Sociedade

A Pseudociência

por Luís Ramos

Vivemos na era da informação. A possibilidade de um espaço de opinião para todos nos mais diferentes formatos é, possivelmente, uma das grandes vitórias das sociedades livres e democráticas. Contudo, quantidade não é sinónimo de qualidade, e ter acesso a mais informação não significa que estejamos melhor informados. Quantos conteúdos vemos, lemos e ouvimos por dia? Revistas, jornais, livros, televisão com dezenas de canais, rádio, e na palma da mão, uma porta aberta para o mundo inteiro: Google, Facebook, Instagram, Twitter, Linkedin, Youtube… Entramos e saímos várias vezes por dia nessas aplicações, toneladas de informação que nos entra pelos olhos dentro. Saltamos de uma notícia acabada de sair para um post de outro assunto, um vídeo, uma opinião de alguém que não fazemos a menor ideia de quem seja. Nas livrarias, uma infinidade de livros, revistas de todo o género e para todos os gostos. Podemos duvidar da veracidade e do nível de rigor de toda esta informação, e na verdade, temos motivos para tal, afinal nunca se sabe muito bem quando já estamos a entrar em terreno pantanoso onde o substrato existente é excelente para fazer crescer as mais disparatadas teorias, opiniões enviesadas, ideias desvirtualizadas do seu contexto inicial e interpretações erradas. Hoje, mais do que nunca, é necessário critério na escolha de informação, capacidade de análise, ser-se crítico, e ter uma boa dose de cepticismo, ou, pelo menos, o melhor que se conseguir ser.

A pseudociência é um dos temas de onde mais brota a falta de rigor e de veracidade, espalhando-se, sem grande dificuldade, pelos mais diversos veículos de informação. A pseudociência tem sido ao longo dos tempos uma espécie de sombra da ciência, pois sempre que esta avança e progride no conhecimento, a pseudociência pega-se-lhe na tentativa de retirar parte do vocabulário para si e desta forma o usar, sem medida e de forma inconsequente, nas irracionais e absurdas teorias que elabora, as chamadas teorias pseudocientíficas. Desde os tempos em que Isaac Newton (1643-1727) estudou a luz, que se julgava necessário existir um meio para que esta se propagasse. Esse meio, apelidado de éter, era algo difícil de caracterizar pois teria propriedades físicas peculiares. Seria transparente, leve, subtil, praticamente impercetível e a sua detecção não estava ao alcance de simples experiências. Se a luz era um mistério, o éter seria uma matéria com propriedades que davam total liberdade à imaginação. Pois foi isso que a pseudociência fez, tomando para si o éter como a substância mágica necessária para o entendimento dos maiores segredos da natureza humana e da sua alma. Aos olhos esotéricos, o éter era a região fronteira que faltava conhecer para dar lugar a uma explicação holística da realidade. Mas não se ficaria por aqui. Palavras pertencentes ao electromagnetismo, como pólo positivo e negativo, atracção e repulsão, correntes, indução, linhas de força, transmissor-receptor, faziam parte de toda uma conceptualização sedutora, porém completamente errada. Foi no século XIX que o estudo desta substância única teve maiores desenvolvimentos, sendo já próximo do século XX que chegaram as primeiras conclusões: o éter não existia. O método científico deitaria por terra uma teoria que tinha aguentado mais de dois séculos. Em ciência, o termo éter, utilizado para descrever o meio necessário para a propagação de ondas eletromagnéticas, não fazia sentido continuar a ser usado. Aos dias de hoje, o termo éter ainda é usado em textos pseudocientíficos, no entanto com menos frequência que no passado, isto porque a ciência do século XX haveria de trazer algo ainda melhor, a física quântica. Este campo da ciência ocupa-se do estudo das partículas fundamentais que estão na base de tudo o que constitui o Universo. Depois de alguns séculos de física clássica, perfeitamente determinista, a física quântica desafiou o conceito de realidade devido à sua característica probabilística. Em 1935, foi apresentado o paradoxo de Schrodinger, que fazia parte da discussão levada à época sobre a natureza da mecânica quântica e que, em traços gerais, se ilustra pela experiência em que se colocava um gato e uma substância radioactiva dentro de uma caixa, permitindo que o gato tivesse dois estados de existência até que algum observador confirmasse qual deles era de facto verdadeiro. Ora, até ser observado, o gato estaria morto e vivo ao mesmo tempo, depois de observado, o gato estaria morto ou vivo. Este paradoxo levou mais uma vez a interpretações enviesadas e, a par do éter, a pseudociência passou a fazer da quântica o seu campo fértil. Se para haver realidade era preciso um observador, então todo o Universo estaria a ser observado ou, derivando ainda mais, cada um de nós seria capaz de fazer a sua própria realidade, só e apenas recorrendo à sua consciência que observa aquilo que desejar. A amálgama de nomes e conceitos como consciência e quântica estavam agora unidos pela força de mentes criativas. Nos dias de hoje, qualquer livro de autoajuda ou espiritualidades incluirá o jargão quântico nas mais espetaculares afirmações, como por exemplo:

São os estados de consciência que consentem a passagem a um nível de maior vibração, pois a energia permite elevar a mente a um patamar quântico superior.

Para quem segue a linha de pensamento pseudocientífica, encontrará nesta frase imenso significado e conteúdo, no entanto, a frase foi simplesmente inventada no preciso momento em que escrevo estas palavras. É redonda, vazia e desprovida de qualquer lógica, ou seja, não tem rigorosamente qualquer significado. Para que se note ainda mais a simplicidade de tornar estes temas um verdadeiro malabarismo de palavras, reformularei a frase mantendo apenas a coerência sintática:

São os estados quânticos que consentem a passagem a um nível de maior consciência, pois a mente permite elevar a vibração a um patamar de energia superior.

Ora, o sentido desta frase é exactamente o mesmo do que o da primeira frase, ou seja, nenhum. Tal como nos tempos do éter, também agora os autores fazem uma mistura eficaz de conceitos científicos com palavras de carácter mais metafísico. A estrutura frásica é geralmente pouco clara, intrincada e por vezes completamente incompreensível, resultando até num propositado distanciamento do autor, que pretende manter a imagem de alguém mais esclarecido do que o leitor. O argumento de autoridade é igualmente utilizado, numa tentativa de legitimar determinado conteúdo. Para grande parte do público é normal que o epíteto de Doutor ou Professor seja razão suficiente para validar todo o discurso, contudo, essa razão está longe de ser a premissa mais importante. Embora um título possa à partida indicar alguém especialista em certo tema, não significa que o que está a ser exposto seja verossímil e tenha a qualidade necessária.

O excesso de informação científica sem qualquer validação revela um outro problema: a referência aos chamados estudos, que frequentemente surgem sem alusão a um artigo original e que podem, nalguns casos, ser fruto de erros de interpretação, passíveis de existir num texto traduzido. O facto de a comunicação social necessitar de alimentar constantemente o sistema noticiário leva a que esta referência se verifique amiúde neste tipo de canal de informação. Disto resulta que muitas das vezes, um público maioritariamente não especialista, interprete um estudo quase como se de uma lei se tratasse, o que é de todo errado, porque efectivamente um estudo é apenas um estudo e nada mais.

Em suma, a ciência não se faz de textos emaranhados, nem de títulos académicos, nem de estudos transfigurados em títulos empolados e sensacionalistas, mas sim de argumentações claras e transparentes, de cientistas e especialistas desprovidos de qualquer preconceito e parcialidade para com os resultados encontrados, e de uma série de estudos sistémicos enquadrados no objectivo de demonstração de determinada hipótese e totalmente assente na racionalidade do método científico.

Mas não será isto alarmismo a mais? Que mal tem em acreditar-se em ideias pseudocientíficas? As consequências podem ser nefastas para a sociedade em geral. Acreditar em concepções sem evidência científica pode levar, por exemplo, a aceitar a não vacinação, o negacionismo da medicina e consequente procura de curas miraculosas, com recurso a terapias sem qualquer prova de eficácia, ou uso de produtos naturais sem a menor noção da sua origem, a adopção de dietas nutricionalmente desequilibradas… Quem faz da pseudociência a sua realidade corre riscos, pois será a cobaia de uma qualquer teoria não confirmada, podendo isso resultar num problema que não tem qualquer responsável associado sem ser quem tomou a própria decisão de seguir um caminho orgulhosamente chamado de alternativo.

É necessário referir que tudo pode ser objecto de estudo, seja qual for a matéria. Mas qualquer que seja o estudo, deve simplesmente obedecer à metodologia científica, desde os primeiros momentos da estrutura do pensamento, quando ainda é uma mera hipótese, sujeitando-se desta forma ao escrutínio e à crítica científica. A ciência precisa de ideias e hipóteses novas, de preferência disruptivas, para que seja possível pôr em causa teorias actuais, empreendendo assim uma modificação que permita uma maior aderência entre a teoria e o fenómeno em estudo, sendo que necessitará sempre de uma criatividade racional e de pés assentes na Terra. Muito é o conhecimento nos dias que correm e por isso, também, a ciência sabe que há perguntas sem resposta e que aguardam mais investigação. Muito há por descobrir e entender, não se tendo, contudo, a mínima noção de quanto é que se saberá hoje de tudo o que haverá para saber. Seja qual for a quantidade de conhecimento que falta desvendar, a ciência estará lá para descortinar.