Sociedade

Olhar as estrelas

por Luís Ramos

O Verão é, regra geral, sinónimo de férias, com dias quentes e longos. Dias que nos deixam com vontade de querer prolongar o tempo fora de casa, enquanto se aproveita a leve e refrescante brisa da noite. Sendo sem dúvida uma época convidativa a actividades nocturnas ao ar livre, a minha sugestão é: E que tal aproveitar para olhar o céu à noite?

Ficam aqui alguns conselhos práticos para que tire o máximo partido de uma observação.

Um factor importante é a escolha de um local escuro, longe da poluição luminosa dos centros urbanos. Mesmo o que pode ser considerado pouca luz, pode fazer a diferença, por isso, o ideal é estar num sítio que esteja afastado das fontes de iluminação. Ainda em matéria de luz, a Lua Cheia é também uma condicionante à observação, já que o forte albedo faz com que as estrelas menos brilhantes acabem por não se ver. Evite, assim, noites próximas a esta fase lunar, caso contrário o impacto pode ser tão grande, ou até maior, do que estar a observar junto às luzes de uma cidade.

O primeiro passo para ver o céu com outros olhos é começar por perceber as constelações. Para um observador inexperiente pode ser uma tarefa difícil, mas na verdade existem algumas constelações mais fáceis de identificar que outras.  Para o ajudar é importante que tenha consigo uma carta celeste. São várias as formas de as obter, com recurso a um planisfério celeste ou livros de astronomia, fazendo download de um site da especialidade ou ainda, directamente através de uma aplicação para o smartphone, sendo que neste último caso a experiência se torna mais interativa, porém, menos desafiante.

Para além destas cartas, que vão servir como mapa do céu, existem ainda outros acessórios muito convenientes e que facilitam muito a observação. Um deles é uma lanterna de cabeça com opção de luz vermelha, para que mantenha sempre as mãos livres. Conseguirá desta forma manusear as cartas que tem consigo ou ainda utilizar um apontador laser de cor verde, que vai permitir mostrar a quem esteja consigo qual a estrela que está a ver. Caso recorra apenas ao dedo indicador ficará sempre pela dificuldade de se fazer explicar: “Estás a ver aquela estrela ali? Não, mais ao lado ainda.”, correndo o risco de nunca se fazer entender. Outra coisa a não descurar, é a roupa. Nunca se esqueça de levar um casaco, mesmo em noites de Verão. O desconforto demove facilmente e ao fim de pouco tempo qualquer pessoa, seja qual for a actividade. 

Instale-se confortavelmente, use uma cadeira, de preferência reclinável, ou então apenas uma manta no chão. Antes de uma observação mais técnica, vale a pena olhar o céu e entender a beleza de tamanha vastidão. Aproveite este momento para deixar a pupila dilatar para entrar o máximo de luz na vista. À medida que isto vai sucedendo, vai aperceber-se que há cada vez mais estrelas a aparecer no céu. Durante a observação evite a utilização de écrans, usando, preferencialmente, a luz vermelha da lanterna de cabeça caso precise de luz para ler a carta celeste, o que lhe vai permitir conservar o melhor possível a vista adaptada ao escuro.

O céu à noite não é sempre igual ao longo do ano. Devido ao movimento de translação da Terra as constelações vão variando de local, para a mesma hora de observação, dando lugar a outras. Por exemplo, ao longo do Verão encontrará ao início da noite as constelações do Escorpião, do Sagitário, da Águia, da Lira e do Cisne, formando estas três últimas um asterismo relativamente fácil de encontrar: o chamado triângulo de Verão. Já no Inverno, encontrará, entre outras, as constelações de Orionte, do Cão Maior e do Touro.

Se não está de todo familiarizado com o céu, e não dá com o Norte, o mais indicado é recorrer a uma bússola. De seguida, procure a constelação da Ursa Maior, pois a partir desta facilmente chegará à Ursa Menor e consequentemente à estrela Polar. Ao contrário do que se possa pensar, a estrela Polar não é muito brilhante, contudo é considerada uma referência pois o eixo da Terra aponta para muito próximo desta estrela. Notará também que esta não acompanha o movimento aparente de Este para Oeste do restante céu ao longo da noite. Por isto se verificar, a estrela Polar desempenhou um papel importante no passado da navegação, servindo para determinação da localização do observador, ou mais concretamente na determinação da coordenada da latitude do respectivo local. Por exemplo, a latitude de Portugal varia aproximadamente entre os 36 graus (localização mais a Sul) e os 42 graus (localização mais a Norte), pelo que a estrela Polar encontra-se entre estes valores de altitude em relação ao horizonte. Caso queira experimentar esta medida, estenda o braço à sua frente e abra a palma da mão na totalidade. Coloque o polegar na linha do horizonte e verá que o dedo mindinho não chegará à Polar. Embora esta forma de medir seja grosseira, consegue de uma maneira simples e prática mostrar o que são cerca de 25 graus no céu com apenas a palma da mão esticada. O mesmo raciocínio pode ser feito para o tamanho de um punho fechado que ocupa cerca de 10 graus, enquanto que um dedo polegar, são apenas aproximadamente 2 graus.

Com o Norte à sua frente é simples encontrar os outros 3 pontos cardeais. Estará de costas para Sul, o Oeste (ou Poente) do seu lado esquerdo, e o Este (ou Nascente) do seu lado direito. A partir de agora tornar-se-á mais fácil perceber a posição das constelações durante a leitura de uma carta celeste.

Do lado do quadrante Sul encontrará a linha imaginária chamada de Eclíptica. É justamente com centro nesta linha imaginária que se localizam, numa faixa mais alargada, as doze constelações do zodíaco, e é também nesta zona do céu que o Sol, a Lua e os planetas fazem a sua passagem. Aproveite esta altura para ver Júpiter e Saturno, que serão visíveis logo ao início da noite e até ao final do Verão. O primeiro é bastante mais brilhante que o segundo, e não precisa de qualquer objecto óptico para além da sua vista para os ver. O brilho é de tal ordem que até na cidade se conseguem ver. Mas atenção, por mais brilho que tenham serão sempre apenas dois pontinhos luminosos, facilmente confundíveis com uma estrela, por isso não espere encontrar planeta algum do tamanho da Lua Cheia, tal como foi partilhado, erradamente, há uns anos relativamente ao planeta Marte.

Quando olhamos o céu uma das questões que nos fazemos é, a que distância estarão as estrelas que vemos. À nossa escala estão efectivamente muitíssimo longe, tão longe que a unidade de medida geralmente utilizada é o ano-luz. Por outras palavras, esta medida corresponde à distância que a luz percorre ao fim de um ano, para uma velocidade de aproximadamente 300.000 km a cada segundo que passa. Basta fazer uma conta simples para perceber que a distância é colossal. No hemisfério Norte, a segunda estrela mais próxima de nós, a seguir ao Sol, é Sirius que se localiza a uma distância de aproximadamente 8,5 anos-luz. Embora as distâncias sejam sempre extraordinariamente enormes à nossa escala, do ponto de vista astronómico, 8,5 anos-luz é algo que está muito próximo.  É por isto que praticamente tudo o que vê na abobada celeste, à vista desarmada, faz parte do imenso agregado de matéria que é a nossa “galáxia-casa”, chamada Via Láctea. Há poucas excepções, como o caso da galáxia de Andrómeda, que se situa a uma distância de cerca de 2 milhões e meio de anos-luz de nós, ou, no caso do hemisfério Sul, é igualmente possível ver mais duas galáxias a olho nu, as chamadas Nuvens de Magalhães, observadas pelo navegador Fernão de Magalhães aquando da sua viagem de circum-navegação.

Se quiser ver alguns objectos estelares já com mais detalhe, avance para um instrumento óptico. De início o aconselhável é usar apenas uns binóculos. Não escolha uns com muita ampliação, caso contrário vai ter mais dificuldade a encontrar o objecto que quer e terá que, adicionalmente, usar um tripé para ter a imagem minimamente estabilizada.  

Aproveite ainda as várias actividades no âmbito da astronomia que a Ciência Viva oferece [https://epulata.com/2019/07/10/no-radar-14/]. Pode falar com astrónomos, estar em contacto com telescópios, colocar dúvidas, partilhar experiências e aprender conceitos iniciais de astronomia.

Faça uma noite de Verão diferente do habitual e deixe-se embarcar nesta fascinante viagem que é o conhecimento deste imenso cosmos.


Sugestões para um kit de observador:

Livro: Roteiro do Céu, de Guilherme de Almeida – cerca de 15€

Site para cartas celestes: www.heavens-above.com (ir a Mapa celeste interativo, com opção de impressão em pdf). Nestas cartas aparecerão também a localização dos planetas.

Software para PC: Stellarium – gratuito (muito didático para a aprendizagem do céu, um verdadeiro planetário)

App: Google Sky Map – gratuito ou Stellarium (sem a função de giroscópio) – cerca de 3€

Ponteiro verde de 5mWwww.servelec.pt (cerca de 10€), ou Astrofoto – cerca de 25€

Lanterna de cabeça com opção de luz vermelha – Leroy&Merlin, Fnac ou Astrofoto – cerca de 25€

Binóculos National Geographic 10x50mm – Fnac – cerca de 45€

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