Ensaio

A raiva, essa força irresistível

por Carla Coelho

Num primeiro momento parece que a raiva (também conhecida como ira, fúria ou cólera) é um daqueles pecados sem grande possibilidade de redenção. Sim, é humano sentirmo-nos irados com as canalhices dos outros e as injustiças do mundo. Sim, por causa desta emoção tão humana (ao ponto de no nosso Código Penal existir um elemento atenuante com a expressão “compreensível emoção violenta”) podemos perder por completo o controlo e a capacidade de respondermos pelo que pensamos, dizemos e fazemos. Em suma, uma emoção que, embora humana, é com franqueza de evitar. As suas dramáticas consequências permitem perceber porque motivo é pecado e seguramente poucos contestarão o merecido lugar no sexto círculo do inferno tal como o mesmo foi imaginado por Dante.

Mas será mesmo assim? Há dois pontos que nos obrigam a afastar respostas simplistas sobre este pecado. O primeiro prende-se com a evidência de que, se a raiva tem um imenso potencial de destruição, não é menos verdade que também lhe é reconhecida desde o início dos tempos uma imensa energia construtora, a força de que o ser humano também vezes necessita para mudar o curso da existência. O segundo ponto a ter em atenção é que com a possível excepção do ciúme, a raiva parece ser o único pecado em que a própria figura divina incorre. Os deuses politeístas tinham caprichos, desmandos e apetites. O monoteísmo distancia-se desse modelo. O Deus cristão não é preguiçoso, não mente e não cede à gula. Muito menos o surpreendemos com pensamentos libidinosos. Mas em vários episódios vemo-lo colérico. Sobretudo o Deus do Antigo Testamento, como Dawrkins, Hitchens e José Saramago puseram em relevo, por vez de forma bastante irónica. Mas também Jesus Cristo, por exemplo, no célebre episódio da expulsão dos vendilhões do templo. Talvez por isso, a ira sempre se revelou um pecado menos evidente, por assim dizer. Sim, sob o seu domínio podemos desgraçar-nos. Mas, como explicar os acessos de ira divina? E como negar a evidente força propulsora que a ira pode ter para os seres humanos?

Esta ambivalência chamou à atenção dos gregos, muito antes do deus cristão se fazer anunciar. O que é a cólera? Ela inclui ou não o sentimento de vingança? Sendo uma emoção inata ao ser humano não terá uma função útil? Se sim, esgotou-se a mesma no nosso tempo ou é expectável uma idade dourada em que ela desapareça? Será tal desaparecimento desejável?

Aristóteles reflecte sobre a cólera enquanto emoção humana nos seus trabalhos, designadamente na Ética a Nicómaco. Define a raiva como uma resposta a um dano significativo infligido de modo injusto a algo ou alguma coisa que merece o nosso cuidado. A estes dois elementos junta ainda o desejo de retaliar ou retribuir o mal sofrido, enquanto elemento atenuador da cólera, emoção dolorosa. Ou seja, como à agitação de alma por sentir uma injustiça segue-se, quase de seguida, a vontade de devolver a afronta. E diga-se que a generalidade dos autores que estuda estas matérias liga o sentimento de retaliação de ofensa, como consequência quase imediata da raiva.

Séneca, um dos fundadores da escola estóica desvalorizava a cólera. Caracterizava-a como “breve loucura”, fazendo-nos esquecer o decoro e os laços afectivos, sendo teimosa, fechada a conselhos e razão, inquietada por motivos vãos (como a circunstâncias de um escravo quebrar uma tigela ou alguém esquecer-se do nosso nome), incapaz de distinguir entre o verdadeiro e o errado.

Séneca afirmava que a visão aristotélica da cólera estava próxima da sua. Contudo, como salientou recentemente a filósofa norte-americana Martha Nussbaum, a generalidade das situações que Séneca identifica como fontes de ira são, na verdade, bastante infantis, como os dois exemplos acima indicados. Séneca não está, todavia, sozinho nesses momentos de imaturidade. Na verdade, muitos dos motivos de zanga de cada um de nós são, se pensarmos bem no assunto, ocos e fruto de uma ausência de auto-estima.

No seu tratado As Paixões da Alma Descartes não deixa de reconhecer alguma utilidade à cólera, enquanto mecanismo que nos dá vigor para repelirmos as injúrias. Porém, reconhece que nenhuma outra emoção é mais propícia a excessos de que nos venhamos a arrepender. Aliás, a produção literária ocidental é generosa em exemplos ilustrativos das tristes consequências de nos guiarmos pela ira nas nossas decisões. Otelo, de Shakespeare, dá o exemplo de um homem valoroso e apaixonado pela sua mulher, Desdémona. É um amor recíproco, que é destruído pelo modo como Otelo se deixa levar pelas intrigas e, corroído pelo ciúme (um forte propulsor da raiva), mata a mulher. Outro exemplo das terríveis consequências da raiva é ilustrado pelo romance de Richar Zimmler, Goa ou o guardião da aurora, onde todo uma vida é consumida pelo desejo de vingança pelo mal que o protagonista acredita que foi praticado contra a sua família. Apenas para descobrir, tarde de mais, que cometeu um erro de avaliação. Estas duas peças de ficção ilustram de modo perfeito um dos maiores perigos de agirmos sob a égide da raiva: os erros na compreensão dos factos, conducentes com frequência a que ajamos de forma precipita contra aqueles a quem imputamos a culpa da ofensa.

Porém, se a ficção é pródiga em exemplos das péssimas consequências da acção colérica, a História mostra-nos como ela tem uma energia não despicienda para a mudança.

Entre os múltiplos elementos e factores que contribuíram e contribuem para a construção do conceito de direitos humanos (em particular a tríade liberdade, igualdade e fraternidade, no modelo francês que se espalhou pela Europa) está a consciência de que é injusto que alguém ou alguns tenham todo o poder e privilégios e outros, par contre, têm todos os deveres, a começar no de pagar impostos e a terminar no de aguentar calado todos os desmandos.

As multidões que invadiram as ruas e jardins de Paris e que marcharam (e marcham) pela Europa e pelo mundo estavam munidas de duas novas ferramentas: a consciência do seu valor individual intrínseco e a energia necessária para exigir o seu reconhecimento. Sim, foram escritas obras filosóficas e literárias sobre o tema, algumas com acentuada difusão e que rapidamente foram entendidas como perigosas para a moral pública. Mas foi a emoção de quem as escutou e nelas se viu reflectido que conduziu à partilha do pão, brioches e o que mais os nobres comiam habitualmente.

John Sutherland num dos sete ensaios que compõem The seven deadly sins – A celebration of vice and virtue escreve com evidente entusiasmo sobre a energia necessária à tomada de poder e ao combate contra tiranos de todos os séculos.

Nos nossos dias é Martha Nussbaum a filósofa que mais tem trabalhado sobre a raiva, não como pecado, mas como emoção detentora de potencial de transformação. Para ela, há um aspecto essencial para essa transformação e não a destruição ter lugar: que o sentimento de indignação que caracteriza a raiva seja expurgado do desejo de retaliar. A vingança é, pelos vistos, o lado mau da raiva. Mas enquanto elemento detonador da mudança, a ira é essencial. Pode ela resultar do sentimento de injustiça para connosco próprios, da ferida do nosso amor próprio ou de nos indignarmos com a injustiça que o outro sofre, sendo então a contraface da compaixão. Iramo-nos, indignamo-nos porque nos importamos. Claro que têm de se distinguir as ofensas. Se estamos ao nível de Séneca (explodindo de raiva porque o empregado da pastelaria se esqueceu que queríamos um descafeinado e nos entregou um café duplo) talvez valha a pena percebermos porque é que o nosso amor próprio anda tão em baixo que uma mera distracção tem efeitos tão potentes sobre ele. Mas é o sentimento de amor próprio que alimenta a fúria que nos conduz a pôr termo a relações onde não nos sentimos estimados (num exemplo extremo, pensemos nas vítimas de violência doméstica cujo amor próprio foi tão minado que estão apáticas e incapazes de reagir), que nos leva a tentar fazer aquilo que quem nos subestima pensa que não seremos capazes de levar a cabo e nos conduz a mudanças do nosso dia-a-dia. Num plano colectivo e mais altruísta é a compaixão que nos leva a interessarmo-nos pelo destino dos nossos contemporâneos. É ela, a reacção contra a injustiça de que os outros são vítimas que nos conduz a olhar para fora do nosso pequeno mundo: preocuparmo-nos com as vítimas dos incêndios, com quem sofre nas guerras, com quem atravessa o mar a nado para tentar uma vida melhor. A indignação é o que nos dá força para lutar. Logo, estou ao lado de Sutherland: tem os seus perigos, mas o saldo final é positivo.

Vale a pena pensarmos um bocado sobre o motivo porque nos enfurecemos, diz-nos Nussbaum. Se na génese do sentimento de indignação está a nossa auto-estima, quase sempre é de tentar ultrapassar a questão respirando fundo, contando até 10 (ou 100) e arquivando o caso. Mas nem sempre será assim. Em outras ocasiões a raiva sentida pode ser justificada. Mais ainda, pode ser útil, enquanto elemento de transformação de uma realidade pessoal ou social. Para tanto, contudo, há que garantir um elemento essencial: a reacção gerada não pode ser dominada pelo desejo de retaliação. Isto é, a resposta tem de visar a mudança e não a vingança. E isso implica que nos ocupemos da educação da nossa alma. Não apenas para identificarmos os tais motivos de raiva fútil e dispensável e os distinguirmos dos motivos válidos para nos enfurecermos, mas também para sabermos o que fazer.

É difícil, admitamo-lo, formar um ser humano totalmente livre da tentação da raiva não justificada, ditada por motivos menores. Mas eles andam por aí. Martin Luther King, Mohandas K Ghandi e Winston Churchill são exemplos destacados e que bem demonstram que tal tarefa não está acima das capacidades humanas.

Voltando à perspectiva religiosa, Paul Copan procurando responder ao Novos Ateístas deixou escrito “Se não nos sentimos directamente afectados pelas dores, as tristezas e as opressões do mundo, é natural que a nossa reacção seja de indiferença e apatia, e que nos sintamos profundamente incomodados com uma explosão de cólera de outrem. E contudo, a ira é muitas vezes a primeira indicação de que nos preocupamos; a tragédia é quando já não nos sentimos irados, nem chocados.

A ira não é necessariamente um mal; na realidade, há alturas em que é mesmo uma virtude. A pessoa que nunca passa por ela é moralmente deficitária. A pessoa virtuosa é aquela que é a lenta a irar-se (…), mas que também sabe opor-se à injustiça e tirania.”

Afinal, em que ficamos? A raiva é um pecado? A resposta é afinal mais complexa do que parecia. Afinal, depende. Daquilo que a motiva e do que fazemos com ela.

Os Sete pecados capitais, Bosch (1480) Detalhe, Museu do Prado

Bibliografia:

O Deus da Bíblia é cruel?, Paul Copan, Aletheia, 2011

Political Emotions, Martha Nussbaum, 2013

Powerlessness and the politics of blame, 2017, disponível em https://www.law.uchicago.edu/news/martha-c-nussbaums-jefferson-lecture-powerlessness-and-politics-blame

Warth, John Sutherland , The seven deadly sins – A celebration of virtue and vice, 2013,

À mesa com os sete pecados capitais, entrevista de Zita Seabra ao Padre Gonçalo Portocarrero de Almada, Quetzal, 2016

Da ira, Séneca, disponível em https://www.companhiadasletras.com.br/trechos/85127.pdf

A ética a Nicómaco, Aristóteles, Quetzal, 2009.

Otelo, Shakespeare, com várias edições em português.

Goa ou O guardião da aurora, Richard Zimmler, Porto Editora, 2011.

One thought on “Ensaio

  1. Muito bom resgate do potencial transformador da raiva! Ela é indissociável da indignação. Mostra que estamos vivos e que nos importamos com o que é feito com os outros e conosco.

    Parabéns Carla!

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