Leituras

O iniciado (capítulo II)

por Adriana Calado

Sentados à mesa de um restaurante, cada um com uma imperial à frente e com o jantar escolhido, Germano estava pronto para prosseguir o seu relato. Contou-me que tendo decidido começar a sua leitura pela história de Araravey, com começo na página 127. Aí tinha lido o início da biografia “Este iniciado nasceu em Lisboa a 6 de Agosto de 1980, filho de comerciantes de classe média. Formou-se em Matemática tendo seguido uma carreira discreta nas Finanças.”

Não pude deixar de me rir.

“Mas que corriqueiro para iniciado …”

Germano Brás não se riu.

“De facto. Assim é. Mas há algo que me chama muito mais à atenção do que isso. Não vê?”

O facto de ser português? Bem, mas temos Fernando Pessoa, Agostinho da Silva, toda uma tradição mística… Porque não um iniciado? Não somos menos do que os outros.”

Germano olhou-me com frieza. Reabriu o livro e prosseguiu:

“O seu nome de baptismo era Germano Brás. Céptico, frequentava curso de ciências esotéricas para os desconstruir num esforço de racionalismo. Porém, após uma crise espiritual profunda, a sua alma despertou.”

Houve um silêncio. Conhecia-o o suficiente para saber que não estava a inventar, a brincar comigo ou sob o efeito de qualquer substância psicotrópica. Confesso que não sei, tantos anos passados, explicar a violência das emoções que senti nesse momento. Mas uma coisa posso dizer sem mentir. Percebi que aquela conversa, ali naquela esplanada, seria um marco na minha vida.

Pedi-lhe para ver o livro. Ele assentiu, mas explicou-me logo que não ia conseguir ler aquele capítulo. E quando lhe perguntei porquê respondeu:

“Já mostrei o livro a um colega, como quem não quer a coisa. Ele não deu pela existência desse capítulo. Perguntei-lhe o que tinha achado da história de Araravey e não tinha visto o capítulo. O livro para ele tinha nove capítulo, mas na verdade, são onze. O do Arararvey e o de uma outra figura, que ainda não consegui perceber quem seja.”

Ficámos de novo em silêncio. Germano olhou-me cautelosamente.

“Achas que estou louco?”

“Não, não acho. Conheço-te há tempo suficiente para não partir desse pressuposto. E mais, que sentido faria andarmos a fazer cursos, palestras, estudos sobre o conhecimento oculto e agora dizer que és maluco?! Não me insultes. Não sou um prosaico qualquer.”

Germano sorriu-me agradecido.

“Sabia que podia contar contigo”.

Pedi uma nova ronda de imperiais e fiz-lhe sinal para que continuasse a sua narrativa.

– Confesso-te que num primeiro momento pensei que tinha lido mal ou que estava a sonhar. Depois, comecei a pensar se seria uma piada. Eventualmente alguém, conhecendo a minha curiosidade, ter-me pregado uma partida. Quando comecei a ler o capítulo, percebi que estava ali um relato circunstanciado da minha vida, incluindo alguns episódios de que poucas pessoas têm conhecimento. Quando percebi que a história terminava precisamente no momento em que estava a ler o livro, fiquei convencido que era uma piada. Inclusive achei que tu e a Carolina podiam estar metidos nisto. Ela mais do que tu. Tem aquele sentido de humor algo retorcido.

– Mas olha que não… Eu não fiz nada disso e a Carolina, embora pudesse achar engraçado pregar-te uma partida, não me falou disso. E parece-me uma coisa um bocado elaborada. Onde ia ela desencantar o livro?

– Sim, tens razão. De qualquer foram já sei que vocês estão inocentes. Há algo muito mais estranho a acontecer. Na noite em que li o livro decidi que iria à livraria falar com o Sr. Antonino e ver o que ele me podia adiantar. E fui.

– E então?

– Olha, percorri o bairro todo, perguntei por ele aos lojistas, falei da loja a quem passava. Ninguém, mas absolutamente ninguém, conhecia uma livraria ali ou tinha ouvido falar de tal pessoa.

– A sério?

– A sério.

– Não te terás enganado na localização? Às vezes as ruas dos bairros antigos parecem iguais. Sobretudo de noite e com fraca iluminação.

Germano mostrou-me mais uma vez o livro. Na capa interior do mesmo estava a indicação da morada da livraria, com rua e número da porta. Ocorreu-me uma ideia.

– Vamos lá agora. Jantamos e seguimos os dois. Vamos tirar isto a limpo.

Olhou-me agradecido e concordou. Depois, voltámos a nossa atenção para os peixinhos da horta, estaladiços e suculentos, acabados de chegar à mesa. Durante a refeição falámos de outros assuntos procurando reinstalar uma certa normalidade. Mas a minha alma fervilhava de emoção na expectativa de um mistério para investigar.

© Georgia Mizuleva

(Continua no próximo número)