Música

Viagem musical com Mantric Mambo

por Teresa Carvalhal

Ainda me lembro do tempo em que nas férias de verão íamos para o Algarve pela estrada nacional. Nada de autoestradas. Parava religiosamente em Canal Caveira, já nessa paragem ia bastante agoniada e bebia água com gás. Esticava as pernas, apanhava ar e bebia a dita água com gás. Ficava chateada porque uma sandes era sempre diferente. Hoje em dia reconheço que são bastante boas. Mas pedir uma sandes mista nunca era a carcaça com uma fatia de queijo flamengo e uma fatia fina de fiambre. Era sempre presunto com um queijo de sabor mais intenso.

A partir dessa pausa tudo corria melhor. Havia sempre alguns truques que fui aprendendo ao longo do tempo que me permitiam ficar menos enjoada. Olhar para longe, não ler, abrir um bocadinho a janela, etc. Curiosamente, se a música fosse do meu agrado também me sentia mais bem-disposta. Claro que, enquanto criança, tinha pouco voto na matéria. Não era eu que decidia a banda sonora da viagem. Se tivesse sorte, lá conseguia que pusessem uma das minhas cassetes. Muito antes do CD. As minhas cassetes preferidas eram as bandas sonoras das telenovelas brasileiras, desde Roque Santeiro à Tieta, passando ainda pelo Sassaricando.

Ouvir algo de que gostava atenuava o mal-estar inerente àquelas longas viagens de carro com a paisagem pouco animada e as eternas ultrapassagens que me pareciam sempre muito arriscadas.

E sempre foi assim até eu própria começar a conduzir. Qualquer viagem se torna mais agradável com a música que nos apetece ouvir na altura. O mesmo acontece no trabalho. Quem não gosta de trabalhar com os phones nos ouvidos? Quem discorda de que a música nos ajuda em tantas áreas? Que tem um efeito terapêutico? Que nos ajuda a ultrapassar momentos difíceis, porque há sempre aquele refrão com que nos identificamos, aquela melodia que nos arrepia a pele, ou determinada música que nos faz dizer “adoro esta parte”.

Há uns anos ouvi uma música que me ficou na cabeça e que me parecia medicinal. Pelo menos eu senti-a assim. Gostei da letra que invocava a força dos elementos da natureza como cura, que nos falava em ir buscar força à Mãe Natureza. Que unia Cristo, Buda, Krishna e todos os Orixás, cada um com o seu poder, independentemente do credo de cada um de nós, pois “desde o principio todos nós somos irmãos”. Tratava-se de Guerreiro da Paz do Xamã Orestes Grokar. Desconhecia a música, bem como o seu autor. Desconhecia a música xamãnica, embora o seu ritmo me recordasse muito certas músicas das novelas brasileiras que ouvia em criança, principalmente as que eram adaptadas de romances de Jorge Amado. Fui pesquisando músicas dentro do mesmo género até que encontrei Tupinambá da banda Mantric Mambo. Ritmo envolvente, que nos faz imediatamente querer dançar. Tupinambá é uma das músicas do álbum Cabocla Land, que faz referência à cultura brasileira indígena e às divindades da corrente astral da Umbanda, aos Orixás e caboclos. Não discorrerei exaustivamente sobre esse tema por desconhecimento. Mas tentarei fazer algumas elucidações simples que nos permitam perceber melhor a natureza desta música.

Mas quem são eles? De que falam? O que têm de especial?

Os Mantric Mambo são um grupo musical espiritual do Templo Mãe d’Água, localizado em Alto Paraíso Goiás. Basta vermos fotografias do local para percebermos que a palavra “paraíso” faz todo o sentido. Participam em diversas cerimónias de cura espiritual e compõem músicas visionárias, criadas sob influência da Ayahuasca (chá do Santo Daime) e do seu poder psicotrópico, graças à N-dimetiltriptamina (DMT), que já vêm a consumir há algum tempo e que tem contribuído para resgatar esta musicalidade e este poder de cura. É uma música curativa e de tributo às divindades e seres que honram através da música, à Natureza e ao seu poder curativo. Podemos considerar as músicas como orações, já que se trata de uma cultura em que a música é uma celebração e uma forma de prestar tributo e agradecer as bênçãos que cada um recebe diariamente.

As músicas transportam-nos para um Brasil pré-colonial, livre, puro e governado pela Mãe Natureza. Sente-se a paz na música que eles cantam, sem qualquer traço de angústia ou tristeza. Invocam os espíritos e divindades da Umbanda, a religião que sincretiza Catolicismo com divindades africanas e outros elementos de religiões africanas e espíritos indígenas do Brasil. Trata-se de um conjunto de práticas de magia e rituais de cura. A Umbanda foi reconhecida como religião apenas em 2012. Nas músicas deles temos sempre presentes os caboclos, espíritos indígenas que já não estão neste plano. Referimo-nos a índios que morreram e que passaram por um processo de ascensão e regressaram à Terra, embora num plano «invisível», com o intuito de ajudar quem precisa.

Fiquei a saber que Tupinambá é um caboclo muito respeitado e venerado no Brasil, bem como Jurema, uma cabocla muito presente nas músicas dos Mantric Mambo. Trata-se da filha de Tupi (outro nome para Tupinambá, que era também o nome da tribo de ambos). Jurema era uma cabocla muito poderosa, que chegou a ser cacique da sua tribo. É Jurema quem os ajuda a iniciar cada dia com fé, esperança e força: “Se não tivesse a tua força eu não seguia/ Se não tivesse Deus no céu/ Se não tivesse minha alegria/ Se não tivesse o renascer no amanhecer de todo dia.” (in Mãe Jurema). Em Tupinambá a letra não é mais do que “Seu Tupinambá quando vem na aldeia, ele traz na cinta uma cobra coral”. Tupinambá é um caboclo muito invocado pelo seu enorme poder curativo. Conta a lenda que estando às portas da morte no mato, e prestes a ser atacado por um animal, foi salvo por uma cobra coral que desde então passou a acompanhá-lo sempre.

Enquanto que nas letras das suas músicas encontramos a versão mais espiritual desta forma de expressão, as melodias exercem sobre nós um fascínio que nos prende de imediato. É o ritmo que se alinha com o nosso batimento cardíaco e nos transporta para aquele lugar, para aquele tempo fora do tempo, para uma natureza primeva que nos envolve e que nos faz sentir como se estivéssemos em pleno ambiente tribal, isto enquanto estamos no trânsito, ou em casa, ou no trabalho com os phones nos ouvidos. Como se nós próprios estivéssemos sob o efeito da Ayahuasca, uma das viagens «prometidas» a quem ouve Mantric Mambo. Para toda esta sensação de evasão que nos arrasta irresistivelmente contribuíram certamente os instrumentos musicais utilizados: percussão, flauta, sampoña, violão, viola caipira, guitarra e o hipnotizante didjeridu, muito usado em rituais de meditação. E é isso no fundo, uma música envolvente, leve, e que nos permite fugir do que ouvimos diariamente na rádio, ou nos bares quando vamos sair. É revigorante ouvirmos música que nos distrai da tecnologia, que nos leva às raízes, ao passado, que nos conecta à natureza. E esta música consegue tudo isto porque ela é uma das componentes de algo muito mais abrangente. É toda uma forma de vida que de uma conjugação holística de uma espiritualidade associada a este sistema de crenças, e a uma ligação muito próxima da Terra e da qual a música constitui o elemento comunicante de todos esses elementos.

Do mesmo modo que eu por mero acaso descobri esta música, acredito que haja leitores que não o conheçam. Fica assim sugestão para que possam explorar.

Mantric Mambo contam já com Cabocla Land e Mãe d’Água, Roda da Vida e Melodias Cristalinas, entre outras produções musicais.

(Aguarelas de Carybé)