Ficções

Dia e meio em Banguecoque

por Antónia Sá

Depois de “1500 horas” de viagem, com paragem no Dubai, onde me “livrei” da minha companheira que insistia em ocupar o lugar dela e o meu (já de si enorme…ou talvez não) e já depois de ter ocupado o meu lugar num gigante A380, cheguei ao meu destino final (por ora) – Banguecoque.

O nome do aeroporto é para mim a esta hora impronunciável e para mal dos meus pecados, fica a 40 minutos da cidade, embora me tenha sabido lindamente esticar as minhas pernas massacradas.

Nesse trajecto fui conduzida por um tailandês todo sorrisos, mas de poucas palavras – adivinho a comunicação entre nós difícil – que conduziu prudentemente a sua van, apesar do trânsito intenso.

Do caos que falam desta cidade, ainda nada vi.

O ar, claro, é quente e húmido.

Os néons estão por todo o lado e iluminam o céu da meia noite.

O dia amanheceu cinzento (parece que é costume), mas muito abafado.

Tinha decidido ir ver nesse dia o Palácio Real e o Templo Wat Pho (Templo do Buda Deitado) e assim lá fui eu, num barco supercarregado com tailandeses locais e outros tantos turistas como eu.

Quando desembarquei, dei de caras com um mercado gigante, estrategicamente montado e equipado para o turista que sai do barco cheio de fome e sede – fruta descascada e partida, dentro de saquinhos de plástico, gelados, água e outros docinhos. Ah… e já agora também uma sandália, duas sandálias, montes de sandálias, t-shirts, vestidos, calças e páreos (para tapar braços e pernas no templo, o que é mandatório. Enfim, de um tudo que eles, os vendedores, se lembrem, que nós, os passeantes, possamos precisar ou apreciar.

A minha primeira paragem foi no Grande Palácio Real (Phra Borom Maha Ratcha Wang), datado do século XVIII e em tempos, residência oficial do Rei da Tailândia.

A parte visitável é um complexo de edifícios essencialmente religiosos, decorados com diversas figuras mitológicas, que contam arte da história da Tailândia e do budismo. O resto, como seja a residência oficial e outros edifícios governativos, não são visitáveis.

O Palácio tem no seu complexo, diversos espaços amplos, arejados e até verdejantes, o que não deixa de contrastar com aquilo que já me foi permitido ver  até agora desta cidade.

Os turistas são aos magotes, organizados em diversas filas, por pessoal habituado aquele frenesim diário (horário).

O calor é sempre o mesmo – intenso e húmido.

Os guardas são moderamente solícitos e organizam, encaminham e vigiam os turistas que por ali deambulam.

O templo Wat Pho, tirando a grandeza e monumentalidade do Buda deitado, com a sua expressão de que a todos vê e com os seus pés de madrepérola (tem 46 metros de comprimento, 15 de altura, e é todo coberto de ouro) e bem assim o pátio das ordenações de monges budistas, no qual se alinham diversos budas, fizeram as despesas desta visita. É outra ilha no meio da cidade intensa, barulhenta, fervilhante que é Banguecoque.

Mudando a agulha, era tempo de partir, que o tempo voa e havia ainda muito para ver.

Depois de uma “sweet mango” para recuperar as forças (fruta esta que tem, aliás, um sabor totalmente diferente da que comemos em Portugal, ajudando o calor a intensificar o sabor doce e amadeirado deste fruto), segui  a pé (e é uma “boa” caminhada, devo dizer) para Chinatown, passei pelo mercado das flores (Pak Khlong Talat) – aberto todos os dias, 24 horas – é o maior centro de venda flores frescas da região, ali se vendendo todos os tipos de flores  (normalmente em grandes quantidades, até por causa das oferendas que é costume os tailandeses fazerem nos templos que frequentam) e itens relacionados ao cultivo (e até frutas e itens religiosos). E barato.

Chegando a esta Chinatown e quando pensamos que já vimos tudo em lojas chinesas (de Portugal), eis que surge uma chinesice (no offense) capaz de provar exactamente o contrário. Vi até uma espécie de H&M vs. Tiger, versão chinesa 2.1. Que maravilha!

Estava estafada (tudo é grande e longe nesta cidade) e todo o tailandês a quem perguntei para onde ficava Silom (zona onde eu estava hospedada), dizia-me que a pé não, táxi ou tuk tuk, era o melhor.

Eu, espapaçada, depois de negociar a quantia de 200 bahts (cerca de € 5) para um tuk tuk de volta ao hotel, acabei por me render e lá fui naquela máquina esfumaçante (onde eu nunca tinha posto um pé em Lisboa), a rasgar Banguecoque.

Chegada ao hotel, mergulho na piscina, seguido de um duche e de uma corrida até à primeira casa de massagens thai que me apareceu, onde pela módica quantia de 300 bahts (cerca de € 8,00) massajaram-me os pés, as pernas e parte do tronco durante 1 hora.

Abençoada massagem.

De volta ao passeio, assisti (descalça) a um ritual hindu no templo que existe aqui em Silom (Mariamman Temple). Um templo lindo, o principal e mais antigo da Tailândia (data do século XIX), super colorido, decorado com diversas divindades da mitologia hindu. Nota para dizer que os tailandeses me parecem de grande ecumenismo, considerando que as diversas religiões presentes no país, como o budismo, o hinduísmo, o taoísmo, ou o cristianismo – convivem bem e pacificamente lado a lado.

Segui para o mercado de Patpong (diziam que era uma das atracções do sítio…), mas que não vale efectivamente o esforço que fiz em ir lá para ver. Inundado de falsificações de tudo (roupas, sapatos, acessórios…) de marcas internacionais, parece o leitmotiv para esconder as casas de ping pong show (apresentações de pompoarismo). Todavia, nada tendo contra, não gostei do ar (exterior) decadente dos sítios, do tipo de clientes que frequentava estas casas, dos porteiros mal encarados que as guardavam.

Neste caso, o melhor para aplacar a minha desilusão por esta noite assim-assim, foi uma comidinha como deve de ser. E foi. Galic rice with fried chicken and cajun. Delicioso. E um bonito prato. Servido num verdadeiro boteco de rua. Este é o espírito de Banguecoque. Por todo o lado existem banquinhas (na verdade, carrinhos) de comida – da mais variada e saborosa devo dizer (excetuando um fruto que achei terrível – o durião – até mal acho que cheira) – a preços incrivelmente baixos.

O “estouranço” era já incrivelmente grande e consequentemente, o apelo do aconchego do meu quarto também.

Tenho que pagar o jantar.

Mas… o meu cartão?! 

Não está aqui?!?

Como não?!

Não pode ser!

Vou ver com calma outra vez.

Nãããããoooo!

Onde é que que eu o deixei?!?!

Aaahhh! Na máquina ATM que usei ontem à chegada?! Neste sítio tão próximo de casa?!

Não pode ser!

Ups…Sim…Pode ser, pode. Ficou lá.

Apesar da calma na verificação da carteira e outros adjacentes pela enésima vez, o “bicho” não se apresentou.

E agora?!?! Ainda agora começou esta viagem e eu já sem dinheiro…

Terei fé nas palavras de Lennon e Mccartney e estou certa que “i’ll get by with a little help from my friends”. Ámen.

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