No radar

Solteira e boa rapariga

por Fernando M.*

Vivemos a época dourada das séries! Da Guerra dos Tronos à Casa de Papel, passando por Stranger Things, Chernobyl, The Handmaids Tale ou Big Little Lies muitas são as histórias contadas em temporadas de episódios que viciam o mais duro dos espectadores, prendendo-o à frente do ecrã.

Talvez por uma questão de escala ou de falta de meios, com excepção da RTP, Portugal tem sido avesso ao investimento em séries televisivas ou para as plataformas de conteúdos como o Netflix. E quando ocorre, por regra, são séries dramáticas de cariz histórico. Nada contra!…mas falta novidade, desafio, rasgo quer seja nas histórias que se contam, quer na abordagem formal às mesmas.

Ora, neste Verão, quando menos esperávamos a RTP ousou transmitir, em horário nobre, uma série imperdível.

Da autoria e realização de Vicente Alves do Ó – realizador reconhecido pelos filmes biográficos Florbela e Al BertoSolteira e boa rapariga é um rebuçado em forma de ficção.

A premissa é simples: Carla Maria, tradutora de alemão, solteira há longos anos e traumatizada pelo abandono de um ex de seu nome João, no dia do quadragésimo aniversário recebe da mãe um vale para uma consulta com uma vidente para quebrar o enguiço da solidão.

Nesse mesmo dia, Jaime, o seu melhor amigo, convencido de que o segredo para a felicidade está num bom perfil nas redes sociais inicia-a no Facebook, no Instagram, no Tinder e afins… e a partir daí cada episódio de 25 minutos narra a história do encontro da nossa protagonista com um homem diferente, que conheceu nas redes.

As situações hilariantes repetem-se uma atrás da outra quando a convencional e boa rapariga Carla encontra uma sucessão de homens cheios de (digamos!) particularidades: um personal trainer que se debate com a língua portuguesa; um ventríloquo amador que nada diz a não ser pela voz da sua marioneta; um homem romântico que a enche de presentes, mas não é capaz de dizer um palavrão; um homem que marca jantares, mas nunca aparece; um médico stalker; um menino da mamã; um artista de stand up que não para de dizer gracinhas, etc.

A cada episódio acompanhamos os encontros e desencontros da protagonista, que no meio de situações inusitadas procura o amor de um homem normal, mas que quando o encontra percebe que até o mais “normal” dos homens talvez possa não ser a resposta para o seu coração romântico.

Consigo encontramos a mãe que é uma Tia de boas famílias que trata a filha por você, viaja imenso e tem namorados mais novos, Jaime, o seu melhor amigo que é inspector da PJ e a Dra. Dalila, sua psiquiatra que correspondendo ao estereótipo tem um parafuso a menos.

A narrativa de cada episódio não repete a estrutura do episódio anterior, trazendo novidade na abordagem, bem como na introdução dos personagens do elenco fixo, dos “dates” ou dos actores convidados que fazem pequenas participações.

Lúcia Moniz, que entrou numa das mais populares comédias românticas inglesas – Love Actually, está perfeita como Carla, acertando no tom, na energia, na verdade com que faz as cenas mais irreais. É a protagonista por direito e depois de a vermos em cena não conseguimos imaginar ninguém melhor do que ela para liderar o elenco desta série.

Helena Isabel, Carlos Oliveira e Rita Loureiro, respectivamente a mãe, o amigo e a psiquiatra, foram talhados para os papéis que representam, sendo um elenco coeso, muito naturalista na forma como interage. Bom rever a Helena Isabel na comédia, de que ela é mestra como bem documenta o Tal Canal.

Os “dates” são muitos e variados: Jorge Corrula, Pedro Pernas, Hugo Van der Ding, Pedro Lamares, José Pedro Vasconcelos, José Pimentão, etc…e até Rodrigo Santoro. Cada um escolhido na perfeição para as individualidades de cada um dos encontros.

A direcção é correcta e eficaz, beneficiando do facto de não ser gravada em estúdio, mas em ambientes reais, sejam eles exteriores ou interiores. Digno de nota de destaque é o mui bem realizado genérico, onde encontramos a protagonista e os seus gatos a elaborar de forma atabalhoada um bolo de noiva.

Solteira e boa rapariga não é uma serie pretensiosa, que pretende obter do espectador gargalhadas abundantes ou deixá-lo a reflectir sobre os dramas existenciais humanos, mas na sua execução leve e natural encontramo-nos na Carla, nos seus amigos e até nos dates… se soubermos reconhecer e rir dos nossos defeitos.

A má notícia é que Solteira e boa rapariga terminou a sua exibição no passado dia 2 de Setembro.

A boa notícia é que a mesma pode ser vista na RTP Play.

Será que Carla Maria encontrou o amor?


* Sobre Fernando M:

“Sou dos livros, dos filmes, do Teatro, da mesa e das esplanadas nos dias de Sol”

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