No radar

por Carla Coelho

Passear por Roma é sinónimo enfrentar multidões. Um museu a céu aberto com uma história milenar do Coliseu aos Museus Capitolinos, da Galeria Borghesi à Fontana di Trevi ou ao Palácio Vítor Emanuel a única coisa difícil em Roma é conseguir uns momentos de exclusividade. Um tête à tête silencioso com uma obra de arte. Difícil, mas não impossível. É que, ao lado das mais evidentes (e justas) escolhas de visita, Roma tem também tesouros escondidos. Muitos, diga-se. Um deles é a Galeria de Arte Moderna, garantia de paz, sossego e um abençoado ar condicionado. O museu fica num edifício amplo e bonito a poucos metros do Museu Nacional de Arte Etrusca e perto da Casa Gramsci. Lá dentro mais de cinco mil peças de arte que vão desde o período neo-clássico até ao momento presente. Manet, Cezanne, Van Gogh e Magritte estão representados. Para mim, o museu reservava pontos de interesse, totalmente inesperados.

O primeiro é um quadro de Vittorio Corcos. Pintado em 1896 é seguramente a obra mais conhecida deste pintor figurinista italiano retratando a filha de uma amiga. Vittorio tornou-se conhecido por pintar numerosos quadros de homens e mulheres em momentos de descontracção e lazer. Este quadro foi usado como capa para o livro “As mulheres que lêem são perigosas” de Stefan Bollmann (editado entre nós pela Quetzal, em 2007). É um quadro grande, pintado em tons discretos e que tem como título Sogni (Sonhos). Porventura as pessoas que sonham são ainda mais perigosas do que as que lêem. Sobretudo se se decidem a viver de acordo com os seus sonhos.

Outra peça marcante é La liberte Raisonnée da artista espanhola Cristina Lucas. Um dos aspectos mais bem conseguidos do museu é a forma como as obras de arte dialogam entre si. É uma técnica comum mas nem sempre com resultados felizes. Aqui, porém, não é assim. A obra de Cristina Lucas surge numa sala ampla onde estão quadros novecentistas retratando batalhas. O inferno das trincheiras ganha vida à nossa frente. O trabalho de Lucas é uma encenação em vídeo projectada numa parede branca reencena o célebre A liberdade conduzindo o povo do francês Eugéne Delacroix. A artista espanhola subverte o retrato do pintor romântico francês e mostra o que sucede à liberdade quando termina o momento de triunfo revolucionário. É uma peça comovente que nos deixa a pensar sobre o destino da liberdade nos nossos dias.

Para além disso, o museu permite conhecer o percurso da arte italiana do século XIX em diante. Antonietta Rafael Mafai, Michelangelo Pistoletto e Giorgio de Chirico são apenas alguns dos nomes cujas obras valem bem a deslocação ao museu.

E concluída a visita descemos à Piazza del Popolo com renovado entusiasmo pelas multidões.

(Cristina Lucas, La liberté raisonnée (2009), Video HD, 4min 29 sec)


Galleria Nazionale d’Arte Moderna e Contemporanea
Viale delle Belle Arti, 131, 00197 Roma RM, Italy
3.ª a Domingo das 8.30 h. às 19.30 h.



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