No radar

A arte sem História

por Carla Coelho

Em Novembro de 2011 vi em Milão uma retrospectiva do trabalho de Artemisia Gentilishi. Tendo vivido no século XVI e crescido numa família ligada à arte, Artemisia ultrapassou em vida a fama do seu pai e impôs-se como autora de centenas de quadros de traço vigoroso preenchido em tons fortes. Depois, caiu no esquecimento durante séculos. Não foi caso único. Angela Kauffman, Elisabeth Vigée Le Brun (pintora dilecta de Maria Antonieta, representada entre nós no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) e no Museu da Música e de quem foram publicadas as Memórias pela Sistema Solar no final do ano passado), Berthe Morisot e Josefa de Óbidos são outros exemplos de artistas cujo sucesso foi seguido de um silêncio e apagamento dos livros de arte, durante décadas. A recuperação vem sendo feito um pouco por todo o mundo. Por cá o MNAA expôs a obra de Josefa de Óbidos numa exposição temporária em 2016. Uma retrospectiva de Berthe Morisot está actualmente no mui respeitável e respeitado Museu de Orsay. E Sarah Affonso, sobre cujo nascimento se cumprem 120 anos, tem direito a duas exposições: uma na Gulbenkian (de 11 de Julho a 7 de Outubro de 2019) e outra no Museu Nacional de Arte Contemporânea (de 12 de Setembro de 2019 a 1 de Maio de 2020).

(Meninas, Sarah Afonso, 1928, MNAC/detalhe em destaque©Arnaldo Soares/ DGPC)
(Mily Possoz, 1888-1968)

A produção artística das mulheres, tantas vezes menorizada, é o tema do livro de Filipa Lowndes Vicente “A arte sem história – Mulheres e cultura artística (séculos XVI – XX)”, publicado pela Athena, Babel, em 2012. Confesso que a obra caiu-me nas mãos mais ou menos por acaso, enquanto andava a fazer book hunting, o único desporto que me atrai. As descobertas inesperadas são com frequência as que nos deixam as melhores recordações. É o caso deste livro, de leitura compulsiva. Bem estruturado e detalhado, está cheio de informação escrita de forma fluída e clara. Torna-se uma leitura entusiasmante, não apenas para quem tenha formação artística, mas para aqueles que, como eu, são curiosos. Num momento em que as mulheres artistas tomam o seu lugar nas colecções mundiais esta é uma obra que nos põe a reflectir sobre os estranhos caminhos (também) da História da Arte.

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