Música

HvB, uma luz na Idade Média – a figura

por João Pedro Baptista

(HvB recebe uma inspiração divina e transmite-a ao escriba. Miniatura do Rupertsberger Codex des Liber Scivias)

Proponho hoje uma viagem a um passado longínquo, para visitar a obscura mas fascinante figura de Hildegard von Bingen.

A Sibila do Reno, como também ficou conhecida, foi uma monja beneditina, mística, teóloga, filósofa, compositora, poetisa e naturalista germânica e mestra do Mosteiro de Rupertsberg, em Bingen am Rhein, na Alemanha.

Apesar de enorme importância que teve no seu tempo, o seu nome acabou por cair no esquecimento durante largos séculos, apenas tendo sido redescoberta no último quartel do XX, por ocasião dos 800 anos do seu aniversário, quando o especialista em música antiga Philip Pickett apresentou em concerto, no Reino Unido, algumas das suas obras. Em 1983, a edição discográfica do álbum “A Feather On The Breath Of God”, com a angelical voz de Emma Kirkby, teve um inusitado sucesso para um disco com este tipo de repertório, despertando a curiosidade pública sobre a interessante e multifacetada obra e personalidade desta figura singular.

Actualmente existem dezenas – senão mesmo centenas – de gravações da música de Hildegard, numerosas biografias, ensaios, publicações relacionadas com os seus inovadores tratados práticos de biologia, botânica, medicina, e mesmo romances que exploram algum sincretismo entre a sua vertente mística e os poderes mágicos que lhe eram atribuídos.

Ao mesmo tempo que a dimensão e importância do seu labor teológico tem vindo a ser reconhecido formalmente pela Igreja Católica – a sua veneração pública foi autorizada em 1324 pelo Papa João XXII e foi canonizada em 1584 pelo Papa Gregório XIII; a 7 de Outubro de 2012 foi proclamada Doutora da Igreja Universal pelo Papa Bento XVI, o que veio tornar a sua doutrina ortodoxa – a sua figura tornou-se uma espécie de farol do feminismo avant la lettre, na chamada Idade das Trevas, dada a sua tenacidade na defesa da valorização do papel das mulheres na sociedade e no próprio seio da Igreja, numa época em que este era praticamente inexistente. Paradigmático dessa atitude foi a sua permanente recusa em permitir a subserviência das mulheres aos homens no seio do clero e o grande papel que atribuía ao feminino na ordem do universo, visível no repúdio da associação da sedução feminina ao diabólico e da atribuição da culpa do pecado original a Eva, ao mesmo tempo que defendia que a mulher havia igualmente sido criada à imagem e semelhança de Deus. As imagens femininas alegóricas investidas em posições de grande poder abundam nos seus textos, como a Fé, a Igreja e a Caridade, mas em especial a figura da Sabedoria.

Mas enquadremos um pouco o contexto histórico-social em que viveu Hildegard von Bingen, por forma a perceber melhor a sua importância.

Na época em que viveu, a Europa começava a sentir um florescimento social e cultural, depois de séculos de agitações internas, consequência da desfragmentação do Império Carolíngio e das invasões vikings a norte e árabes a sul. O Reino da Germânia, onde nasceu e viveu foi, no entanto, um dos mais poupados às aflições que atacavam outras partes da Europa, muito mais beligerantes e conturbadas.

De facto, foi no século XII que ocorreu o mais importante dos chamados renascimentos medievais, aquele que maiores e mais duradouras repercussões teve na história da cultura ocidental. O século XII assiste ao desenvolvimento das cidades e, consequentemente, ao florescimento de uma cultura urbana. Crescendo as escolas junto dos centros urbanos, muitas delas tendem a associar-se em corporações de ofícios, as quais estarão na base do surgimento das Universidades.

Entre as escolas do século XII que antecedem a formação das Universidades, duas merecem destaque, por exprimirem tendências significativas e opostas de pensamento. Uma é a escola da Catedral de Chartres, onde pontua a figura de Bernardo de Chartres e que ficou associada a uma filosofia naturalista da criação, inspirada pelo Timeu, de Platão, segundo a qual a criação é, essencialmente, a instauração de uma ordem natural regida pelas leis matemáticas e geométricas do mundo. Em contraposição ao naturalismo desta escola de Chartres encontramos a tendência mística da escola de S. Vítor, onde se desenvolve uma reflexão acerca do caminho e da natureza da contemplação e onde se antecipam as bases da futura pretensão de ordenação escolástica da filosofia à teologia, por via de uma reflexão epistemológica sobre a relação entre as artes liberais e a exegese bíblica.

Foi ainda uma época de profundas tensões, cismas e crises causadas pelos anti-papas, tornando a vida religiosa tumultuosa, incerta e instável em termos internos. Importa destacar, neste âmbito, os importantes movimentos derenovação religiosa, que rejeitam o enriquecimento eclesiástico, fazendo renascer o valor evangélico da pobreza, através da prática de um despojamento material e de que importa destacar, como paradigma, a reforma da Ordem de Cister e a figura de Bernardo de Claraval, uma das figuras mais proeminentes do século, inserido na corrente da teologia mística. Ficou famosa a controvérsia que desenvolveu acerca do correcto uso da razão e da lógica no âmbito da teologia com o brilhante mestre da dialéctica Abelardo.

É neste contexto, nesta época de charneira, que se insere a actuação religiosa de Hildegard von Bingen, cuja vida foi em grande parte dedicada a combater a corrupção no interior da Igreja, escrevendo inúmeras cartas a reis, nobres e prelados, onde denunciava um conjunto de más práticas que influenciavam negativamente a vida religiosa.

Numa época em que às mulheres era vedado o acesso a todo o conteúdo cultural e à instrução, onde o feminino não tinha qualquer autoridade, ao ponto de serem mesmo colocadas em causa as suas capacidades cognitivas, Hildegard von Bingen escrevia os seus livros em latim – o que excluía o público popular – criando uma produção cultural, literária e musical que a tornaram conhecida por toda a Europa. Foi a primeira mulher a ser considerada uma autoridade em assuntos teológicos e a única mulher medieval a quem se atribuiu o direito de pregar a doutrina cristã em público.

A sua concepção mística e integradora do Universo – união entre a natureza, a vontade humana e a graça divina – levou-a a defender a pureza da doutrina católica e a combater as corrupções do clero, nascendo, pois, uma das figuras mais singulares e proeminentes do século XII europeu. Respeitada no seu pensamento teológico e na sua concepção política da sociedade, tratou e debateu directamente com os homens mais ilustres do seu tempo, desde os monarcas germânicos, a ilustres teólogos e até ao próprio Papa. O progressismo das suas teses face à época em que se inseriam, bem como a divulgação das visões místicas que alegava ter por intermédio divino desencadearam o antagonismo de grande parte do clero e mesmo perseguição, tendo-lhe valido a protecção de Bernardo de Claravale do próprio Papa.

Hildegard nasceu em 1089, provavelmente em Niederhosenbach, de pais de linhagem nobre e ricos proprietários de terras. O facto de ser a 10.ª filha e de ter uma saúde débil terá determinado que fosse entregue à Igreja. Aos oito anos foi aceite como oblata na abadia beneditina de Disibodenberg, tendo sido confiada ao cuidado de Jutta de Sponheim, abadessa do mosteiro de origem nobre, que lhe deu a formação religiosa e musical iniciais. Na altura, os mosteiros beneditinos eram os melhores lugares para quem queria dedicar-se à cultura e à religião, estavam entre os centros culturais mais importantes da Europa e, por isso, promoviam uma educação esmerada aos filhos dos nobres. Em 1115, Hildegard fez os votos monásticos definitivos e ingressou na Ordem Beneditina. O contacto com o mundo exterior era completamente proibido, valorizando-se a clausura, até nas suas manifestações mais extremas. Com a morte de Jutta de Sponheim, por volta de 1136, Hildegard foi chamada a suceder-lhe como magistra de Disibodenberg.

Desde criança que Hildegard invocava ter experimentado visões; todavia, foi só aos 43 anos que expôs a questão ao seu confessor, o qual, por seu lado, a relatou ao arcebispo de Mainz. Um colégio de teólogos veio a confirmar a autenticidade das visões de Hildegard, tendo um monge sido destacado para a auxiliar nas suas transcrições e narrações. O resultado foi a obra Liber scivias Domini (Conhecei os caminhos do Senhor), primeira parte de uma trilogia, que consiste na narração de 26 visões de estilo profético e apocalíptico e de teor reportado à relação de Deus com a Humanidade e à ideia da redenção divina e onde introduziu o conceito da viriditas, que percorre todas as suas outras obras, significando literalmente “verdor”, mas que é utilizado tanto no sentido de fecundidade e vida, por referência à cor verde das plantas, como no de qualidade vivificante do Espírito Santo que infunde toda a Criação.

Por volta de 1150, depois do aumento numérico das monjas, devido sobretudo à grande consideração pela sua pessoa, Hildegard funda um novo mosteiro na colina chamada Rupertsberg, nas proximidades de Bingen am Rhein, para onde se transferiu juntamente com vinte irmãs de hábito. Em 1165 instituiu outro mosteiro em Eibingen, na margem oposta do Reno. Foi abadessa de ambos, tendo vindo a falecer em 1179, com a avançada idade de 81 anos.

Na segunda parte deste artigo centrar-me-ei na vertente musical da obra de Hildegard von Bingen.

(Ilustração da obra Liber Divinorum Operum – O Homem Universal. Século XIII)


(A segunda e última parte, do presente ensaio será publicada no dia 1 de Novembro)

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