Livros

O sufoco da visibilidade em Milkman, de Anna Burns

por Teresa Carvalhal

Peguei no livro pelo título, virei-o para ler a sinopse e foi isso que me despertou maior interesse. Uma história passada numa cidade sem nome, sem qualquer referência ao tempo em que se situa. E tudo gira em torno da irmã do meio, de 18 anos. É uma pessoa simples, que tenta passar despercebida e tem os seus segredos, como todos nós. Como fala pouco dela própria torna-se alvo de rumores, tal como também nós somos. À medida que os rumores se espalham ela começa a despertar interesse e isso implica dar nas vistas. Dar nas vistas não é bom naquela cidade. Ou naquele tempo.

Desconhecia a autora, Anna Burns. Só ao pegar no livro percebi que foi a vencedora do The Man Booker Prize em 2018. Foi a primeira vez que uma escritora da Irlanda do Norte recebeu este prémio.

Não encontrei nenhuma tradução para português, por isso li-o no original.

Por norma não sou muito de citações, mas algumas retratam bem determinados cenários. É o caso de Strange things, habits. People themselves never knew they had them da autoria de Agatha Christie, a dama do crime. E realmente é verdade. Mesmo nesta era em que vivemos alienados do mundo à nossa volta, porque estamos sistematicamente a destruir a cervical com a cabeça mergulhada no smartphone, conseguimos reparar nos hábitos e rotinas alheias. Como tal, isso era ainda mais fácil no século XX. E se nós reparamos, os outros também reparam em nós. No que fazemos. Porque embora sejamos escravos da tecnologia, continuamos a desempenhar tarefas offline. Vamos pôr o lixo àquela hora. Tomamos café naquele sítio. Tiramos tabaco naquela máquina. Corremos ou passeamos o cão de manhã, ao fim do dia, etc. Há sempre um percurso de eleição. Temos uma série de tarefas e atividades mecânicas, rotinas, que permitem que os outros nos monitorizem os hábitos.

O livro transporta-nos a uma época que podemos situar no fim da década de 60 e meados da década de 70. Não refere a cidade onde tudo acontece, mas deduzimos que seja algures na Irlanda do Norte em pleno conflito (The Troubles). Não sabemos o nome da personagem principal, a middle sister, nem do milkman, ela opta por não as nomear. Anna refere-se apenas ao milkman, à middle sister, às wee sisters, ao first e ao third brother in law. Há também o real milkman, o Somebody McSomebody, o maybe boyfriend, a long friend, a tablets girl, etc.

A autora começa, na primeira pessoa e pela voz da middle sister, por nos mostrar como a  simplicidade e transparência da personagem principal se torna quase ofensiva para quem a rodeia. E este é um ponto com o qual creio ser fácil identificarmo-nos, por ser mais frequente do que o desejável. A middle sister sofre as consequências do seu comportamento estranho, inaceitável, ofensivo, rebelde. Porquê? Porque lê enquanto anda. Lê Ivanhoe, de Walter Scott, enquanto percorre os caminhos habituais. É visto como um ato de rebelião, algo que tem de parar. Faz jogging com um dos cunhados. Tem aulas de francês num dos bairros proibidos. Em território inimigo. Ninguém faz isso, muito menos uma rapariga ainda jovem. Solteira. Sem filhos nem intenção de os ter.

Tudo naquela terra era escrutinado: a marca de produtos comprados no supermercado, a pronúncia de cada um, as orações, as pessoas com quem cada um se relacionava, as zonas da cidade que frequentava. Talvez isso a fizesse sentir-se oprimida e consequentemente a levasse a refugiar-se no seu mundo. Lia enquanto caminhava para se abstrair do que a circundava. Corria para limpar a mente. Podia ter as aulas de francês pelas mais diversas razões: porque a transportavam para um outro mundo, para uma localização onde não a censurassem, ou simplesmente porque gostava da sonoridade ou de ver outras pessoas. Mas isso leva-nos à questão que começa a fervilhar nas mentes mais fechadas: quem é que ela julga que é para se desviar do que é moral e socialmente aceite? Quem é ela para ignorar as convenções? Melhor que os outros?

Terá sido também este espírito que fez com que o milkman se interessasse por ela, o que veio gradualmente destruir a sua reputação. Não teremos já todos passado por isso? Por vivermos a nossa vida, com hábitos que julgamos que são simplesmente nossos e inofensivos para terceiros, mas que resultam ultrajantes aos olhos dos infelizes e fracos de espírito? Porque não nos inserem no meio do rebanho para onde todos se arrastam em conjunto, porque não nos transportam para a espiral de miséria e infelicidade onde eles se encontram, onde tentam manter-se à tona e sobreviver, canalizando o ódio e a frustração para aqueles que ousam desafiar as regras e quebrar o círculo vicioso? E nenhum sabe sequer o preço a pagar por se querer ser livre. Começam então as calúnias, os rumores que, quanto mais maldosos, mais rapidamente se propagam e destroem como lava.

E é esse o dia-a-dia da middle sister. Tentar viver, ser livre. Escapar ao assédio sexual de que é alvo. Contornar aquelas invasões de espaço pessoal que são abusivas, mas que não ultrapassam o limite para apresentar uma queixa. Tentar abstrair-se do som do clique da máquina fotográfica que a persegue onde quer que ela vá. Tentar caminhar pelas ruas sem ser apontada por ser o alvo da atenção e amante do milkman, aquele homem que ninguém sabe ao certo quem é. Sabem que não é realmente um milkman. Sabem das suas ligações paramilitares. E ela sente-o melhor do que ninguém. Sente e ouve a sua respiração sem poder fazer mais nada, daí ter começado a fazer jogging com o cunhado, para sentir-se minimamente protegida. Ele conhece o paradeiro da middle sister e aparece sempre onde ela está. Ela tem plena consciência de que ele tem informadores, por onde quer que ela ande. Ele até conhece a ligação de intimidade que ela tem com o maybe boyfriend, aquele rapaz com quem não tem um compromisso, com quem não casa, com quem não vive, porque entre as suas vicissitudes ele é um hoarder. Com quem ela não pode sequer fazer planos futuros, pois para além de ele não ser um rapaz para manter a longo prazo, pois com ele é tudo «talvez», ela não sabe se um dia o carro dele não estará armadilhado, tal como era frequente acontecer naquela época e realmente aconteceu a um dos seus cunhados.

Ao longo da história apercebemo-nos da falta de apoio da personagem principal, quer por parte das irmãs, que se entregaram à vida como era suposto as mulheres viverem-na, com mais ou menos sanidade mental, ou mais ou menos felicidade, quer por parte da própria mãe, que tinha de abafar os segredos de família, viver como uma viúva num luto permanente e abafar todo e qualquer desejo de viver de outra forma. Seriam as primeiras a apontar o dedo em acusação à middle sister por esta estar envolvida com um homem bem mais velho e do calibre do Milkman. Vezes sem conta o rumor foi negado, mas nada o dissipava. Era abordada por groupies que a olhavam como se ela agora se tivesse juntado a elas. Era uma das mulheres daqueles homens, rótulo que horrorizava a middle sister.

Em cada capítulo vemos o modo de sobrevivência da personagem principal que vê a vida desmoronar-se, recorrendo a quem tem de mais próximo com o intuito de desfazer o equívoco. Sentimos a frustração de não conseguir sequer que a família próxima, uma amizade de longa data e um pseudo-namorado, sejam tábuas de salvação.

Como se apenas a proximidade da morte a pudesse salvar. E é a perda de algumas personagens que faz com que se comece a ver a realidade com as lentes da justiça. Sem a névoa do rumor. Como se a desgraça trouxesse uma espécie de libertação. E as máscaras caíssem.

A autora escreve num tom coloquial. O facto de optar por não dar nomes às personagens podem inicialmente confundir um pouco o leitor, já que numera as irmãs e os cunhados, mas rapidamente acompanhamos as descrições feitas pela personagem principal. Foi primeiro livro de Burns que li, mas ficou a vontade de explorar os restantes.

(imagem da capa extraída daqui)

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