com o desânimo dos seus homens e os motins organizados pelos capitães espanhóis.

Após a travessia do Oceano Pacífico, assim nomeado pela bonança da navegação nas suas águas, Magalhães chegou ao arquipélago das Filipinas, localizado na mesma longitude das Ilhas Molucas embora mais a norte.

Impulsionado pela sua vontade de evangelizar os povos indígenas – ou seria o desejo de ser tornar governador das Molucas e vingar-se de D. Manuel, como refere o historiador José Manuel Garcia? – envolveu-se num combate entre nativos da ilha de Mactan, sobrestimando a força miliar dos seus homens, onde foi ferido e acabou por morrer em Abril de 1521.

Assim, foi um dos seus oficiais, o basco Juan Sebastián Elcano, que completou a volta ao mundo, ao lado de 18 sobreviventes que conseguiram voltar ao ponto de partida em Setembro de 1522, a bordo do único barco que saiu são e salvo da proeza, o “Victoria”.

Zweig escreve repetidamente que era o sonho de Magalhães circum-navegar o globo.

O relato detalhado de Antonio Pigafetta, participante na expedição, e que serviu de base à obra de Zweig, não evidencia tal desiderato.

Magalhães pretendia, inequivocamente, encontrar uma passagem pelas Américas para alcançar o oceano do outro lado; chegar às Ilhas das Especiarias navegando para oeste.

Do resto, pouco se sabe. E um dos grandes mistérios que persiste é a razão pela qual um combatente experiente, prudente, com uma vontade obstinada no cumprimento do empreendimento da sua vida, vem a morrer nas Filipinas, numa guerra que lhe é alheia, mas em que faz questão de intervir, apoiando aliados que mal conhece, e comprometendo irremediavelmente o seu feito. Conhecemos bem o feito, mas ficamos a conhecer mal o homem.

A obra de Zweig é um relato convincente das provações pelas quais os marinheiros passaram: a busca desesperada pela passagem através da sombria Terra do Fogo; a interminável travessia do Oceano Pacífico; o escorbuto e fome; a morte de Magalhães; a perigosa rota pelo território português; o Oceano Índico e, finalmente, a miserável volta de dezoito sobreviventes, famintos e fracos, num navio que vazava.

A história deste feito é uma história de inveja, ressentimentos, traições, crime, castigo e morte. Uma história notável e contada, de forma romanesca, por Zweig, um cultor do entusiasmo para nossa felicidade.

Imagem em destaque: Planisfério de Kunstmann IV, anónimo, c. 1519, fac-símile de Otto Progel (1843)