Entrevistas

À conversa com Patrícia Pinto

por Filipa Gonçalves

Patrícia Pinto nasceu na Ilha da Madeira e estudou design de moda no IADE, em Lisboa. Regressou à região em 2000, onde trabalha. Participou em várias iniciativas colectivas, entre outras, o Portugal Fashion e Funchal Fashion Week, e realiza desfiles individuais onde apresenta as suas colecções marcadas pelos coloridos e mistura de influências e padrões de tecidos e malhas.

Ainda em pleno Verão, no seu bonito atelier, feito à sua imagem e semelhança, conversamos sobre os influxos no seu trabalho, desde a natureza impressiva das paisagens madeirenses, passando pelas técnicas manuais e ancestrais, até às mulheres na e da sua vida. Essas que são muitas ou se calhar não são assim tantas, mas “parecem porque têm uma força, uma vida, uma sensibilidade e harmonia fantásticas”. Falamos também do respeito pela natureza e seus ciclos, que também são nossos, e sobre a essência das coisas.

Formaste-te em design de moda, mas como é que a moda surgiu na tua vida?

Lembro-me de ter uns quatro anos. Nasci na casa da minha avó, e tenho muito aquela noção das colchas, do vestuário e sapatos da minha avó. Coisas em bordado. A manualidade está muito presente. Saí da casa da minha avó com três anos e lembro-me de estar na casa da minha mãe e sentir falta daquele mundo. Ia muito visitá-la e os bibelots, os naperons em crochet, tudo tinha pormenor, cheiro, cores e padrões fantásticos. O meu tio tinha trazido um armário de borboletas de África e a minha mãe diz que eu rebentava as grades do parque para ficar horas especada para aquilo. Tenho essa memória.

Será, então, mais a memória de uma determinada estética do que propriamente de roupas?

Sim, de uma determinada estética. A minha avó tinha uma marquise cheia de luz onde estavam esse armário de borboletas e uns sofás com tecido de linho da terra grosso com um padrão de folhas, em tons de verde e caramelo, lindíssimo. Esse colorido e todas essas coisinhas marcaram-me tanto. Funciono muito pelas memórias, cheiros, sons, e essa estética é que me ficou. Ao crescer, pelos oito/nove anos, quis começar a fazer a minha roupa. A minha mãe tinha uma irmã que era costureira e vivia na Venezuela, onde tinha família, e quando vinha cá trazia as modas daqueles lados, com muitos cabeções bordados e pormenores muito interessantes. Ia absorvendo tudo e queria fazer as minhas roupas. Desmanchava algumas peças que tinha para começar a fazê-las. A minha mãe tinha muitos tecidos e eu ia para o quarto de costura dela e punha-me a experimentar coisas para as bonecas, tricot e crochet. Tive a sorte da minha mãe ter passado isso para nós. E mesmo na escola, com a esmirna e tapeçaria, fui conseguindo reter todos esses trabalhos.

Foste ficando com um património estético com uma forte ligação emocional.

Sem dúvida. É interessante que são memórias emocionais visuais estéticas da ancestralidade. Tenho muitas memórias das minhas avós e há um legado ancestral que tive o privilégio de receber delas e de algumas técnicas manuais que, agora, nas escolas já não se transmitem.

“A natureza tem tudo: texturas, cores. É muito inspiradora.”

Tens uma preocupação nas tuas peças, sendo elas contemporâneas, de ter esse fio que conduz à ancestralidade e também à natureza?

Tenho uma ligação muito grande às origens. Fazemos parte da Natureza. Nós, raça humana, achamos ser superiores à Natureza. Mas nós fazemos parte dela e é importante que tenhamos esse respeito e percebamos que os nossos ciclos estão alinhados com a natureza. Portanto, ao desrespeitarmos esses ciclos estamos a interferir no nosso ciclo natural. Nós somos e funcionamos como um todo.

Olho à minha volta, nasci e estou numa ilha com esta Natureza muito forte, com mar e serra tão perto. Tinha uma avó de Câmara de Lobos e outra do Lazareto, duas realidades distintas. O meu avô era ligado à agricultura, à terra, e sempre vi as coisas brotarem da terra, crescerem. A natureza tem tudo: texturas, cores. É muito inspiradora.

Isso entronca numa preocupação desde sempre tua, que agora será mais generalizada, de sustentabilidade e ética na moda. Como traduzes estas questões no teu trabalho?

Nunca usei pêlos de animais e, quanto ao comércio justo, não ponho o preço no trabalho das pessoas que trabalham comigo. Respeito o trabalho delas sabendo, de antemão, que é um processo manual, tem tempo e é único. Tive a necessidade de ir buscar a minha matéria prima a estruturas pequeninas e que tivessem a mesma linha de pensamento. Quando encontramos pessoas que pensam da mesma maneira que nós, as coisas são mais sólidas e verdadeiras. Estive à procura em Portugal e não havia nenhuma estrutura que produzisse tecidos como eu queria…

Porque desenhas os teus próprios padrões?

Desenho. Não uso só os meus, mas faço-o também. Aliás, queria ter tirado desenho têxtil, mas ainda não o fiz. Encontrei, em Itália, uma estrutura familiar que produz os seus próprios padrões e também pode produzir os meus com um ou dois metros, para a qual importa esse principio da escala pequena; querem dar voz e permitir que esse tipo de estruturas possa manifestar-se. No fundo, têm uma estrutura pequena para dar resposta a estruturas pequenas. Essa descoberta foi excelente porque antes ia a uma fábrica grande que trabalha para a Valentino, Ungaro e outras – era espectacular – só que era muito mais mecanizada, éramos quase um número. Sentia-me um pouco fora de água.

Não tinha nada a ver com a maneira como produzes as tuas peças, portanto.

Exacto. Estava longe da minha identidade, mas temos que nos enquadrar nestes processos e no mundo de acordo com o que há. Nesta estrutura, a proprietária tem uma forma de pensar semelhante à minha, respeita muito os animais e a natureza, tem uma grande sensibilidade. É fantástica. Apesar de desenhar os seus próprios padrões, permitiu que eu tivesse um espaço para manifestar a minha criatividade. Não se preocupava em vender só os padrões dela, a possibilidade de criar padrões feitos por mim também era desafiante para ela.

Trabalhas muito com seda…

Vários tipos de seda. Ela deixa-me escolher os padrões, também outros materiais naturais, e, a propósito de mulheres e ancestralidade, comprou cinco caixotes de lenços dos anos 30 a 50, de uma fábrica de quatro gerações de mulheres que teve de fechar porque não aguentou esta loucura de desenvolvimento, e disse-me que tinha pensado em mim. Cada caixa que abria, vinham-me lágrimas aos olhos. Eram coisas lindas de morrer. Ela deixou-me olhar para aqueles padrões e criar os meus, isolando elementos. Nos dias de hoje, isso é impossível numa fábrica normal.

Falas muito do feminino. É algo fundamental para ti?

Muito. Eu não sou feminista. No masculino e feminino está o equilíbrio, mas a mulher tem um papel de muita força na sociedade porque uma mulher equilibrada consegue equilibrar o masculino de uma forma muito boa. Costumo dizer que a mulher tem um papel de elevar o homem. E a força do feminino, toda a sabedoria que tem passado entre mulheres – as mulheres eram as curandeiras, reuniam-se nas tendas quando estavam com o período e recebiam as mensagens dos seus avós, preparavam os homens para a caça, e tudo isso – acredito que vem do nosso útero, e atenção que o útero pode não gerar vida, podemos decidir não ser mães, mas só a capacidade de gerarmos vida, o simbolismo do nosso útero é muito grande.

A propósito desse “feminino” existem muitas mulheres que influenciam o teu processo criativo? Pergunto porque já falaste das tuas avós…

As minhas avós; uma amiga de setenta e oito anos; várias clientes simbólicas; também uma amiga muito próxima com quem eu discuto todo o tipo de assuntos, desde os do mundo até os da minha vida pessoal. Não são muitas, mas parecem porque têm uma força, uma vida, uma sensibilidade e harmonia fantásticas. É este mundo feminino, esta capacidade de harmonizar e de saber que a força não está em sentir-se superior, mas na sensibilidade de observar, estar e compreender o mundo de outra maneira. Precisamos de mulheres sensíveis. Não precisamos de mulheres que querem ser homens; nem na política nem noutros lugares de poder. Precisamos de mulheres que gostem de ser mulheres, sabem o que é a grande responsabilidade de ser mulher e, com a sua sensibilidade, harmonizem. Uma coisa são direitos e sermos vistas com respeito e força que temos, mas, sendo mulheres, gostarmos de sê-lo e agirmos com essa sabedoria que acho ser muito natural na mulher.

Falamos de mulheres e é inevitável falarmos de estereótipos e de actualmente estarmos a viver tempos de procura de uma imagem corporal mais positiva. Como vês esta tendência?

As clientes às vezes dizem-me “está habituada a fazer coisas para desfile e para gente magrinha”. Não é assim. O primeiro desfile que fiz foi com amigas clientes. Não procuro as medidas “86-60-86”. Procuro a imagem de uma mulher com uma atitude especifica: que seja forte e, ao mesmo tempo, tenha suavidade. Quando estou a transmitir um conceito de colecção, vou buscar uma mulher que não seja um símbolo demasiado sexual. Procuro mulheres com simplicidade e não excessivamente sensuais porque quero comunicar acima de tudo. Não se trata de uma “mulher-cabide” porque não é desta forma que vejo a mulher. É uma mulher com força, mas essa força dilui-se de modo a que a roupa e ela sejam uma só. As minhas peças são muito fortes pelo que se a mulher não for forte não as aguenta.

Estamos a falar então da moda como forma de empoderamento?

Exactamente. Como forma de expressão. Sobre o corpo, digo às minhas clientes que a harmonia, aquilo que usamos e é a nossa forma de expressão, não tem nada a ver com medidas. Tem a ver com a nossa atitude, com confiança. É uma forma de reconhecermos a nossa força e não termos medo de nos expressar como somos. A moda está a transmitir e a comunicar o que somos. Todos os dias vestimos-nos para sair de casa e podemos optar por nos vestir apenas para cobrir o corpo ou podemos usar a moda como uma forma de ir mais além, de reforçarmos a nossa forma de sentir, de criar, de ver o mundo através da roupa.

Achas que a maioria das pessoas está consciente de que a moda pode ser essa ferramenta de expressão individual tão poderosa?

De uma forma geral, não. Muito poucas pessoas reconhecem isso. Existem essas, as que se vestem porque têm de se cobrir, e as que consomem porque vão atrás das tendências sem saber bem porquê e encaixam tudo em cima do seu corpo, muitas coisas que nem fazem parte delas, mas é só uma maneira de consumir e ir atrás de alguma coisa.

São poucas as pessoas que se vestem para exprimir-se, mas são fiéis. São as pessoas que encontramos com coisas diferentes, que não têm medo, mesmo quando os outros olham – principalmente numa ilha tão pequenina – e têm a sua força e identidade. São pessoas que pensam diferente, normalmente têm uma forma mais sensível de ver o mundo e têm as suas próprias posições.

“Nascemos para nos expressar e para criar”

Apesar de não ser generalizada, achas que essa consciência se adquire mais com alguma maturidade?

Com segurança e maturidade. Com educação também. Desde que nascemos estamos à procura de conhecimento, de expansão, e é importante disponibilidade para nos abrirmos a isso. Passamos pela adolescência, em que tudo é complicado com o nosso corpo e o pensamento das massas – não queremos ser muito diferentes –, e depois chegamos a uma idade, quando nos começamos a autonomizar e saímos da estrutura da nossa família nuclear, muitas vezes quando vamos para longe estudar – estou a falar no contexto de ilha – e começamos a perceber, a querer criar mais. Começamos a ganhar a nossa força, a perceber a nossa personalidade e, com o tempo, percebemos que o corpo e a beleza são muito mais que as medidas perfeitas, tem que ver com uma harmonia, serenidade e força interior. Esse processo às vezes acontece mais tarde. Nunca nada está fechado. Enquanto há vida há movimento. Já houve uma pessoa que entrou aqui e disse que podia pô-la com muita coisa, mas misturas de padrões, nunca. Ri-me e respondi que “nunca” era uma palavra muito castradora, mas iria respeitar e, nem um ano depois, já estava a usar essas misturas porque ela própria quis. Acho que tenho um papel de mostrar as possibilidades. Não me imponho, mas procuro mostrar o que existe.

Preocupas-te que aquela pessoa expresse a sua individualidade mostrando quais as possibilidades de fazê-lo.

Exactamente. Gosto de olhar para a pessoa e perceber o que ainda têm lá para trazer à rua. Há pessoas que dizem “sou muito cinzenta”, mas se calhar não é assim. Se só nos mostrarem cinzento, pensaremos sempre cinzento, mas se nos começarem a mostrar outras coisas abrimos os nossos horizontes. Tem a ver com educação neste sentido, o de possibilitarmos. Fazer uma colecção anualmente tem a ver com isto; com eu expressar-me enquanto pessoa e ver o que tenho mais dentro de mim para dar; e ao fazê-lo estou a mostrar às pessoas que há possibilidade nelas de fazerem esse exercício. Nascemos para nos expressar e para criar, e é nessa criatividade que vamos expandido e criando força e confiança para fazer e pensar diferente. Como a roupa é a nossa segunda pele tem um papel muito importante.

O que está sempre presente quando crias?

A mulher é o meu centro. Quando estou a criar a leveza dos materiais e a força estão muitos presentes. É um processo de perceber quantas camadas de feminino existem. É difícil explicar por palavras, mas estou sempre a pensar como elevá-la.

E outros instrumentos que aches importantes?

Música. A primeira coisa que faço de manhã é abrir o “Spotify”, onde tenho as minhas listas e as descobertas da semana. Sou muito dos sons, de tudo o que é sensorial. A música tem a capacidade de nos transportar a sítios que conhecemos e aos que não conhecemos. Nos que já conheço são memórias que chegam e fazem-me vê-los de outra forma e projectar no futuro tem a ver com a possibilidade de alguma coisa que está no espaço, mas que a música, naquela harmonia, faz com que eu a vá puxando, trazendo-a cá abaixo na construção.

Adoro cozinhar, gosto muito da cozinha portuguesa, mas gosto muito de tudo o que são especiarias, desde a cor e cheiro ao paladar, que tenha um exotismo. Aguça-me os sentidos e faz-me entrar em ebulição (risos). Estive há alguns anos no mercado, em São Paulo, e havia uma bancada só com especiarias e aquelas cores e a mistura dos cheiros mexem de tal forma comigo… na criatividade, o corpo entra todo em acção. Lembro-me perfeitamente desse momento – estou a descrever e a lembrar-me da quantidade de tecidos, cores e ilustrações que surgiram ali – foi profundamente inspirador.

Em que estás a trabalhar agora?

Tenho vários projectos dentro de mim embora ainda não tenha nada, em concreto, feito. Tenho apontamentos, tenho sempre blocos de desenho e agendas. Se alguém quiser conhecer a minha vida tenho tudo escrito (risos). A 16 de Novembro apresentarei a minha colecção individual, no Mercado dos Lavradores que é um sitio que me acolhe sempre. É um espaço que posso trabalhar de formas diferentes e onde se encontra muito a cultura popular. Estou presente no mercado em Junho e em Outubro – há três dias de Feirinha para pessoas que trabalham com as mãos – e tenho um caderno onde registo frases que ouço das senhoras que vão lá vindas de vários sítios no campo, fotografias que tiro a senhoras vestidas de forma diferente. É uma fonte inesgotável pela quantidade de coisas que se passa lá dentro.

Tenho também um projecto com a Porta 33, o “Ilhéstico”[i], que é um projecto no qual estou muito entusiasmada em participar. Foram convidados vários artistas, cerca de 40, mais ou menos dentro da mesma faixa etária, para representar de forma contemporânea a criação na ilha neste momento. Como é que a ilha nos influencia, nos impulsiona ou restringe e o Funchal na perspectiva do criador. Gosto muito de ilustração e tenho uma ideia de juntar ilustração com uns tecidos e crochet, e comunicar a partir daí.

O meu atelier abre sempre a pessoas, principalmente meninas, que querem perceber como se costura, como funciona o atelier, como as coisas acontecem. Tive o exemplo da Margarida Santos, que era uma miúda muito engraçada e esteve comigo do 10.º ao 12.º ano e depois para fazer o portfolio para mandar para várias faculdades em Londres. Ela uma vez perguntou-me “como é eu crio?”. Respondi-lhe que não lhe podia dizer, só podia aconselhar porque o processo criativo era algo muito intimo e pessoal. Pus a mesa dela no jardim e disse-lhe que olhasse em volta e desenhasse porque iria perceber o que a inspirava. Depois, disse-me que tinha percebido em si uma tendência para desenhar flores e ervas daninhas e, com as folhas e as coisas do jardim, criou o seu portfólio– tinha muita capacidade – e conseguiu entrar em três faculdades.

Nestas meninas podemos ver vários tipos de mulher. Adoro falar com elas e ajudá-las a descobrir o que têm dentro de si, fazê-las entender que o trabalho manual não é o que pensamos que é. Estamos habituados a ver as coisas nas lojas, a consumir, e perdemos a essência delas. Quero mostrar essa essência. Um dos meus objectivos é abrir o atelier, ter mais open days justamente para mostrar o que é trabalhar com as mãos e contrapor ao trabalho massificado até para as pessoas começarem a perceber que nada é rápido, é um trabalho de construção e paciência. É um trabalho muito lindo que podemos fazer com jovens e gostava muito de desenvolver.

“Nunca me senti restringida na ilha, sempre vi o mar como forma de expansão.”

Falaste da ilha como forma de inspiração, mas algumas pessoas, principalmente os não ilhéus, vêm a ilha como restrição, o mar como barreira. Como vês a insularidade?

É engraçado porque nunca me senti restringida na ilha, sempre vi o mar como forma de expansão. Não me enclausurou. Gosto imenso da nossa ilha pela proximidade do céu, do mar e da serra, pelo facto de poder andar a pé do trabalho para casa e poder observar mutas coisas no trajecto. Consigo fruir de certos momentos, de cheiros e som com outra paz e sou desafiada a estar na ilha e, ao mesmo tempo, querer sair na ilha.

Porque existirão desafios inerentes a estar numa região periférica…

Sem dúvida. Por um lado, os transportes e o tempo que as coisas demoram a chegar. Em Lisboa temos mais variedade de retrosarias, lojas de tecidos, tanta coisa. Só que o facto de não ter essas coisas tão acessíveis levou-me, desde cedo, a procurar respostas fora que me pudessem servir. Desencadeei processos, muitos deles estão até fora de Portugal e consegui ter coisas únicas por estar condicionada. O facto de querer ter as mesmas possibilidades de quem está fora da ilha fez-me ir a muitas feiras, em Barcelona, Londres, onde estão pessoas de todo o lado a comprar e senti-me parte de tudo isso.

Por outro lado, quanto aos clientes, tenho um trabalho muito especifico. Há quem goste, quem não goste e pessoas que se identificam mais ou menos com ele.

O teu trabalho tem traços muito marcantes, desde logo a mistura de padrões…

Sim. O meu estilo vai de encontro a mulheres com essa maturidade, essa forma de ver. A minha filha, quando era pequena, queria fazer passagens de modelos. Eu ia para o armário e ia tirando as roupas, pulseiras, fitas do cabelo. Ela exagerava, como se estivesse a produzir um desfile meu. Punha os sapatos, andava para a frente e para trás, ria-se e divertia-se. Disse-lhe que aquelas coisas seriam também para ela e que um dia ela poderia usar e partilhar com a mãe e ela respondeu-me que para usar a minha roupa era preciso ter muita personalidade, só depois dos dezoito anos (risos). Ela tem quinze anos e, no inicio do ano, começaram a desaparecer umas peças de roupa do meu armário, e brincos grandes, com expressão, botas, saias e vestidos compridos. Ela ia dizendo que ia sair com isto ou com aquilo, sempre sorridente, mas nunca falava muito sobre o assunto. Um dia perguntei-lhe como era porque tinha ouvido dizer que seria só depois dos dezoito anos, que era preciso ter personalidade. Ela respondeu-me “parece que a personalidade chegou mais cedo” (risos). No crescimento, ela está a descobrir a sua força e a construir devagarinho a sua identidade.

Vou contar outra história dos meus filhos que acho muito engraçada. Quando chegava a altura do Portugal Fashion trabalhava todo o dia – sempre trabalhei muito – ia a casa dar-lhes o jantar e voltava para o trabalho. Não estava muito com eles, mas quando estava era muito presente, contava-lhes histórias para adormecê-los, adormecia-os, dava-lhes sempre um beijo de boa noite. Via-os felizes, mas sentia sempre culpa. Vivia meio atormentada. Uma das vezes, quando voltei trouxe o DVD para eles verem os desfiles, entre os quais o meu. Eles punham-se os três a ver e quando começava o meu arregalavam os olhos e riam. Eu achava que era tudo por estarem a ver a mãe mas eles disseram que era porque o meu tinha cor (risos).

Isso foi no início dos anos 2000? Estávamos nos monocromáticos?

Exactamente, 2004 a 2007. Bordeaux, cinzas e caramelo. E eles entusiasmados porque o meu tinha cor e perguntavam-me quando ia fazer o próximo.

E tu revias-te no que eles diziam?

Sem dúvida. Quando fui a Portugal Fashion, a Isabel Branco dizia-me que eu tinha de me conter, que naquele contexto eu era uma ave rara (risos). Quem vinha falar comigo eram os jornalistas de São Paulo, Itália e alguns de Londres porque os portugueses não sabiam bem… eu era estranha para eles. Anos mais tarde, agora com esta mistura louca de padrões, é que as coisas começaram a integrar-se mais. Mas eu sempre gostei disto, desta ebulição.

Nunca prescindiste disso. É um traço identitário. Eras capaz de fazer uma colecção que implicasses uma ruptura?

É mesmo muito meu. Já pensei fazê-lo, mas é tão natural em mim. Quero ir a dentro de mim e desafiar-me a fazer uma ruptura com algumas dessas partes, sem perder a minha identidade. Minimizar qualquer coisa. No próximo desfile, o objectivo é ter um foco: trazer a minha identidade só para um foco e neutralizar um pouco o resto. Mas quando estou a criar há qualquer coisa que fervilha de tal maneira e quando dou por mim estou a fazer misturas. É muito forte. Não tem nada a ver com tendências, tem a ver com um traço meu, influenciado pelo que vivi na minha infância e pelas senhoras que via. Tive um atelier por cima de um consultório médico e as senhoras vinham do campo para fazer consulta e sentavam-se nas escadas. Traziam lenços às cores na cabeça, camisolas de lã com padrões, saias às riscas, botas de lã com calças por baixo. Às vezes eu saia e pensava em dar-lhes uma peça mais simples se, em troca, pudesse ficar com a roupa delas para inspiração (risos).

Voltamos à ancestralidade…

Muito. Tenho uma loucura por xailes. É um acessório que tenho tido muito presente. Quando trouxe o xaile pela primeira vez as pessoas comentavam que já não viam aquela peça há muito e que era lindo, mas ninguém comprava. De há dois anos para cá houve uma mudança. Tenho tido clientes que pedem xailes, para si ou para oferecer. Quando vou ao mercado e contacto com estrangeiros, eles ficam estupefactos por ver esta peça novamente, que não se encontra nas lojas a não ser que seja algo cultural como é o caso das espanholas. Tenho-me desafiado a fazer xailes diferentes com mistura de cor, manchas em malha, tecido e malha, e tem funcionado muito bem.

Há peças que têm tido uma reacção muito forte nas pessoas. Antes as pessoas procuravam-me muito pelas calças. De repente, só querem saias compridas e dizem que se sentem muito femininas com as saias; que pela sua fluidez, leveza e conforto se sentem muito confiantes. A procura do xaile tem sido impressionante. Também umas golas de lã que fazia tiveram muito impacto pois as pessoas gostavam daquelas cores ali na zona do pescoço e peito. São peças que criam um impacto para além do físico, mexem com a parte psicológica.

Quando crias especificamente para uma cliente, como é o diálogo com ela?

Quando crio livremente, estou a criar para todo o tipo de mulheres. Estou a pensar no que tenho cá dentro, pensando em fazer essa comunicação para a outra mulher, mas é muito eu. No trabalho com o cliente personalizado há um trabalho de empatia, de me colocar no lugar do outro e perceber qual pode ser o meu contributo. À partida, se a pessoa me procura é porque se identificou com alguma coisa no meu trabalho. Tenho que perceber o que a trouxe aqui. Numa primeira reunião procuro saber o que gosta e não gosta, o que sente que queria ter de especial no dia ou na peça, o que, dentro dela, se identifica comigo, mas não mate a sua identidade. Posso achar que fica muito bem de vestido comprido, mas ela não se sentir bem. Para a roupa cumprir o seu propósito, quem a usa tem de se sentir parte dela e não torná-la naquilo que não é. E isso é bom porque como é um processo de construção, com várias provas, vamos vendo, limando e comunicando e, nele, as pessoas criam também e sentem-se parte.

Conseguirias definir a “mulher Patrícia Pinto”?

Acho que as pessoas que se identificam comigo têm que ser mulheres que não têm muito medo porque eu não tenho medo. Sou muito de experimentar. O processo não é estanque e ao construir podemos sempre mudar alguma coisa.

Portanto, tem que ser uma mulher destemida. Definitivamente muito feminina também. E livre. É uma mulher livre.


[i] O “Ilhéstico”, uma iniciativa da Galeria Porta 33, realizou-se nos dias 5-6-7 de Setembro, no Funchal.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s