Livros

O Livro Branco – Han Kang

por Pedro Faria

Uma escritora sul-coreana chega ao inverno de Varsóvia para uma residência literária.

Instala-se no apartamento que escolheu e cobre com tinta branca o número da porta, grosseiramente entalhado por um instrumento perfurante, que há de ter sido empunhado por uma mão inábil e negligente.

O apartamento tem agora uma porta branca e para lá dela o espaço desconhecido que a escritora passará, por sua vontade, a ocupar.

“Agora, neste preciso instante, sinto essa vibração vertiginosa a percorrer-me o corpo, o que coincide com o momento em que decido irrefletidamente avançar para um tempo que ainda não vivi, por este livro que não está ainda escrito”.

Han Kang é uma escritora sul-coreana que ganhou visibilidade mundial com “A Vegetariana”, vencedor do Man Booker Internacional Prize, em 2016, um livro cru e brutal que se centra no percurso de uma mulher que, por causa de um sonho, cria uma repugnância inultrapassável em relação à carne de que se vinha alimentando.

O “Livro Branco”, saído em 2016, foi escrito no decurso de uma residência literária em Varsóvia e é assumido como um relato autobiográfico.

A permanência na cidade até então desconhecida, cujos contornos são percorridos como se fosse um volume único e impenetrável, habitada por uma língua desconhecida, conduz à internalização da narradora, que se recolhe nas suas memórias, reais e imaginadas, e se fixa na morte da irmã, primeira filha dos pais, morta duas horas depois de nascer, num tempo anterior ao do seu próprio nascimento.

Dela sabe-se que nasceu inesperadamente, em casa, no início de um inverno coberto de geada. A mãe, sozinha, pedia-lhe, olhando-a, que não morresse. Viveu duas horas.

O livro, que quebra os cânones mais comuns da prosa ficcional, divide-se em três partes: “Eu”, “Ela” e “Toda a Brancura”.

“Eu” situa a voz que se propõe escrever o livro e a sua circunstância particular: “Na primavera, quando decidi escrever sobre coisas brancas, aquilo que primeiro fiz foi uma lista”. Segue-se o rol: faixas de pano, cueiro, sal, neve, gelo, lua, arroz, ondas magnólia, ave branca, sorriso em branco, papel em branco, cão branco, cabelo esbranquiçado e sudário. Rol que relê temendo aonde a levará “esse labor de espreitar o coração das palavras”.

“Ela” é a construção de uma memória para irmã que nunca viu, oferecendo-lhe os seus olhos e a sua visão do branco originário, da geada que rodeava o tempo e o lugar em que nasceu.

A segunda parte é desdobrada em secções breves, por vezes brevíssimas, encimadas pelo objeto ou pela imagem que contém o branco que descreve à irmã, como uma dádiva de luto: cortinas de renda, granizo, pequenos comprimidos brancos…

O branco encerra um vislumbre fugaz do absoluto, é isolado nos detalhes e sublinhada a sua brevidade: o momento em que as ondas rebentam, o gelo que desaparecerá, o sal que uma vez tocado fica maculado, o nevoeiro que se dissipa, as roupas brancas queimadas como oferenda aos espíritos.

Detalhes suspensos numa realidade em movimento, imagens comuns convocadas por uma escrita precisa, minuciosa na exatidão com que descarna as palavras até chegar ao seu sentido essencial, um lirismo depurado, visual, luminoso, mesmo quando refere a ilusão de branco refletida nos objetos entrevistos na escuridão.

A estrutura da escrita é livre, intercalando na prosa frases quebradas que correspondem à forma poética convencional. As fronteiras entre os dois géneros diluem-se sem que se perca o rigor da homogeneidade.

Palavras que abrem caminho como um gume de seda, sem ferir, exatas, que constroem paisagens habitadas por sons e texturas.

Palavras que são elas próprias as iluminuras de um texto que se lê como um Livro de Horas laico, que preenchem a vida da irmã que foi quase sem ser, aquela cuja morte abre o caminho à existência da narradora. Se o pedido da mãe fosse atendido (“Não morras. Por amor de Deus, não morras”), a narradora não existiria (“Se ao menos não tivesses parado de respirar e, por isso, esta vida te tivesse sido dada a ti em vez de a mim, eu nunca teria nascido. Se tivesses seguido em frente com passos firmes, com os teus próprio olhos e o teu corpo, de costas para aquele espelho escuro”).

A terceira parte do livro (“Toda a brancura”) centra-se na possibilidade: como seria se ambas existissem, como seria ter uma irmã mais velha (uma “onni”), partilhar uma existência assente num laço de sangue?

Transmitido o olhar sobre os momentos em que o branco é a homenagem do luto e o abismo de onde toda a realidade (e todas as possibilidades) emergem, o glaciar “ainda não conspurcado pela vida”, a despedida: “Acredito que será impossível encontrar palavras melhores para uma despedida. Não morras. Vive.

Do cueiro branco cosido pela mãe para receber a filha breve, que foi também a mortalha com que foi enterrada, passaram duas horas, a exata duração da vida da irmã, que Han Kang sabe ser como uma planície branca interminável que entrevê na banalidade dos dias.

Um livro sublime para ler, reler, abandonar e retomar ao longo do tempo que ainda falta passar.


Han Kang – O Livro Branco
D. Quixote
(1.ª edição portuguesa: Junho de 2019)

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s