Sociedade

Atrevimento inconveniente

por Luís Nascimento

Nas últimas semanas verificaram-se uma série de episódios sintomáticos que ilustram a incapacidade generalizada das sociedades contemporâneas de lidar de forma concreta com o seu maior desafio actual – as alterações climáticas. O tema é, com efeito, tão extenso, profundo e tem implicações tão significativas na forma como a maioria de nós vive que consegue simultaneamente assustar-nos de mais e não nos assustar o suficiente. A paralisia colectiva que nos impede de adoptar comportamentos de consumo, ou de gerar alternativas políticas conducentes à contenção dos mais do que certos efeitos ambientais catastróficos causados pela a actividade humana, intersecciona-se com a minimização ou normalização destes. Para os negacionistas e os apologistas, esta actividade humana tanto pode ser completamente separada do meio ambiente em que se insere, ao ponto de não se poder falar em causalidade, como ser tão salvífica que, por puro génio e engenho, conseguirá produzir uma milagrosa saída tecnológica para a crise ambiental, saída esta que, de forma fortuita e conveniente, nos ilibará de irritantes mudanças nos nossos padrões comportamentais.

Apesar de os pontos de análise sobre a questão da emergência climática e da forma como é apreendida serem múltiplos – passando, entre outras coisas, pela súbita e tardia elevação do ambiente na retórica política eleitoral e o interesse mediático, por vezes caricatural, que determinados partidos focados na natureza têm captado em Portugal -, decidi concentrar-me em dois em particular: a reacção ao discurso de Greta Thunberg na Cimeira de Acção Climática, convocada pelas Nações Unidas, e o acolhimento público da decisão da Universidade de Coimbra de deixar de servir carne de vaca nas suas cantinas a partir de 2020.

Ambos são pertinentes por motivos diferentes, mas impreterivelmente relacionados se pretendermos responder de forma séria, e consequentemente holística, à ameaça ambiental. O primeiro opera ao nível das mais altas elites políticas mundiais a quem se exige que já tivessem encontrado pacotes de políticas públicas consentâneas com o sentido de urgência exprimido pela comunidade científica. O segundo, por outro lado, ilustra a dificuldade, atrito e reticência com que são recebidas medidas que tentem mitigar, ainda que de forma parcialmente simbólica, a nossa pegada ambiental, ou, dito de outra forma, o choque que a transição da discussão abstracta para a implementação concreta em nós provoca se isso significar um desvio na forma como as coisas até agora têm sido feitas.

O discurso da sueca de 16 anos rapidamente se tornou viral, recolhendo tanto elogios como escárnio por parte de diferentes sectores. Os elogios essencialmente celebram a franqueza e brutalidade com que apresentou a mensagem e a entrega da activista à causa. Os detractores dividem-se em três géneros: os que criticam a forma, os que questionam o conteúdo e os que colocam em causa a forma e o conteúdo.

Os primeiros preocupam-se em escalpelizar o estilo da mensagem, apontando para o alegado excessivo dramatismo com que foi emitida, a acentuação desrespeitosa com que se se dirigiu à audiência composta por líderes mundiais não habituados a que se lhes fale naquele tom de voz, ou em personalizar a discussão insistindo em polemizar quão sincera ou coerente é a emissora e todas as outras actividades que deveria estar a fazer com aquela idade que não implicassem ferir a delicada sensibilidade das elites políticas globais. Nesse sentido, as críticas não são muito diferentes das que recebeu Rutger Bregman quando – nos aconchegantes retiros e chalés de ski de Davos – se atreveu em expor a natureza vápida do discurso e discussão dos líderes económicos e políticos sobre economias mais participativas que excluía praticamente a questão da taxação e os esquemas de evasão aos impostos por parte dos mais ricos. As verdades por mais inconvenientes que sejam devem ser servidas de forma palatável em cenários polidos ou, se possível, totalmente ignoradas para não comprometer a degustação do evento.

A idade de Greta Thunberg parece, para alguns, ser um factor de exclusão da sua legítima participação na discussão sobre o maior problema com que a humanidade se depara neste momento. A mesma estratégia foi, de resto, também utilizada na desvalorização do movimento de protesto March of Our Lives em que estudantes, no seguimento de mais um tiroteio numa escola americana, se manifestaram pela implementação de legislação que controlasse o acesso a armas de fogo nos EUA. Pessoas que acham, de forma não irónica, que o problema dos tiroteios nas escolas americanas se resolve com professores com coldres, tentaram ridicularizar a participação de jovens estudantes na procura de soluções para uma crise existencial que os afecta. Também neste caso, indivíduos que negam que as alterações climáticas estejam ligadas à actividade humana tentam satirizar a personagem da activista sueca, em parte por falta de sofisticação, mas também por estarem perfeitamente cientes que cada momento passado a discutir os maneirismos e o estilo de Greta é mais um instante em que não se está a falar das mudanças políticas e sociais substanciais necessárias para termos uma hipótese de nos prepararmos para as imensas incertezas ambientais com que nos deparamos e nos depararemos no futuro próximo.

O segundo género que critica o conteúdo da mensagem ouvida na cimeira da ONU, ainda assim admitindo que existe uma ameaça ambiental, centra-se na imensidão e aparente impossibilidade da tarefa pela frente. Para estes a única coisa certa não parece ser que temos de mudar, mas sim que a hecatombe é, em si, inevitável. Oscilam – e em grande parte oscilamos todos – entre o realismo apocalíptico, em que é inconcebível sequer imaginar uma alternativa ao sistema produtivo e de consumo actual, e a escatologia mágica em que a recusa em abandonar esses comportamentos e formas de vida ambientalmente insustentáveis no fundo, como que por prestidigitação, não terá consequências tão cataclísmicas como as anunciadas. Há muito que se sabe que já passámos a fase voluntarista e que estamos agora na fase de mobilização a partir do topo. Os desafios ambientais que enfrentamos já não se situam apenas na adopção de comportamentos individuais. Por um lado, eles não são suficientes para amenizar as consequências previsíveis. Por outro lado, por termos, como indivíduos, demonstrado uma inabilidade em fazê-lo. As respostas têm de ser e devem ser encontradas ao nível estatal – o único nível com dimensão institucional e legitimidade democrática para implementar as políticas públicas necessárias. Se não os Estados quem e se não agora quando?

Os que acreditam que o consumidor só por si será capaz de tomar decisões racionais que tenham em conta os corolários ambientais, ignoram, propositadamente ou por simples desconhecimento, que a maioria do consumo é feito não de acordo com critérios objectivos mas emocionais, exemplificado pela dimensão da indústria do marketing e da publicidade que se dedica a levar os consumidores a comprar aquilo que não precisam verdadeiramente. O que é absolutamente imprescindível requer orçamentos promocionais diminutos ou mesmo inexistentes. Como tal, qualquer abordagem consistente terá de passar também por pressões colocadas sobre os produtores, através de medidas de regulação do mercado na área dos transportes, da agricultura e da produção em geral que ponderem o peso das externalidades ambientais no preço dos bens em circulação e de uma mais agressiva taxação destes. Hoje a actividade económica consegue em grande parte dar-se ao luxo de ignorar essas considerações por saber que o peso ambiental das suas práticas irá, em grande medida, ser absorvido pelo Estado, permitindo-lhe privatizar o lucro e socializar os custos. E se para um consumidor é praticamente impossível analisar o impacte ambiental de toda e cada decisão de consumo que faz, já para um produtor é perfeitamente razoável e recomendável que conheça o ciclo de vida dos produtos que coloca no mercado de forma a alinhá-los com exigências de sustentabilidade determinadas por legislação presente e futura.

O terceiro tipo que se opõe ao conteúdo e forma do discurso de Greta Thunberg alega que não a devemos ouvir pelas razões já descritas, mas também porque não é uma autoridade sobre o assunto – apenas um adereço mediático de captura de atenção. Muitos são os mesmos que depois também descartam as autoridades científicas sobre o assunto que de forma esmagadora reportam que o ponto não regresso está prestes a ser atingido.

Em Portugal fez algum furor a decisão do reitor da Universidade de Coimbra de retirar a proteína bovina dos menus das suas cantinas dada a grande pegada ambiental que o seu consumo provoca. Note-se que não se está a falar da total eliminação da proteína animal, mas tão somente deixar de servir carne de vaca em cantinas de uma universidade pública. Mais uma vez levantam-se as vozes indignadas de sempre que nem às instituições públicas admitem que façam pedagogia alimentar e ambiental, mesmo que esta não vá tão longe e não seja tão global como outros desejariam. E dado que de culinária estamos a falar, não deixou de ser saboroso ver certas correntes ideológicas que há oito anos acusavam os portugueses de comerem bifes a mais e de isso ter contribuído para o descalabro do país que, em última análise, teria levado ao resgate financeiro, contorcerem-se agora de forma a manifestar a sua profunda preocupação com o facto de os portugueses que estudam na Universidade de Coimbra não poderem comer bifes suficientes.

Outra linha de objecção tem em conta as consequências económicas para o sector da pecuária, e de forma mais abrangente, para os vários sectores que seriam afectados caso fossem implementadas medidas ambientais draconianas. Recentemente o Comité Nacional do Partido Democrático manifestou reticências em permitir um debate entre os candidatos às primárias para as presidenciais americanas centrado exclusivamente no ambiente por ser monotemático e por poder privilegiar um pretendente que fez das alterações climáticas a base do seu programa político. Quem defendia o formato sublinhava, e com razão, que o ambiente ou deve ser considerado interseccional ou, se o considerarmos apenas um tema, é o tema onde todos os outros cabem e devem ser enquadrados. A economia existe dentro do ambiente e não fora dele. Assim, não faz qualquer sentido utilizar as consequências económicas de pacotes de políticas públicas que minimizem os efeitos das alterações climáticas como arma de arremesso dado que se não as implementarmos os resultados para todos os sectores da actividade humana, onde se inclui  a economia, serão a todos os níveis catastróficos.

Mark Fisher fala-nos no seu livro Capitalist Realism: Is There No Alternative de hedonismo depressivo. “A depressão é usualmente caracterizada como um estado de anedonia, mas a condição a que me refiro é constituída não por uma inabilidade de sentir prazer mas mais pela inabilidade de fazer outra coisa excepto perseguir o prazer” (pp. 20-21, 2009, tradução nossa). É esta impossibilidade de nos negarmos algo, de sacrificarmos a gratificação instantânea em troca de horizontes normativos, conservacionistas ou mesmo existenciais, que nos impede de agir de forma consequente, preferindo antes dançar alegre e despreocupadamente para o precipício, parando apenas e de vez em quando para discutir a qualidade da música ou quão absurda terá sido a actuação da jovem cantora, do que mencionar a queda iminente.

(Protestos realizados no passado dia 27.09.2019, Lisboa, ©António Pedro Santos)

Obras citadas:

Fisher, M., 2009. Capitalist Realism: Is There No Alternative?, John Hunt Publishing.

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