Ficções

O iniciado (I)

por Adriana Calado

Nunca me foi pedido silêncio, é certo. Mas o meu bom senso fez-me desde sempre sentir que devia exercer alguma discrição quanto ao que vi e ouvi. Foi isso que fiz. Mas agora, passados tantos anos, creio ter chegado a hora de deixar notícia do episódio em que me vi envolvido. Ainda que tenha consciência de que muito poucos entenderão e ainda menos acreditarão que estas linhas são mais do que o fruto da imaginação de um homem idoso.

Conheci Germano Brás numa palestra sobre o Livros dos Mortos do Antigo Egipto. Trocámos um sorriso irónico e comprometido quando o orador começou a falar da existência de seres extraterrestres que tinham estado no planeta há milénios atrás, ajudando os egípcios e os maias, a construírem pirâmides. No final da palestra, começámos a conversar e terminámos a noite numa pizzaria turca, trocando ideias sobre o que tínhamos ouvido. Germano Brás era um espírito cartesiano. Morava perto do Chiado numa casa despojada recheada de livros esotéricos.

Era, digo-o sem hesitação, um ser superior. A sua vida externa, visível, era pautada pela discrição. Licenciado em Matemática tinha optado por uma carreira discreta nas Finanças. Percebi, à medida que o nosso convívio se reforçava, que esse facto resultava de Germano estar votado a uma tarefa maior: almejava atingir o conhecimento supremo, secreto, aquele a que apenas os espíritos mais elevados podiam ter acesso. Esse caminho, não era fácil. Aos obstáculos decorrentes de armazenar conhecimentos ocultos somava-se o espírito cartesiano de Germano. Queria compreender, mas duvidava permanentemente. Conheci-o a estudar filosofia esotérica, a acumular cursos de misticismo e palestras sobre astrologia. Mas, como ele próprio me dizia, por vezes orgulhoso, por vezes contrito, não conseguia penetrar no âmago desses conhecimentos. Percebia os factos, não lhe sentia os efeitos. Disse-me uma vez “O mundo, o verdadeiro significado, está oculto por trás de uma pesada cortina de veludo. Sei que o outro lado existe, mas não consigo lá entrar.”

Uma tarde Germano veio ao meu encontro particularmente agitado. Não me disse o que se passava, mas sentia-o inquieto, nervoso e por mais de uma vez vi-o a olhar nervosamente para um e outro lado, como temendo algum ataque. A sua postura estava tão longe da do homem tranquilo que conhecia que acabei por não me conter. Perguntei-lhe o que se passava. Germano respirou fundo. Perguntou-me o que pensava dele, se o julgava equilibrado, racional, lógico. Respondi-lhe que sim, sem reservas.

Era um fim de tarde de um dia de Verão, a cidade não estava deserta mas antes invadida de turistas. Sentamo-nos junto ao Cais das Colunas. Germano relatou-me então o estranho caso em que estava envolvido. Tudo começara, pelo menos na sua recordação, há duas semanas atrás. Vinha de um convívio com amigos no Bairro Alto, descendo a Rua da Atalaia, pelas 3h da manhã. Apercebeu-se que numa das transversais esconsas dessa artéria estava um pequeno alfarrabista em que nunca antes atentara. Surpreendeu-o esse facto e ainda mais admirado ficou quando ao aproximar-se viu que tal loja estava aberta. Era demasiado tentador e Germano nem se deu ao trabalho de tentar resistir. Entrou, chamando pelo dono, empregado, o que fosse!

Foi atendido por um homem de idade dos seus setenta anos, pelo menos, com um ar distinto que se lhe apresentou como Antonino Gusmão da Silva, “um criado de V. Ex.ª”. E, ao dizer isto, fez uma ligeira vénia. Germano relatou-me como tiveram uma agradável conversa sobre literatura. Germano, encantado com o inesperado final da noite, acabou por aceitar um chá indiano, proveniente de uma pequena aldeia, Thirunelli, no distrito de Wayanad, como lhe contou o seu simpático interlocutor. Vendo que o olhar guloso do meu amigo se encaminhava uma e outra vez para a estante esotérica, Antonino pegou num pequeníssimo volume, encadernado em couro velho.

Neste momento Germano abriu a sua mochila e mostrou-me o livro. Não tinha título e só na contracapa tinha a indicação do autor.

O meu amigo não era um leitor comum. Não lhe interessavam as novidades e muito menos os bestsellers.  Tinha muitos livros sobre os mais variados temas e era um homem dotado de acentuado sentido de poupança. Folheou o livro cautelosamente, sentiu-lhe o peso e passou a examinar-lhe o índice. Conhecia praticamente todos os nomes que ali encontrou. Buda, Jesus Cristo, Confúcio, Rama, Hermes, Pitágoras. Nomes que conhecia bem. Um ou outro nome não lhe soavam habituais.

Contrapôs ao gentil vendedor: “Não conheço a editora, nem o autor.”

Antonino Gusmão da Silva sorriu-lhe e convidou-o a aproximar-se da sua pequena colecção de plantas vivas que agora dormiam tranquilamente.

“Nem todos aspiramos a ser famosos. Esta editora é uma casa francesa em tempos muito conceituada. Já o autor é um estudioso, conheci-o pessoalmente há muito anos atrás numa conferência. Era sabedor, reflexivo, muito discreto. Por isso, obtinha informações a que muitos, com mais fama, não tiveram acesso.”

As palavras surtiram o efeito desejado. Germano saiu da discreta livraria com o livro debaixo do braço. Chegado a casa, tomou um duche e mergulhou no sono.

Foi só algumas semanas depois, numa noite passada em casa, já agoniado com a sucessão de crimes e análises futebolísticas que passavam no telejornal, que Germano se lembrou do livro. Tirou-o da estante onde o tinha arrumado e começou a folheá-lo. Era curioso nunca ter dado por aquela livraria, passava tantas vezes na zona. A sua recordação daquela noite dizia-lhe que a loja não era nova. Estava limpa, com aquele desarranjo inerente aos estabelecimentos bem fornecidos e indiciador de que ali estava instalada há algum tempo. Estranho, mas enfim, ao olhar habituado muitas novidades passam sem notícia.

Sentou-se na sua poltrona favorita acendendo a luz do candeeiro mais próximo. Mergulhou no índice, decidindo começar pelos iniciados que ainda não conhecia, os tais a que apenas os mais especiais estudiosos tinham acesso, disse a si mesmo, com um sorriso no rosto. Araravey. Ora aí estava um nome que nunca tinha ouvido antes!

A noite tinha já chegado à cidade. Germano sugeriu-me que nos sentássemos num dos cafés que estavam à volta do Terreiro do Paço, para continuarmos a conversa. A interrupção, ainda que por alguns minutos, custou-me. Mas percebi que para além da garganta seca, o meu amigo precisava de recompor os nervos. Ao longo da sua narrativa perdera o ar composto que o caracterizava. A sua tez tinha empalidecido, os olhos estavam brilhantes e, não me tinha escapado, que de vez em quando olhava fortuitamente para trás e para os lados como se temesse ser escutado por ouvidos perigosos. Nada no seu relato me permitia perceber a que se deviam estes sinais. Mas já tinha compreendido que este era apenas o início de uma história. O que não podia imaginar era o quão estranha ela se viria a revelar.

(Continua no próximo número)

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