No radar

La Forza del Destino no TNSC

por João Pedro Baptista

Num país em que a representação da arte lírica atravessa, há longos anos, uma crise profunda, a divulgação da temporada de ópera do Teatro Nacional de São Carlos constitui sempre um momento de grande expectativa para todos os melómanos. Mas é uma expectativa que oscila entre a esperança de ver finalmente uma temporada digna desse nome, quer pela escolha das óperas a levar à cena, como pelo número de récitas a apresentar e pela qualidade dos intérpretes, e a apreensão de que se repita o confrangedor panorama que tem caracterizado os anos (senão décadas) mais recentes, em que o número anual de récitas era de tal modo escasso e a qualidade dos intérpretes tão sofrível, que nem se podia falar em temporada, ao menos sem corar de vergonha. Se recordarmos o sinuoso e incompreensível percurso que a própria vertente institucional do nosso único teatro nacional de ópera tem trilhado desde há muito tempo e se atentarmos no quanto a Cultura pesa na balança das escolhas da generalidade dos decisores políticos portugueses – em especial uma forma artística comummente apodada de elitista, como é a ópera –, percebemos como o coração do amante da arte lírica treme nestes momentos.

Não é este, todavia, o espaço adequado para desenvolver o tema. As considerações que antecedem não passam de um desabafo e é tempo de avançar para aquele que é o propósito desta breve nota.

A divulgação da nova temporada servirá agora de pretexto para convidar os nossos leitores a descobrir ou a redescobrir pelo menos uma das obras que serão levadas à cena.

Infelizmente, nem todas as óperas a apresentar serão encenadas, o que priva tais espectáculos de uma das suas componentes fundamentais. Dessa forma, a minha sugestão será feita de entre uma das que serão apresentadas como uma verdadeira e completa récita de ópera.

Giuseppe Verdi é um nome indissociável da Ópera enquanto género e a sua presença em qualquer temporada digna desse nome é incontornável.

A presente temporada abrirá com La Forza del Destino, que será levada a cena em cinco récitas no TNSC durante o mês de Outubro, rumando depois ao Coliseu do Porto, onde será apresentada uma única vez. Creio que será um dos pontos altos desta temporada e, por isso, é sobre ela que aqui incidirá a minha atenção.

Trata-se de uma produção conjunta do Theater Bonn e da Welsh National Opera e que mereceu uma boa recepção aquando da sua estreia. A direcção musical estará a cargo do maestro romano Antonio Pirolli e contará com as interpretações de Miklós Sebestyén como Marquês de Calatrava, Julianna Di Giacomo e Cristiana Oliveira alternando no papel de Leonora, o Don Carlo di Vargas viverá na voz de Damiano Salerno, alternando o papel de Don Alvaro entre Kristian Benedikt e Paulo Ferreira. A produção contará ainda com as vozes seguras e conhecidas dos portugueses de Cátia Moreso, Luís Rodrigues, João Merino e Carlos Guilherme. A encenação estará a cargo do britânico David Pountney, que nos promete uma leitura inovadora, mas fiel ao espírito e à temática explícita da obra.

Estreada na Rússia em 1862, La Forza del Destino foi considerada pelo próprio Verdi como a sua primeira ópera assente em ideias e não apenas na justaposição de números, isto é, de árias, números de conjunto e concertantes. Marcada pela tríade culpa, expiação e destino, a obra extrai sua força motriz da polaridade entre dois mundos opostos de sentimentos que possuem os personagens principais até o ponto de obsessão: de um lado a culpa pela morte acidental do pai que martiriza Leonora e o seu amante Álvaro; de outro lado, a sede de vingança que leva o irmão de Leonora, Carlo, a persegui-los até os confins da terra. Ao longo das três horas da obra assistimos a um conjunto de encontros e desencontros com que a tragédia tecerá a sua trama, em que a guerra e a religião marcam uma sociedade em visível dissolução e onde a violência se sobrepõe a qualquer sentido de moralidade, num quadro musical de grande beleza e dramatismo.

Para terminar, deixo a recomendação de uma gravação discográfica disponível no mercado e que permitirá, a quem quiser fazer uma preparação mais completa para a ida à ópera, obter uma maior familiaridade com a obra, assim potenciando a sua fruição aquando do espectáculo ao vivo.

De entre a pletórica discografia da obra e ponderando a sua disponibilidade e qualidade técnica, sugeriria a gravação dirigida por Riccardo Muti em 1986, à frente da Orquestra e Coro do Teatro Alla Scala de Milão e com um elenco de luxo, nas vozes de Plácido Domingo, Mirella Freni, Giorgio Zancanaro, Paul Plishka e Sesto Bruscantini. A edição é da EMI, actual Warner Classics. Esta gravação, todavia, não disponibiliza o libretto integral, mas apenas uma sinopse. Para quem preferir uma gravação com imagem, deixo a sugestão de uma magnífica gravação dirigida por Asher Fisch e que preserva récitas ocorridas na famosíssima Staastoper de Munique e que conta no elenco com o incomparável Jonas Kaufmann e a Leonora superlativa de Anja Harteros.

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