Música

Ainda a liturgia de outono

por Pedro Faria

Norman Percevel Rockwell (1894 -1978) foi um ilustrador americano que viveu atormentado por ser fofinho: durante cinquenta retratou com delicada suavidade a harmonia do modus vivendi americana nas capas do Saturday Evening Post e colaborou com regularidade com os Boy Scouts of America, para quem fez adoráveis e estéreis calendários.

O álbum que Lana del Rey lançou em 30 de agosto de 2019, dá pelo nome de Norman Fucking Rockwell.

A música que dá o título ao álbum abre brevemente com uns violinos suavezinhos e passa para uns acordes melancólicos de piano de hotel que introduzem a voz contidamente langorosa de del Rey, que com um tom de ligeira advertência condescendente diz: “Goddamn, man-child/You fucked me so good that I almost said “I love you”. O mote está dado e o remate da música confirma-o: “Goddamn, man-child/You act like a kid even though you stand six foot two/Self-loathing poet, resident Laurel Canyon know-it-all/You talk to the walls when the party gets bored of you/But I don’t get bored, I just see it through/Why wait for the best when I could have you? (destacado do autor…)

As músicas sustentam-se num tecido acústico (o piano, o baixo, a guitarra, claramente destacados) que a “eletricidade” se limita a sublinhar com reverência.

São maioritariamente “baladas” (detesto a palavra mas não encontro melhor) muito bem construídas, que servem palavras encadeadas com uma inteligência agridoce, os filamentos tatuados nas notas como uma inevitabilidade.

As músicas convocam a sujidade deliberadamente apagada das ilustrações de Rockwell, uma América feita de imperfeições comuns, de pessoas desencontradas, contrafeitas ou consumidas pelo desejo de se deitarem ao lado de um desconhecido cuja memória jamais permanecerá.

A vida comum que passa pelas compras no Wallmart, por lanches em jardins suburbanos (“Wearing white for their tea parties/Playing games of levitation/Meditating in the garden”Bartender), seguidos de encontros românticos clandestinos com empregados de bar, é narrada com um ironia terna (“If he’s a serial killer, then what’s the worst/That could happen to a girl who’s already hurt?/I’m already hurt/If he’s as bad as they say, then I guess I’m cursed – Happiness is a Butterfly) e com um uso normalizado e fluente da palavra fuck (“Fear fun, fear love/Fresh out of fucks, forever”– Venice Bitch”).

Não conhecia esta Lana del Rey, mais ácida do que doce, um talento tremendo para cantar histórias, brincar com palavras e, mais do que tudo, para transportar o ouvinte para o contexto em que se coloca enquanto narradora, como se aquela música e aquela letra fossem gémeas siamesas em harmonia simbiótica.

A Lana é um caso muito sério.

Nota final: no dia 27 de setembro de 2019 fui ao Rivoli (como o outro, não é?) ver um espetáculo extraordinário de flamenco (nada purista, antes pelo contrário) de Israel Gálvan. Em palco também estava El Niño de Elche, nom de guerre de Francisco Contreras Molina, cantor daquilo a que chamam o Novo Flamenco, seja o que isso for.

El Niño, que é um corpo sólido de onde sai a mais extraordinária voz, deu um concerto no bar do teatro no fim do espetáculo e dei por mim esgazeado com aquele Alfredo Marceneiro que se abanava com uma folha de monstera deliciosa e me fazia lembrar o tropicalismo experimental da Yma Sumac.

Procurem e descubram o álbum mais recente, Colombiana, de maio de 2019, ficam aqui e aqui amostras.

(Freedom from Want, Norman Rockwell, Norman Rockwell Museum)

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