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Hoje estarás comigo no paraíso, de Bruno Vieira Amaral

por Fernando M*

Para mim, João Jorge nasceu na noite em que o mataram nas hortas a caminho de Vila Chã.

É com esta frase que Bruno Vieira Amaral inicia o seu último romance, levado à estampa em 2017: Hoje estarás comigo no Paraíso.

O multi-premiado Autor – vencedor do Prémio José Saramago, do Prémio Literário Fernando Namora, entre outros, pelo seu romance de estreia As primeiras coisas – escolheu como ponto de partida da narrativa investigar o homicídio do seu primo João Jorge, ocorrido em meados dos anos 80 no bairro onde ambos viviam.

Assumindo o paralelismo coincidente com o clássico de Gabriel Garcia Marquez – Crónica de uma morte anunciada – que o Autor cita, sabemos logo na primeira frase que João Jorge, o nosso aparente protagonista, numa noite morreu de morte matada.

Digo aparente protagonista, porque na verdade o romance acompanha o percurso do escritor Bruno entre as brumas da memória e os cronicões pessoais da sua família na tentativa de reconstituir os passos da vida daquele primo distante e, simultaneamente, descobrir o porquê do desfecho prematuro, aos 22 anos de idade.

O romance é pessoal não porque tenha por objecto a morte de um familiar, mas porque parte do olhar na primeira pessoa do escritor, que ao introduzir a história do seu primo João Jorge e da sua família expõe de forma pormenorizada a sua infância, o seu passado, quer na sua força quer nas suas fragilidades.

Aí encontramos o Portugal dos anos 80: os cromos da bola e as cadernetas, as dificuldades da vida nos subúrbios da Margem Sul esquecida e ostracizada, famílias expropriadas de uma África que em tempos foi sua, o bullying que não se chamava bullying, o respeito afectuoso por quem é mais velho, a bombazine, a delinquência, os Heróis do Mar, o viver com pouco, as idas à praia da Costa ou às Amoreiras, o Crime, as revistas aos quadradinhos, a esperança num Amanhã melhor, as dores de um desenraizamento à força, a violência incontida e desproporcional, a invisibilidade…

Bruno, que cresceu sem pai, conta-nos como foi medrar entre avós, aos cuidados de uma mãe que tudo fez para o sustentar, no meio de tios, primos e amigos com alcunhas improváveis, numa Baixa da Banheira selvagem e indomável.

No meio da sua própria história surge, de mansinho, o primo João Jorge, de quem vamos sabendo mais e mais à medida que o próprio Autor se recorda ou é recordado por terceiros do curto percurso de vida de um rapaz, que tímido e reservado acabou degolado numa noite de Fevereiro.

No correr da investigação da morte de João Jorge Rego encontramos o Pai ausente do escritor, angolanos expatriados em Moscavide, Zeca Diabo, Casas de meninas, um avô envolto em mistério, um crime noticiado nos jornais, a Justiça ou falta dela… e o sonho de pegar na moto e fugir com a mulher da nossa vida à garupa.

Tudo serve a narrativa, todos enriquecem a estória.

Partindo de notícias de jornal e dos processos judiciais que consultou e cujo teor partilha connosco, o Autor questiona literariamente as circunstâncias de vida que empurraram João Jorge para o seu fim, enunciando os ses que poderiam ter mudado a História, procurando uma explicação plausível para a brutalidade vil e desejando um final melhor.

A pretexto de contar as circunstâncias da violenta morte de João Jorge, Bruno Vieira Amaral homenageia a vida de um homem que pouco conheceu e de quem mal se recorda, mas a quem imortaliza na eternidade da Literatura.

De caminho fica um retrato fiel – pormenorizado ao detalhe! – de uma época já distante, de uma africanidade exilada, de uma marginalidade imposta por um Portugal à procura de si mesmo.

Gosto de pensar que aquele rapaz João Jorge, de olhar tímido, cuja foto se esconde nas páginas finais do romance e a quem o mesmo é dedicado ficaria contente e orgulhoso por ter um primo que o achou merecedor. Que não pode ser esquecido!


Hoje Estarás Comigo no Paraíso, de Bruno Vieira Amaral
Ed.: Abril de 2017
Quetzal Editores


* Sobre Fernando M:
“Sou dos livros, dos filmes, do Teatro, da mesa e das esplanadas nos dias de Sol”.

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