Ensaio

Entre o céu e o inferno, eutopias e distopias – Parte I

por Carla Coelho

Em 1985 fui passar parte das férias de Verão na terra da minha avó materna. Era (e é) uma aldeia na Beira Interior a pouco quilómetros de Trancoso. Para uma menina da cidade a aldeia era um mundo de novidades. As portas das casas ficavam abertas durante o dia, toda a gente se conhecia, as mulheres lavavam a roupa no tanque no centro da aldeia e pôr o pé nas duas ou três ruas empedradas que a compunham tinha como risco maior darmos por nós rodeados de uma manada de vacas ou um rebanho de ovelhas e cabras. O cenário idílico tinha dois contras poderosos. Não havia casa de banho, nem água corrente, o que deu origem a contrariedades de que felizmente já me esqueci. E não havia nenhum sítio que vendesse livros o que para mim, já na altura, foi um pequeno grande choque. A minha avó não sabia ler e estava na convicção de que isso era pelo melhor. Como tantas pessoas da aldeia parecia-lhe que ler era meio caminho andado para nos enfraquecer a cabeça e que o tempo seria melhor despendido a bordar ou a aprender a fazer tricot. Foi por isso uma surpresa quando encontrei na sala um livro grosso, de capa dura e páginas brilhantes, ilustrado com belíssimos desenhos de montes e vales, uma visão idílica, árvores carregadas de fruta e pessoas sempre sorridentes. Já o meu sorriso desapareceu rapidamente, logo que percebi que não era uma narrativa ao estilo da Heidi ou da Ana dos Cabelos Ruivos. Era, sim, um livro de natureza evangelizadora, prometendo uma época dourada e uma vida feliz aos convertidos. Até hoje não sei como o livro foi parar a casa da minha avó, pois não acredito que o tenha comprado.

Não o sabia, na altura, mas o livro retratava uma espécie de eutopia extremamente popular: a de cariz religioso.

A eutopia é uma forma de ficção social que consiste em imaginar uma sociedade ideal, perfeita, em que todos os membros encontram a felicidade por força da organização sócio-política adoptada. A vida feliz é, nesta perspectiva, aquela em que a riqueza é distribuída de forma equilibrada, sem discrepâncias acentuadas entre os membros da sociedade, os quais desenvolvem as suas aptidões e aplicam-nas em prol do bem comum. Quase que podemos arriscar dizer que desde que o ser humano passou do estádio da sobrevivência mais essencial (e se calhar ate aí) não deixou de pensar sobre a cidade ideal.

Os gregos destacaram-se nesta reflexão. Um, em particular, escreveu uma obra que até hoje não saiu do pensamento ocidental: Platão, com a sua República.

A segunda grande obra de ficção social no pensamento ocidental é a Utopia (literalmente não-lugar), dada à estampa por Thomas More em 1516. Como em quase tudo o que é realmente importante também aqui encontramos um português, Rafael Hitlodeu. Na obra, foi este viajante português quem esteve na ilha Utopia e é ele quem narra a sociedade que lá encontrou. Um facto surpreendente é que efectivamente há registo histórico de um navegador português chamado Rafael Hitlodeu, há mesmo quem sustente ter sido ele, e não Fernão de Magalhães, quem fez a primeira viagem de circum-navegação.

A República de Platão (século IV a. C) e a Utopia de Thomas More (1516) estão separadas entre si por séculos, mas unidas pela similitude do terreno em que foram construídas. Quando Platão apresentou o seu modelo de cidade ideal Atenas e Esparta estavam envolvidas num longo conflito bélico entre si.  Já Thomas More foi chanceler de Henrique VIII o que só por si dá ideia de uma vida de dificuldades e emoções fortes, de que a sua morte (decapitado por decisão do rei) dá testemunha suficiente.

No intervalo entre as duas obras a forma mais comum de eutopia foram os diferentes modelos de paraíso apresentados aos crentes e aos não crentes ao longo de mil e quinhentos anos. São as utopias escapistas como lhes chamou Lewis Mumford, claramente pouco sensibilizado para as vantagens do modelo.

Por vezes, o paraíso estava do outro lado do mundo onde dificilmente se poderia chegar. Durante séculos houve quem defendesse que o Jardim do Éden ficava algures no que hoje é o Médio Oriente. Outras vezes, a única forma de lhe franquear os portões eram conjugando uma vida impoluta com a morte. E, claro, para garantir que todos estavam motivados, havia um destino distópico de excelência, o inferno. A localização do mesmo era ainda menos segura do que a do paraíso, mas o tratamento dispensado a quem lá fosse sempre foi objecto de descrição minuciosa, nas obras religiosas e na arte por elas inspirada. Torturas, penas, castigos terríveis e a companhia dos mais feios demónios para toda a eternidade. Basta ir ao Museu Nacional de Arte Antiga em Lisboa e olhar para o quadro O inferno (de autor ainda anónimo, infelizmente) para ficar com uma ideia.

É fácil perceber o motivo por que os tempos penosos nos levam a sonhar com um mundo melhor, nesta ou noutra vida. O pensamento medieval adiou o mundo justo para depois da morte dos fiéis. Platão e More procuraram perceber como se poderiam criar sociedades felizes (onde os cidadãos vivessem vidas justas e boas) no mundo terreno. Apesar das muitas diferenças entre os seus modelos nenhum deles tinha ilusões sobre a natureza complexa dos seres humanos. Procuravam modelos de sociedade em que os aspectos mais negativos pudessem ser debelados, com o desenvolvimento de projectos baseados numa distribuição justa de proventos por todos, abolição de luxos e dignificação de todos os membros da cidade.

Uma perspectiva muito diferente foi adoptada por Thomas Hobbes na sua descrição do modelo social ideal. A sua obra chama-se apropriadamente Leviatã (nome de um monstro bíblico que surge no Livro de Job).  Sempre me interroguei sobre o tipo de pessoa que seria Hobbes e que tipo de vida teve. Seguramente só alguém muito céptico quanto à condição humana poderia criar a fórmula o homem é o lobo do homem. E, no entanto, é nesta ideia que Hobbes alicerça a construção da sua sociedade ideal, onde o poder omnipresente do Estado é a única forma de conter o egoísmo e outras paixões perniciosas inerentes à natureza humana. O livro foi publicado em 1651, reflectindo o tempo conturbado que se vivia designadamente na Inglaterra natal de Hobbes. O que torna extraordinário numa primeira análise é o facto de ser proposta de forma deliberada a propor a criação de uma sociedade totalitária. O corte cerce e radical da liberdade do ser humano surge, não como um acidente ou um efeito colateral, mas como algo que efectivamente é querido, sendo a trave mestra da organização proposta.

A obra de Hobbes não me gera grande entusiasmo tanto mais que não me revejo no retrato por ele traçado do ser humano. Certo é que ainda hoje serve de modelo, não para sociedades ideais, mas para obras de ficção que ao longo do século XX alertam para os perigos que circundam as sociedades democráticas.

(Jeremy Deller e Fraser Muggeridge, bandeira, Utopia 2016)

(A Parte II, e última, do presente ensaio será publicada no dia 18 de Outubro)

One thought on “Ensaio

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s