Música

Liturgia de outono

por Pedro Faria

Por aqui já há muito faz frio e as manhãs são agrestes. Começo a ouvir, ao balcão da confeitaria, pedidos rápidos de café em chávena escaldada e as queixas habituais sobre a desconcertante dialética vestuário – clima, uma vez que, lá pelo meio do dia, o sol aparece e ainda manifesta alguma pujança.

Afinal, eu vou-me embora, tu vais embora, o verão já se acabou, cantam Os Conchas (com a voz de Manuel João Vieira), à sua maneira, em Fim de Verão, do José Mário Branco, no filme de 1991, Agosto do Jorge Silva Melo.

Nestas manhãs, amortalhadas pelo nevoeiro ou pela chuva, atiro-me ao álbum que os Metronomy lançaram em 13 de setembro de 2019 (Metronomy Forever) e iludo a vontade de enfiar a cabeça numa pilha de almofadas, esperando que ninguém dê pela minha falta. Para casos extremos, aconselho o sintético Salted Caramel Ice Cream, que recicla os ritmos insensatos de algum pop do início dos 90 e apontamentos new wave com o falsete do Mika. Estranho? Sim, mas depois entranha-se.

A areia quente nos pés, o sufoco afogado na água mais ou menos fria do mar, os céus azuis uniformes, sem princípio nem fim, foram-se.

É o outono, estúpido, e neste que começa ouvem-se as vozes de algumas mulheres que encarnam bruxas, resistem a um aparente fim dos tempos e se dispõem ao sacrifício numa pilha de livros vulneráveis.

Fernanda Montenegro, na capa da revista literária brasileira Quatro Cinco Um, a um tempo expectante e imperturbável, desafia o bravo bombeiro Montag (personagem chave do filme Fahrenheit 451, de François Truffaut) para que ateie o fogo e a consuma, a si e aos livros que a sustentam presa a um tronco.

No Brasil de hoje, talvez uma versão extremada do Brasil de sempre, em que as tensões e contradições latejavam em surdina, voam mulheres-bruxas, de lâmina na língua, granito no olhar e palavras rápidas, ríspidas e incisivas que afirmam o racismo que existe, elevado à máxima potência quando associado ao género, à orientação sexual ou ao abismo (fosso é pouco) entre ricos e pobres.

Ouça-se o Volume II das Psicopretas, coletivo feminino brasileiro de rap de guerra, cada estrofe um ataque cru, violento, um murro no estômago atrás do outro, em que os elementos se assumem como bruxas de Salém, “pretona(s) periculosa(s), num país que é preto”: “Mano, o que é que tem na minha cor? É muita melanina pra você?” (…) “E já que é uma guerra, pegue seu arsenal, Lírico, poético, de fácil entendimento, Se não for pelo acesso, nós tá é perdendo tempo”.

Ouça-se Linn da Quebrada, que se move na construção voluntária e consciente do feminino e da liberdade da autodeterminação do género: “Hoje, meu corpo, minhas regras, meus roteiros, minhas pregas, Sou eu mesmo quem fabrico”.

Ouça-se Planeta Fome, o trabalho mais recente de Elza Soares, e a voz arranhada e rugosa, tão resistente e sólida, a afirmar a resistência na primeira música, Libertação: “Eu não vou sucumbir. Eu não vou sucumbir”. Música atrás de música, a passear pelas notas mais africanas do samba, pelo rock puro e duro, pelo reggae, pelo rap ou até por um pop com arranjos disco-sound, um retrato do Brasil de hoje e a afirmação direta e nua de uma realidade que se assume como a voz dos que não se sentem representados, os não recomendados, os outros, essa imensa maioria. “O Brasil que cheira/ O Brasil que fede,/ O Brasil que dá é igualzinho ao que pede”, diz a mulher sábia e desconcertante em Blá, Blá, Blá.

A cantiga é uma arma e o Brasil, pelas suas particulares circunstâncias, é um arsenal de manifestações que procuram abalar a estrutura do mundo tal como o conhecemos. Do Brasil para o mundo, sem medo. O mundo agradece a colaboração.

(Vuelo de Brujas, Francisco Goya y Lucientes, c. 1798, Museo de Prado)

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