No radar

Monstros Fabulosos, de Alberto Manguel

por Filipa Gonçalves

Na sexta-feira passada, a Tinta-da-China lançou em Portugal o mais recente livro de Alberto Manguel, “Monstros Fabulosos – Drácula, Alice, Super‑Homem e outros amigos literários”, apresentado por Pedro Mexia e Ricardo Araújo Pereira, no Museu da Farmácia em Lisboa, e que contou com a presença do seu autor.

Neste livro, Manguel, reconhecidamente um dos maiores bibliófilos do mundo, revisita mais de trinta das suas persongens favoritas, entre elas e talvez seja ela a sua preferida – digo eu – Alice, mas também Robinson Crusoe, Don Juan, e Fausto, estes com as suas diferentes origens e autorias, D. Quixote e, para mim de forma surpreendente, Monsieur Bovary.

É um livro sobre livros. Melhor, sobre personagens literárias. Como elas são, na sua riqueza, uma janela para o mundo e para a sua compreensão; companheiros de viagem com quem construímos laços umas vezes mais profundos que outros e que “Talvez por isso, e apesar da contradição, os melhores personagens de ficção tantas vezes nos pareçam mais vivos do que amigos de carne e osso. Longe de obedecerem às suas histórias, mudam a trama a cada leitura que fazemos, iluminando certas cenas e obscurecendo outras (…). O aviso de Hieraclito acerca do tempo é verdadeiro para todos os leitores: não lemos nunca o mesmo livro”.

O amor aos livros, esta “droga boa” e “vício não castigado” nas palavras do autor aquando da apresentação do livro, é o que move a sua escrita. Mas este amor não é platónico, é transformador. Ao relembrar-nos destas personagens, Manguel recorda-nos também as alterações que algumas delas podem provocar nas nossas vidas, convocando-se a pensar, interpelando-nos, sobre certas questões: Pipi das Meias Altas diz-nos para não ligarmos às convenções e seguirmos o nosso próprio nariz; Capuchinho Vermelho partilha o credo de Thoreau, o da desobediência civil: as ordens autocráticas da mãe são para cumprir mas cumpri-las-á a seu tempo, e depois de ser presa do lobo ainda tem duas estratégias de fuga: resignar-se à condição de vítima ou tornar-se dona do seu próprio destino; às vezes a única resposta que a maioria dos absurdos do nosso mundo merece é a resposta de Alice: “Tanto disparate e parvoíce”; As aspirações a liberdade de Jim, que apesar de tudo continua a ser lido à luz da sua condição de escravo; Sexta-Feira, para quem a Declaração Universal dos Direitos do Homem de nada valeria. A escravatura foi abolida, mas estão aí as novas formas de servidão: “trabalho infantil, salários de miséria, expropriação de terras, tráfico sexual, genocídio, destruição de recursos naturais, fome induzida pela indústria, êxodos, exílio forçado”; Dom Quixote, a opor à verdade da liberdade absoluta, a de poder escolher o seu código de ética e esfregá-lo na cara de quem não admite.

“Não se lê para aprender, nem para aprender mais, nem para escapar-se. Lê-se porque a leitura é um vício perfeitamente compatível com a escassez de meios, com a falta dessa audácia que outros vícios requerem e, mais importante ainda, com a absoluta preguiça”, escreveu António Munõz Molina no El País a propósito de outro livro de Manguel.

É capaz de ter razão. Mas, de entre todos os vícios talvez seja o mais saudável, com a vantagem actual de os filtros a que os livros estão sujeitos serem os que advêm das nossas experiências, características e limitações pessoais, que não são pouca coisa. Não são, porém, os impostos por uma mão digital invisível qualquer. E isto não é de somenos importância.

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