No radar

Chicago em Lisboa

por Fernando M*

Sempre quis ver um musical em West End em Londres ou na Broadway em Nova Iorque e nunca se proporcionou? Acha que em Portugal nunca se fará um espectáculo de qualidade internacional, digno de ser visto em qualquer parte do mundo? Tem preconceitos com este género teatral, achando-o menor?

Está então na altura de agarrar a oportunidade, perder os preconceitos e deslocar-se à Sala Carmen Dolores do Teatro da Trindade INATEL, em Lisboa, para assistir a Chicago.

Sexo, adultério, dinheiro, corrupção, homicídios, fama, sensacionalismo, escândalo é disto que trata Chicago… ao som do Jazz!

O argumento é conhecido.

Chicago, 1928. Roxie Hart, uma corista que está dona de casa, mata o seu amante após este querer pôr termo à relação. Encarcerada, a aguardar julgamento, Roxie encontra na prisão Velma Kelly – estrela de vaudeville e notória homicida – com quem vai disputar a atenção dos tablóides sequiosos de sangue e luxúria, bem como do hábil advogado Billy Flynn, célebre por ilibar o maior dos criminosos.

A batalha em dois actos é um frenesim mediático de duas mulheres, que culpadas, pugnam pela sua absolvição, mas principalmente pela oportunidade de estar nas luzes da ribalta.

A produção original, coreografada por Bob Fosse, estreou-se na Broadway em 1975. Em 2002 o grande ecrã recebeu a adaptação cinematográfica dirigida por Rob Marshall, que foi laureada com seis Óscares, entre os quais o de melhor filme e o de melhor actriz secundária para Catherine Zeta-Jones.

Em 2019 Diogo Infante traz Chicago a Lisboa, ao Trindade.

Não se trata de uma montagem de uma versão internacional, mas a adaptação do encenador do clássico americano para o palco do teatro que dirige. A escolha arrojada tem-se revelado certeira, sendo visível nas enormes filas de espectadores que tem acorrido para ver o talento nacional a superar-se em duas horas de um brilhante espectáculo. Não estou a exagerar!

Se Avenida Q – que igualmente estreou no Trindade e foi co-produzida pela Força de Produção – se revelou um enorme sucesso de público e crítica, derivado de uma adaptação irrepreensível, um elenco sagaz e entrosado, a verdade é que Chicago não lhe fica atrás.

As traduções do texto de Ana Sampaio ou das canções da autoria de Rui Melo parecem feitas à medida, como se de um original português fosse. “All that jazz” facilmente transforma-se em “Ao som do Jazz” e Chicago fica mais perto de nós.

A direcção musical é da responsabilidade de Artur Guimarães que, em cena conjuntamente com outros cinco músicos, serve de mestre-de-cerimónias ao espectador, assumindo o difícil encargo de tocar ao vivo ao longo de duas horas, mantendo um ritmo frenético e emocionante.

A cenografia é simples, mas adequada; sendo os figurinos de José António Tenente dignos de nota pela sua execução primorosa.

Rita Spider ficou encarregue da coreografia e demostrou à saciedade a razão pela qual é reconhecida como uma das mais talentosas dançarinas e coreógrafas portuguesas. Desde o desenho coreográfico do número inicial, que marca o tom do espectáculo, passando pela icónica cena da apresentação das mulheres encarceradas até aos momentos finais, tudo é grandioso e tonitruante!

A esta altura deve estar a pensar…e o elenco? Será que não há uma palavra para o elenco?

Gabriela Barros, Soraia Tavares, Miguel Raposo, José Raposo, Catarina Guerreiro, Ana Cloe, Carlota Carreira, Catarina Alves, Filipa Peraltinha, Leonor Rolla, Mariana da Silva, Sofia Loureiro, David Bernardino, Gonçalo Cabral, João Lopes, JP Costa, Pedro Gomes e Ricardo Lima são estes os nomes dos muito talentosos portugueses que enchem o palco do Trindade.

Diogo Infante é um mestre a formar equipas e o elenco deste espectáculo não é excepção. As protagonistas Gabriela Barros e Soraia Tavares assumem, respectivamente, os papéis de Roxie e Velma, bem como a dianteira da cena agarrando o espectador logo no primeiro contacto.

Há que destacar meritoriamente o número de abertura encabeçado por uma portentosa Soraia/Velma, que mostra que veio para ficar na cena artística nacional. Os seus dotes canoros ficaram expostos recentemente quando ganhou um programa de imitações na TV, mas garanto-lhes que ao vivo ficará surpreendido e impressionado com a sua capacidade como cantora, dançarina e actriz.

Cada uma, a seu jeito, lidera o espectáculo, embora a presença mais preponderante seja necessariamente, por razões narrativas, a de Gabriela Barros a quem cabe a difícil tarefa de representar todas as intenções e inflexões de uma destemperada Roxie Hart. Gabriela é uma actriz versátil, que veste na perfeição as imperfeições da sua personagem. Mais actriz e cantora que dançarina, Gabriela Barros mostra-se ao nível do desafio que lhe foi lançado, superando-o a cada cena.

Catarina Guerreiro e Ana Cloe assumem correctamente os papéis da carcereira Mama Morton e da jornalista sensacionalista Mary Sunshine, destacando-se nos números musicais que protagonizam respectivamente.

Miguel Raposo é um irrepreensível Billy Flynn, que com merecimento ganha nos palcos nacionais a visibilidade de que o seu talento é credor. Impecável nos números musicais, mas principalmente uma brilhante contracena na batalha entre as protagonistas. Exala ironia, sentido de humor e a malandragem típica de um advogado na corrupta Chicago dos anos vinte.

O pequeno papel do marido traído e acabrunhado – Amos Hart – cabe a José Raposo. A escolha do encenador não poderia ter sido mais exacta. É público e notório o seu talento multifacetado. Seja revista, drama, comédia ou musical José Raposo toca todos os instrumentos com uma naturalidade espantosa. Respira teatro por todos os poros, conhece os tempos, o valor das pausas e dos silêncios. Faz do espectador seu cúmplice e de um pequeno papel um enorme personagem.

O texto vai longo!

Acho que disse muito. Espero ter dito o suficiente para que numa noite ou tarde destas saia de casa, largue o sofá e vá até Chicago…ao som do jazz!


CHICAGO
Teatro da Trindade INATEL

Sala Carmen Dolores
até 29 de Dezembro


* Sobre Fernando M:
“Sou dos livros, dos filmes, do Teatro, da mesa e das esplanadas nos dias de Sol”.

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