Ficções

Coragem

por Antónia Sá

A coragem.

É o meu sentimento preferido.

Coragem para defender alguém quando todos os outros se calam, por medo, por vergonha ou por pequenez.

Coragem para atirar a toalha ao chão, quando isso se impõe por uma questão de higiene mental.

Coragem para olhar em sentido contrário. Coragem para ver coisas que nos magoam. Coragem para continuar a caminhar, ainda que a estrada por vezes possa ser um lugar desagradável.

Coragem para acordar todos os dias e assumir que apesar de o dia anterior não ter sido perfeito, este será melhor e não deixaremos que nada de mal aconteça, nem deixaremos esmorecer o espírito.

Coragem para aceitar que existe maldade e ódio e perversidade, mas que o Bem pode vencer sempre, desde que queiramos.

Coragem para não cair na tentação de fazer separações rígidas entre o Bem e o Mal.

Coragem para dar um passo em frente, mesmo que isso possa querer dizer a queda no abismo.

Desde que me lembro que sempre me irritou aquela obsessão dos meus pais com a necessidade de eu praticar desporto. Aliás, de eu praticar todos os desportos. Ténis, futebol, basquetebol, ski, natação, dança… é pensar num, que eu certamente também pratiquei.

Mens sana in corpore sano, repetiam-me para me motivarem.

Isso todavia não me motivava, nem me inspirava, nem me fazia querer ser melhor nessa prática. Só me causava náuseas. Aqueles corpos suados, a transpirarem suor, adrenalina, vaidade, gabança, cansaço, testosterona. Tudo isso me enjoava, causava-me repulsa e nojo. Fazia-me querer afastar para bem longe.

Era nos livros, no estudo, na solidão e no silêncio do meu quarto que eu gostava de estar e onde eu me sentia verdadeiramente feliz. Se não me chamassem para almoçar ou jantar, facilmente saltaria a refeição. Melhor assim. Ao menos não teria que me confrontar com aquele mundinho perfeito e confortável, de sorrisos e palavras doces.

Claro que eu era a única a quem esta situação agradava. Sobretudo a minha mãe era uma fiel opositora desta minha forma de estar. Que não podia ser, que eu tinha que conviver com outras crianças da minha idade (o que incluía os meus irmãos), que eu tinha de sair e apanhar sol na cara, alimentar-me devidamente e… claro, fazer desporto. Qualquer um, tanto lhe fazia, desde que eu o fizesse.

A isto eu respondia com insubordinação, agressividade e ausências cada vez maiores.

Cumpri o calendário escolar e correspondi muito satisfatoriamente às expectativas que a minha família depositava em mim. Pertenci a todos os quadros de mérito de todas as escolas pelas quais passei. Como aluna, era um exemplo a seguir. Quando decidi ir para engenharia química, fui aplaudida pelos meus e como é óbvio, fiz o curso – a que se seguiu imediatamente um doutoramento – de forma exemplar, sem esforço e com louvor. Electromagnetismo, equações diferenciais, termodinâmica química, operações em sistemas multifásicos, electroquímica, materiais ou até mesmo gestão logística nunca me impressionaram.

Não sei dizer bem o que me interessou na conversa daquela mulher com aspecto conservador e recatado. Se foi o seu próprio aspecto que me despertou curiosidade e me fez querer saber mais acerca dela. Se foi a sua conversa tão diferente daquela que a minha mãe tinha comigo. Se foi o facto de não me impor nada, ou porque me ouviu sempre. Até quando eu disse as maiores parvoíces do universo. Ou talvez simplesmente porque pela primeira vez tivesse sentido a existência de uma alma gémea. Da Minha alma gémea. Daquela que enche por completo uma vida.

Falámos de tudo. Da vida, do sentido da vida, da finitude da vida, dos nossos desejos, dos nossos gostos, das nossas frustrações e tristezas. Curioso… Como é possível que me conheça tão bem?! Onde é que andou este tempo todo, quando eu mais precisei de uma orientação, de uma liderança, de uma luz na qual eu confiasse desta forma?! Mas nunca é tarde demais. E afinal, a minha Luz já aparecera.

Era Verão.

Hospedei-me no hotel mais luxuoso daquela zona. Um sítio fervilhante de gente. De frente para o mar. O cenário era idílico. Hóspedes rodopiavam entre a piscina, a praia, os courts de ténis, os restaurantes e bares de apoio, falando alto e animadamente, entre bebidas coloridas e snacks exuberantes.

Luz hospedou-se noutro hotel. Igualmente luxuoso e igualmente de frente para o mar. Igualmente cheio de gente.

Combinámos aquilo como se tratasse da coisa mais relevante que alguma vez poderíamos fazer nas nossas vidas miseráveis.

Acordámos que sábado seria o nosso dia D. Ao almoço. Quando todos, ou pelo menos grande parte da turba estivesse a banquetear-se relaxadamente, como se aquilo fosse a sua vida real e tudo o que importava. Agora sim, desceriam ao abismo onde eu tenho vivido. Provarão o fel da minha vida. A angústia de ser eu. Torta. Má. Louca.

Luz foi bem-sucedida nesta nossa missão. Duzentas e cinquenta baixas iniciais, às quais acresceram mais 28 elementos destacados para prestar assistência imediata, após o desabamento de parte do tecto do lobby da entrada.

Já eu, como sempre, ou pelo menos naquilo que realmente me importava, fracassei.

Vimos e revimos o plano vezes e vezes em conta. Estudámos ao pormenor os locais, aqueles onde o impacto seria maior. As horas em que seríamos melhor sucedidas. O “melhor” modo de execução. Até a forma como nos deveríamos arranjar para chamar a menor atenção possível sobre nós. Aquilo que deveríamos tomar para estarmos na nossa melhor forma.

Seguimos tudo à risca. Luz conseguiu. Eu não.

Anos a fio de estudo, aturadas pesquisas, louvores e prémios vários atribuídos na área da química e ainda assim, por algum motivo a minha mochila cheia de explosivos não explodiu.

Desorientada (sobretudo depois de perceber que nunca mais estaria com a minha Luz), incrédula, saí apressadamente do hotel. Refugiei-me numa pensão nos arredores da cidade, na tentativa de me reorganizar e tentar novamente, mais tarde.

Ao final do dia, percebi que estava cercada pela polícia.

Desesperei. Gritei. Chorei. Deitei-me no chão e rebolei. Parti todos os espelhos que ali haviam. Bebi de um trago meia garrafa de uma porcaria qualquer que eu trazia na mala. Ri. Ri muito. Eu sempre soube que era louca. Como é que eu cheguei aqui?! Nasci assim? Ou foi a vida de merda que tive, que me tornou nisto? Sempre tive tudo de mão beijada. Nunca soube o que era querer realmente uma coisa, sem que ela me aparecesse no dia seguinte. Nem tinha que pedir muito. E à minha volta só via pobreza e tristeza e podridão. E falta de sonhos e esperanças e futuros.

Já tinha visto em filmes esta aparente tranquilidade, nervosa e tensa. Esta bonança que antecederá o avanço da cavalaria. Que pena que tudo tenha que terminar assim. Tantas expectativas que eu tinha para um grand final e no fim das contas vai ser só isto – eu e uns policiazecos, neste fim de mundo… Sem glória, sem fama, sem seguidores. Nada. Só eu e estes desgraçados, a quem o dever empurra para que venham tentar impedir que outra desgraça maior.

A tensão no ar era cada vez maior. Sentia a movimentação cada vez mais intensa e próxima dos agentes. O silêncio e a quietude daquela local eram artificiais. Quase que conseguia ouvir os seus murmúrios. Ou pelo menos eu assim achava. Mas eu sou louca.

O fim inevitável estava próximo. Eu sabia-o. Se calhar os desgraçados que me perseguiam também.

Pensei nos meus pais, nos meus irmãos, no meu quarto-forte, em alguns dos meus professores e na minha querida Luz. Recordei parte de um verso de Juvenal, na sua Sátira X, que nunca me saiu da cabeça desde que o li, havia mais de 20 anos antes:

“Deve-se pedir em oração que a mente seja sã num corpo são.
Peça uma alma corajosa que careça do temor da morte,
que ponha a longevidade em último lugar entre as bênçãos da natureza,
que suporte qualquer tipo de labores,
desconheça a ira, nada cobice e creia mais
nos labores selvagens de Hércules do que
nas satisfações, nos banquetes e camas de plumas de um rei oriental.
Revelarei aquilo que podes dar a ti próprio;
Certamente, o único caminho de uma vida tranquila passa pela virtude.”

Não posso esperar mais. Eles estão quase aqui. Nunca me tocarão.

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