Livros

A Gota D’ água

por Clarissa Sampaio Silva

“Eu transfiro para vocês a nossa agonia
porque, meu Pai, eu compreendi que o sofrimento
de conviver com a tragédia todo dia
é pior que morte por envenenamento”

Essas são as palavras finais de Joana, figura central da peça de teatro em que Chico Buarque de Holanda e Paulo Pontes recriam, em um morro da cidade do Rio de Janeiro, a tragédia grega de Medéia, usando personagens carregados de denso realismo do ambiente popular, com seus dramas, suas tramas e seus ais, suportados mercê da solidariedade e do  “feriado dado à alma”, pelo samba.

A peça é de 1975. A protagonista é Joana, mulher de grande vitalidade e energia que emprega para prover materialmente e em cuidados seus dois filhos menores, frutos de seu relacionamento com Jasão. Para ela, a vida não era “jogo, piada, risada, paz”, estando, ao contrário, sempre a atiçar uma fogueira, a se debruçar pro fundo do poço “na quina da ribanceira, sempre na véspera do fim do mundo”, na percepção de seu marido (Jasão), cujas “marcas de homem”  teriam sido, todas, dela tiradas.

O jovem Jasão, “moleque, frouxo, perna bamba, barba rala, calça larga”, que nada sabia da vida, e que conheceu, com Joana e por Joana, sua Medéia, “o primeiro aplauso, a primeira inspiração, a primeira gravata, o primeiro cigarro, o primeiro filho, o primeiro refrão, o primeiro estribilho”. Tanto ensinamento forjou um sambista, um verdadeiro poeta, perigoso, por conseguir dar às palavras a intenção que o interessava, nas palavras de Joana

Mas, na euforia do incipiente sucesso Jasão envolve-se com Alma, filha de Creonte, proprietário das casas da vila e sempre disposto a sangrar mais e mais seus inquilinos com “taxas, juros, correção e todo o sistema de prestação”, fazendo-os após “tanta batalha inglória, levar nota promissória para o juízo final”.

Ao tempo em que decorriam os sofisticados preparativos para o casamento, com vestido vindo de Paris; com vodca  da Polonia, spaghetti da Bolonha, pamonha e maconha de Fernando de Noronha, só não se podendo dizer de onde vem a vergonha”, a indignação e a revolta de Joana só cresciam, ao ponto de sua comadre Corina, em diálogo com as mulheres do morro, confessar que, embora a amiga já tivesse saído “ ilesa de muito inferno, muita tempestade, sendo preciso “mais que uma calamidade para derrubar aquela fortaleza”, essa ela não aguentaria.

Transtornada pela raiva, nada podendo sossegar seu coração, Joana passa a amaldiçoar os noivos e Creonte, rogando-lhes pragas “em tudo quanto é beco, boteco ou bilhar” , ameaçando a dourada felicidade conjugal, da qual o pai de Alma era guardião.

Receoso do poder de Joana sobre Jasão, por conta dos filhos, e sobre os moradores do morro, economicamente subjugados a ele, Creonte,  decide ser necessário conseguir que Joana vá viver em outro sítio. Tenta persuadi-la a deixar sua casa, recorrendo ao próprio Jasão, nessa altura já completamente seduzido pelos encantos da riqueza  e do poder, mas que também não tem, por óbvio, sucesso. Por fim, Creonte faz uso de sua força de proprietário para ameaçá-la de despejo.

Aparentemente convencida por Egeu, esposo de Corina, da superioridade do rival, contra quem ela não pode lutar, Joana passa a assumir postura  conciliatória, para, então, colocar em prática sua cartada mais poderosa e derradeira: no dia do casamento envenena a si e aos filhos, cujos corpos são carregados por Corina e Egeu para a cerimônia.

Joana, pois, assume o lugar da poderosa Medéia, a heroína de Eurípedes, que também vingou-se de seu marido Jasão provocando, por magia, a morte da noiva e matando os próprios filhos, servidos posteriormente ao pai.  

 São várias as tragédia  narradas no texto e que podem ser arrumadas como matrioskas:  a da extenuante batalha pela sobrevivência, diante de uma realidade econômica profundamente desigual e inescapável; a da condição feminina, numa ambiência de sua desvalorização, que não tolera, ainda, o envelhecimento das mulheres; a do abandono e da ingratidão de quem forjou-se às custas de outrem a do desalento e da desesperança.

Toda tragédia, tem, antes, sua  gota d’água. Para não deixá-la verter só mesmo a crença no conselho dado à Joana de que “a vida é feita assim mesmo. Começa todo dia…”

Em homenagem a Chico Buarque de Holanda, no momento pelo Prêmio Camões e pela constante disposição em lutar pela democracia no Brasil. Em homenagem a Bibi Ferreira  1922-2019), que imortalizou Joana nos palcos.

(imagens de Bibi Ferreira e Ricardo Bonfim na primeira encenação da peça, Teatro Teresa Rachel, RJ, 1975)

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