Leituras

Eurico

por Isabella Voltinhas

A freguesia acordou tranquila como sempre. Eurico também. Despertando, espreguiçou-se ainda deitado na cama, confortado pelos lençóis brancos postos de fresco na véspera.

Era um homem satisfeito consigo próprio.

Desde que tinha tomado as rédeas da Junta a tranquilidade reinava em todo o seu domínio.

Das serras verdes na ponta oriental às escarpas, elevando-se do mar cobalto na ponta ocidental, todos os fregueses viviam felizes debaixo do mesmo sol. O clima ameno ajudava, bem como um torrão de terra fértil para cada um. As vinhas e bananeiras cresciam viçosas, terrenos a perder de vista até à costa, e ainda sobrava um naco de terra para plantar as saborosas cebolas, orgulho da freguesia.

Tudo estava bem no melhor dos mundos, pensava Eurico, enquanto, duche tomado e escanhoado de fresco, se engravatava para presidir à função diária.

Olhou para o ecrã do telemóvel com medo de ter perdido as horas no meio dos seus pensamentos de autocontentamento e nele pulsava o número de telefone de Gorete. Pelos vistos ela tinha-lhe telefonado e não tinha ouvido o toque. Tanto melhor, suspirou, pensando nos trabalhos em que se metia por causa daquela pombinha linda. Mas que fazer? Deus não criava coisas daquelas para se desperdiçarem. Quando a via entrar pelo seu gabinete adentro, toda ela sorrisos encavalitados num corpinho carnudo, não lhe resistia. Tudo reclamava o calor da sua mão.

Afastou o pensamento de Gorete. Já lhe tinha anunciado o fim dos encontros fora do horário de expediente, mas ela parecia não se conformar. Queria mais, dizia.

Era ano de eleições, caramba! Julgava ela que se deixaria apanhar como o colega, calças na mão, no gabinete da Junta, à frente das bandeiras da união, da nação, do município e, mais importante, da freguesia? Uma macacada tornada viral, como se diz agora, que lhe custou o mandato. Tudo porque teve a imbecilidade de mandar uma imagem das partes íntimas para garantir um encontro com uma fulana qualquer. Apanhado nas redes, foi o que foi. Não, não. Com ele, Eurico Rodrigues, não.

Lembrou-se do avô, o bisavô antes dele, e o trisavô antes de ambos. Todos tinham sido principais da terra, comandando os destinos da mesma. Eurico pertencia a uma linhagem impoluta. Era um morgado num mundo sem morgadios; um nobre numa república. Como era prazeroso dizer estas palavras a si próprio, deleitando-se com a sua ironia fina, embora não se atrevesse a partilhá-las.

Nem Gorete nem as suas carnes tenras lhe iam tirar isto. Um Rodrigues não caía da cadeira, muito menos por cenas picantes a correr pelas redes sociais.

Assim pensava ele, caminhado com os seus consigos em direcção ao edifício da Junta, enquanto cumprimentava solenemente todos com quem se cruzava. Assim tinha que ser.

Ao chegar ao seu destino deparou-se com um cenário de comoção geral que o surpreendeu. Eurico não apreciava surpresas.

À porta da Junta estavam todos os funcionários administrativos. Gorete, ao vê-lo, apressou-se ao seu encontro, repreendendo-o por não ter atendido o telefone. “Nem imagina o Senhor Presidente o sucedido”, disse-lhe ela, ofegante, e prosseguiu dando-lhe conta do incidente: uma das plantas que estavam na fachada da Junta tinha sido roubada! Assim mesmo, roubada!

Eurico empalideceu, abanando a cabeça para ordenar as ideias. Tinha que agir. Não ia deixar passar esta como tinha deixado passar a história do furto das palhinhas do Menino Jesus! Meio ano passado, ainda sentia as bochechas a arder de vexame. O cónego tinha perdido a cabeça e, com ela, a compostura, acusando-o de desgoverno.

Não, desta vez não. Se a garotada achava que ia sair impune desta, estava mal-enganada.

Fazendo uso da sua voz mais firme, deu instruções a todos para dispersarem e regressarem ao trabalho. A partir dali, encarregar-se-ia pessoalmente do assunto.

Marchou para o gabinete, sentou-se à secretária e ligou o computador. Ia resolver isto da maneira certa e eficaz: no Facebook.

Abriu a página da Junta e teclou furiosamente, disparando cada letra como se fosse uma bala: “O gatuno atrevido que subtraiu a planta que se encontrava à porta da Junta não se limitou a levar uma planta. Levou um bem da Junta e a Junta não é do executivo, não é dos administrativos, é dos fregueses. Quem pensa que roubou a Junta, roubou o povo. Devolva a planta ao seu espaço originário ou sujeite-se à actuação das forças da lei”.

Depois de publicar o texto na página da junta, com êxito, partilhou-a na página das “ocorrências locais” e mandou nota para o jornal da região.

Agora era uma questão de tempo. Era acalmar-se e esperar.

Gorete entrou no gabinete sem bater à porta. Tinha acabado de ver a publicação e felicitava-o pela iniciativa. Queria ajudá-lo a relaxar, oferecendo-se para lhe massajar os ombros. Eurico, porém, não estava na disposição de ser relaxado. Todo o assunto o irritava.

Quando saiu à rua para almoçar não se falava doutro tema. E quanto mais ouvia mais difícil se tornava engolir a carne de vinha d’alhos do senhor Manuel.

Passou o resto do dia a despachar no gabinete, sem grande entusiasmo. No final do horário de expediente, ainda não havia notícias da planta e foi-se deixando ficar sentado na cadeira, olhos postos no tecto, pensando no próximo passo. Tudo isto era simbólico, alguém queria derrubá-lo. Não tinha dúvidas.

Já todos os outros administrativos tinham saído, quando Gorete entrou, pela enésima vez naquele dia, no gabinete. Vinha a despacho, disse ela. Ele bem sabia ao que ela vinha. Ia despachar, pois ia.

Pelas frestas do tapa-sol, mais expostas pela ausência da planta da Junta, viu que, entretanto, tinha escurecido. Sentiu-se mais à vontade e empenhou-se em satisfazer os lábios gulosos que Gorete lhe oferecia.

Durante um tempo, que lhe pareceu longo, não pensou em mais nada até ouvir o barulho. Vinha da rua. Eram passos no areão e risos sufocados.

Afastou o corpo ainda quente de Gorete e fez-lhe sinal para que continuasse calada. Ela olhou-o espantada, mas obedeceu.

Aproximou-se da janela e viu o que não esperava.

Anacleto, o idiota da freguesia, carregava a planta da Junta na direcção do edifício, acompanhado de dois outros palhaços que carregavam mais dois vasos. Os filhos da mãe mal conseguiam conter o riso, como se um assunto de tal gravidade pudesse ter graça.

Nunca, nem nos seus sonhos mais vívidos, lhe passou pela cabeça que aquela mosca-morta tivesse ambições políticas e muito menos que tivesse a ousadia de se meter com ele. Um fulano que nem sabia a receita de uma sandes de fiambre. Era um agitador, estava visto.

Dominado pela fúria, ia para a rua dar-lhe uma lição e mostrar-lhe quem era o patrão, quando foi travado por uma mão feminina. Era Gorete, que lhe puxava pelos colarinhos. Gorete de quem, naqueles minutos intensos, já se tinha esquecido e, mais importante, Gorete, a mulher do idiota da freguesia.

Petrificou. Tinha-se esquecido do que andava a fazer àquela hora no gabinete e do que havia feito em muitas horas de expediente. Agora lembrava-se. Estava de pés e mãos atados, de calças na mão. O rei estava nu.

Sem saber ler nem escrever, Anacleto tinha feito xeque-mate ao rei da freguesia.

(Fake of Great – Rene Magritte, Vladimir Malinko)