A palavra dos Outros

A Arte em Nureyev

por Raquel Véstia*

Escrever sobre a arte, é uma tarefa árdua, assim como encontrar na narrativa das palavras, a densidade dramática, de um ator em palco, a liberdade e magia nos versos, que traduzem a “poesia de um corpo em movimento” ou o amor e a entrega de quem, reuniu em si mesmo, todas as formas de arte, desde a música, dança, pintura, escultura e o sublime teatro de toda uma vida.

A sua arte é indizível, tem de ser vivida, sentida e apropriada, mais do que um olhar de simples admiração e contemplação. Ela é a projeção, de um mundo além de nós, da transcendência e do absoluto, não traduzível na simplicidade das palavras.

Revelar um ser, como o Bailarino Nureyev, é fazer um esforço em vão, atrás da “dança da vida” de quem conseguiu conter, toda a emoção estética do movimento e da arte, num reportório onde entravam, várias danças, interpretações e performances avant-garde, sem limites.

A arte foi também a sua forma de amor, emoção e plenitude artística. Nureyev conseguiu encontrar na expressão artística a “invocação do corpo” fazendo um apelo à evocação da vida.

O seu “salto de liberdade” não representou, apenas o maior salto de dança, de todos os tempos, contrariando a lei da gravidade (depois do bailarino Vaslav Nijinski) mas também de libertação das amarras do Comunismo, das convenções do ballet clássico, dos estereótipos de género na dança e de uma infância infeliz, de absoluta pobreza.

(Nureyev, por Richard Avedon, Paris , 1961)

Foi o bailarino mais enigmático e hipnótico do Séc. XX e do Século XXI. Destacou-se como exímio coreógrafo, designer, produtor e diretor da Ópera Nacional de Paris. Nureyev, foi acima de tudo, um intérprete e mestre das artes cénicas!

A música dominava a sua vida, tocava ao piano, obras de Bach, Mozart, entre outros clássicos. Bebia todas as formas de arte, que o revalorizassem como bailarino, era um amante do teatro e da interpretação cénica.

Nos ensaios, era recorrente fazer inúmeras paragens, quando considerava que o som de algum instrumento, não acompanhava na íntegra o “som do movimento” da dança.

O seu rigor, vinha da sua experiência musical, da Escola de Ballet Russo, que se complementava por sua vez com outras artes cénicas clássicas (teatro e música) .

Percorreu os maiores palcos do mundo (tirando o Convent Garden que considerava um “pequeno café”) dançou, nas maiores companhias, interpretou, mais de 90 papéis de dança e chegou a fazer mais de 250 performances por ano, elegendo, apenas três ou quatro, que iam de encontro às suas expetativas.

Mikhail Baryshnikov, podia ser mais ágil, Peter Martins, mais fluido, Fernando Bujones, podia ter melhores pés, mas só Nureyev conquistava a multidão!

Temos que atender, não à forma como dançava, mas às suas motivações e à razão pela qual dançava. Não era apenas a sua beleza, singularidade e técnica, mas sobretudo o seu poder de superação, para além das suas fraquezas e adversidades, que constituíam a verdadeira força motriz do seu movimento na dança.

A vontade de Nureyev, sempre o superou, a sua força em busca da liberdade e do sonho, fez dele um talento invulgar, o denominado “Corvo Branco” que voava pelos palcos do mundo, longe do maniqueísmo dos lugares comuns.

Nureyev, foi um misto entre técnica/ inspiração; clássico/pop-art;   individualidade e comunhão do que acreditamos na humanidade, pela dimensão da sua arte e criatividade.

A sua arte, não viveu na sombra, mas sobreviveu cheia de emoção e cor. Era usual o bailarino, dar cores, a cada um dos seus movimentos. Por exemplo, a cor rosa, podia estar associada ao plié, ou um azul ao jeté, ou o tendu, que podia ser um verde, entre tantas outras cores, no domínio da imaginação e que correspondiam, à projeção da sua plenitude artística, cheia de vibração, erotismo, muito além do corpo e da mente, tão alto que por vezes a razão não compreende.

Nureyev conseguia expressar um estado de alma, o estremecimento dos sentidos corporais, o fulgor ou o ritmo constante da magia, do mundo etéreo e da liberdade, vivendo entre a imaginação e a realidade, numa dança inefável, que ia muito além dos sentidos, do efémero, atingindo o transcende, o universal e intemporal.

Afirmava sem pudores, a sua grandeza e genialidade: “Toda a gente quer ser a maior do mundo, mas Deus não pode dar essa honra a todos”.

Ao observar, a pintura de Vénus e Marte, de Carlo Saraceni, gostava de se comparar, a uma escultura apolínea, com a força física e destreza, que dizia não ser descendente do povo russo, mas da sua origem tártara.

Descrever a sua arte, é como descrever um astro como o sol, para quem nunca o viu, ou uma música de Bach (que também tocava de forma exímia) para quem nunca a ouviu, ou uma peça teatral, para quem nunca foi ao teatro ou sentiu o clamor da interpretação, ou mesmo uma entidade transcendental, para quem não crê.

A sua arte, faz parte do domínio da contemplação e da admiração, de um grande “astro” ou “Deus da Dança” que é preciso ver e sentir as palavras no seu movimento, visto que sempre falou através da dança, para finalmente, conseguir acreditar, ou até duvidar da sua existência humana!

Dizia ser um príncipe nos palcos, mas na verdade, a sua infância foi marcada pela privação e pobreza extrema.

Num pequeno extracto retirado das suas memórias, afirmava:

A minha mãe, disse-me que as árvores, mesmo as mais altas, que quase nenhum homem podia alcançar, estavam despidas, porque as pessoas cozinhavam e comiam a sua casca”.

É curioso pensar que as suas sapatilhas de ballet (que colocava sempre de forma alinhada, da mais leve, até à de maior dureza, expressão do seu perfeccionismo extremo) a que John Dryden denominou a “poesia da sapatilha de ballet” e chegaram a atingir mais de 9 milhões de dólares, num leilão da Christie”s em Nova York, pertenciam a menino, cujo nascimento foi marcado pelo infortúnio e drama e que até aos 5 anos nunca teve uns sapatos!

Nureyev nasceu em 1938, num comboio transiberiano, ainda em movimento, em condições de insalubridade, em parte quase incerta. Afirmava em tom romântico:

Nascer sem paradeiro, e em movimento, fez-me querer procurar o movimento toda a vida. Foram as minhas pernas, que me fizeram chegar, onde estou, aos palcos de todo o mundo, não preciso de país”.

Os seus pais eram refugiados tártaros (mongóis de origem muçulmana) que viviam na Rússia, na cidade de Ufa, vendendo tudo em troca de comida. Na escola “Rudik” (como era apelidado) foi das crianças mais pobres, frequentemente chamado de “pedinte andrajoso” ficava horas sem comer. Nureyev, chamou ao seu período de infância, “período da batata” visto ser, o único alimento, para 6 pessoas e um cão.

No livro de Julie Kavanagh intitulado “Nureyev: The Life” a autora retrata a sua vida e personalidade, assim como o conflito familiar, entre o bailarino e um pai autoritário, estalinista que não queria que seguisse a dança. Apesar das adversidades, entrou com 17 anos (embora um pouco mais tarde que os outros jovens) para o Ballet de Leninegrado e três anos mais tarde, para o Ballet russo de Kirov onde deixou marcas para sempre, pela sua destreza, rigor, mestria, intransigência e genialidade

Como bailarino e coreógrafo, sempre procurou desafiar os estereótipos e convenções do ballet clássico masculino. Criou uma nova versão de bailados, como a Bela Adormecida, Lago dos Cisnes, Romeu e Julieta entre outros, em que é revalorizado o papel masculino, e do homem como solista, criando variações, que contrabalançavam com a posição das bailarinas.

Ao fazer um estudo profundo do ballet clássico e de coreógrafos como Marius Petipa e Lev Ivanov, dá às suas coreografias, um novo olhar vanguardista e psicanalítico, criando uma nova narrativa para as personagens, com variações, que exploravam os  impulsos e tensões entre elas, através de uma nova densidade dramática.

A sua androginia, também espelhada na dança, fez com que fizesse o culto da feminilidade, exotismo e da extravagância, abrindo o caminho para a cultura pop, inspirando mais tarde, Mick Jagger, entre outras estrelas de rock dos anos 60.

Fez um espetáculo em Lisboa em 1968 e posteriormente em 1991, com Margot Fonteyn.

A presença arrebatadora, da dupla mais romântica da história do ballet, também descrita no filme “The perfect Partership: Fonteyn and Nureyev” incendiou o palco e contagiou multidões em todo o mundo.

Se pensarmos em autores russos como Dostoievski, Tolstoi, Tchechov, entre outros (que ele admirava profundamente), também eles souberam escrever e ler a narrativa da humanidade.

Nureyev, em contrapartida, conseguiu expressar através da dança e do movimento a “interpretação criativa” de todo o drama e das alegrias da sua própria existência, refletindo toda a humanidade, através da narrativa e dramaturgia da dança.

Dançar, é também uma forma de dramatismo do corpo, é teatro puro, mesmo em silêncio, como se os movimentos falassem, por nós. Representa o estremecimento dos sentidos corporais, o fulgor da vida, a paixão, alegria e tristeza, na realidade e no sonho, como se nos confrontássemos com a estranha aparição do nosso “eu” perante nós próprios.

Na verdade, Nureyev conseguiu dominar a plateia mesmo em silêncio, numa química contagiante. O seu corpo meticulosamente delineado, onde os músculos se ajustavam na perfeição, todos os movimentos eram precisos, bem orquestrados, intensos e vivos, onde vivia a inspiração, a transcendência e a revelação.

A arte, é também a superação, chegar aos nossos limites e Nureyev conseguia ser um predador, um leão versátil afirmando “ Cada passo que damos, deve ser feito, com sangue” atingindo os nossos limites e superando-os.

O filme de 2018 “The White Crow” é uma biopic de Nureyev do realizador R. Fiennes, que tem uma longa carreira como ator e é escrito por D. Hare. O filme chegou este ano, às salas de cinema e é por isso um primeiro convite, para conhecer melhor este mito sagrado da dança, embora de uma forma muito singela, retirando um pouco, a densidade dramática a Nureyev, e ao seu passado marcante.

O filme, peca por não analisar e explorar, o seu tumulto interior, o estudo profundo do ballet e das artes do espetáculo, assim como a relação com a sua mãe, que só chegou a ir visitar à Rússia, muito poucas vezes, até à sua morte.

Nos bastidores, sabia-se que chorava quase sempre, após um espetáculo, por saber, que a mãe, nunca o poderia ir ver atuar, nem aplaudir.

Para além da emoção em palco, que é explorada no filme, havia sempre um rasgo de tristeza, de um super-homem em palco e ao mesmo tempo de uma criança, que se afastou da mãe demasiado cedo.

O filme, concentra-se sobretudo, no período em que pede asilo político em França, em 1961, abandonando a companhia de ballet Kirov, o que é visto como um ato político de um dissidente e traidor do regime comunista.

A sua vida representa a fusão entre dois polos em contraste, o de besta/ anjo; sagrado/profano; feminino/masculino; triunfo/tragédia; vida/morte; vulnerabilidade/ delicadeza; harmonia e tempestividade.

Morreu em 1993, vítima de sida, continuando sempre trabalhar até 1991. Sabe-se que nunca falava da doença, porque o que marca a sua existência é de uma vida repleta de vida!

A arte é também uma forma de salvação e redenção, e ele soube como ninguém tão bem, salvar-se pela arte! A sua dança continua viva, porque afirmou, conseguir viver eternamente, desde que as suas performances e espectáculos, continuassem a ser dançados. Eles continuam até hoje, universais e intemporais!


Raquel Véstia nas suas palavras:
Sou jurista de profissão. Amante das causas sociais, da liberdade e justiça, por convicção. Apaixonada por arte, música e literatura, só pela emoção. Acho que a maior arte, é sermos nós mesmos/mesmas! Acredito na paz e na não-violência por convicção, paixão e emoção e em tudo, o que dá humanidade à humanidade, só não me tirem, a minha xícara matinal, de café moído! No fundo, sou um ser, quase pessoa, ainda em construção! Um dia sem rir, é um problema dos mais sérios.

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