Ensaio

Entre o céu e o inferno, eutopias e distopias – Parte II

por Carla Coelho

Se a eutopia é a descrição de uma sociedade idealizada e perfeita, o seu contrário são descrições de lugares onde se vive em extrema pobreza, violência ou opressão. São modelos distópicos e, embora não surjam como proposta política particularmente entusiasmante, são um tema recorrente na literatura contemporânea.

Em 1920, Evgueni Zamiatine escreveu s, retrato de uma sociedade totalitária assente na produtividade e na falta de emoção. Só há personagens adultas, não se registando a presença de crianças ou idoso. Há uniformes iguais para todos, não há nomes, só números de identificação. Não há espaço de liberdade ou individualidade, pelo que também não há necessidade de privacidade ou de um quarto que seja só seu para cada cidadão. O sexo obedece a data e hora pré-estabelecida, único momento em que as persianas dos quartos são corridas. A ideia base é sempre a mesma: o indivíduo não se realiza na comunidade, dissolve-se nela. Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley (1932), 1984 de George Orwell (1949) e Fahrenheit 451 de Ray Bradbury (1953) são outros exemplos clássicos de distopias. E nos nossos dias o género literário voltou em força. A História de uma serva de Margaret Atwood, Vox de Christina Dalcher e Ecologia de Joana Bértholo, são livros recentes que têm na distopia o ponto comum. Nas duas últimas ficções, o controlo faz-se pela limitação do uso da palavra. O ponto de partida da narrativa de Joana Bértholo é assustadoramente simples e contemporâneo: numa sociedade em que as palavras deixaram de ter peso, em que todos dizem e desdizem o que querem, quando querem e sem consequências, conclui-se que é tempo de revalorizar aquelas. E, que melhor forma de fazendo depender o uso das palavras de pagamentos em dinheiro? Exercício de imaginação da escritora portuguesa assistimos à implementação do Plano de Revalorização da Linguagem, em três fases. Uma déspota terna e iluminada pelas melhores intenções dá corpo ao plano. O controlo das palavras é o controlo dos afectos, das ideias, da liberdade de pensamento e é a essa asfixia que assistimos ao longo do livro.

Num dos seus ensaios Ursula L. Gun, um nome grande da escrita fantástica, procura fazer corresponder a ligação entre utopia/distopia e o yang/yin da filosofia taoista. No essencial, a génese de cada um deles contém o outro modelo. Não sei se será assim na teoria, mas na prática temos exemplos que vão nesse sentido. Basta pensarmos numa das mais fortes ideologias eutópicas da nossa História, o marxismo. Os amanhãs que cantam transformaram-se em sociedades opressivas e de miséria para grande parte dos seus cidadãos paredes meias com ideologias que já traziam consigo ab initio o gene da repressão e do medo, os fascismos nas suas diferentes formas.

Veja-se o modelo soviético. A sociedade em que todos seriam felizes deu lugar a uma realidade política assente na repressão, na fome, na ausência de direitos de grande parte dos seus cidadãos e cidadãs, aqueles em nome de quem se propôs lutar. Foi assim na URSS e no agora vetusto Bloco de Leste e foi assim na China Maoísta. O confronto entre o sonho da ideologia e o pesadelo da realidade não é fácil de integrar, sobretudo para os crentes mais fervorosos. Tiziano Terzani, jornalista e escritor italiano, viveu na pele o gosto da desilusão. Na sua longa entrevista O fim é o meu princípio falou ao seu filho sobre a tristeza sentida quando finalmente conseguiu ser colocado na China como jornalista. Maoísta convicto, instalado em Pequim depois de anos a estudar mandarim para realizar esse mesmo objectivo, escolheu um nome chinês para si e para a família, matriculando os filhos numa escola oficial. Rapidamente o brilho do entusiasmo se esfumou à medida que não tinha como negar a repressão, vigilância constante e fome que grassavam no país.

Os tempos mais recentes têm-nos oferecido muitos exemplares de literatura distópica. Mas, considerando os ventos que correm, seria bom que surgissem novos propostas de organização sócio-política assentes no direito de todos a uma vida feliz (discutindo-se o que é esta, tema magno da filosofia bem demonstrativo de que ela é para todos e não apenas para sábios encerrados na sua torre de marfim).

Mas neste século XXI parece que ninguém quer arriscar a fama de Cândido contemporâneo. Nos livros, como nos filmes, parece ser mais fácil imaginar a opressão e a luta/resistência contra ela, do que uma realidade pacífica, harmoniosa e equilibrada. A filosofia e a ciência política parecem igualmente cautelosas. Discutem-se os modelos sócio-políticos, projectos cosmopolitas, direitos e deveres numa sociedade global, mas os modelos propostos não chegam ao público não especializado. Há uma certa vergonha em ter esperança ou ser demasiado ambicioso nas construções propostas. E, no entanto, antes de se chegar à lua alguém teve de ter a ideia de que seria possível lá ir. O século XX mostrou bem o perigo das ideologias.

No livro que referi há pouco Tiziano Terzani tem uma frase tocante. Diz ao filho e entrevistador que conclui ser a única revolução possível a interior, dentro de todos e cada um de nós. Parece-me que é realmente na crença do potencial transformador do ser humano que podemos começar a pensar em novas eutopias.

(Jeremy Deller e Fraser Muggeridge, bandeira, Utopia 2016)

Bibliografia
– Lewis Mumford, História das Utopias, Antígona
– Platão, A República, Edições Calouste Gulbenkian
– Thomas More, Utopia, Editora Guimarães
– Evgueni Zamiatine, Nós, Antígona
– Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo, Livros do Brasil
– George Orwell, 1984, Edições Livros do Brasil
– Ray Bradbury, Fahrenheit 451, Edições Livros do Brasil
– Margaret Atwood, A história de uma serva, Bertrand Editora
– Christina Dalcher, Vox, Top Seller
– Joana Bértholo, Ecologia, Caminho
– Ursula Le Gun, No time to spare, Thinking about what matters, Editora Houghton Mifflin Harcourt
– Tiziano Terzani, O fim é o meu início, Estrela Polar
– Blogue “Crónicas Portuguesas


(A Parte I do presente ensaio foi publicada no passado dia 14 de Outubro)

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