Cinema

Quase Famosos

por Joana Gonçalves

“Quase Famosos” (Almost Famous, Cameron Crowe, 2000), é um verdadeiro hino à música popular mas também um filme sobre crescer; é a história do amadurecimento de William Miller (o alter-ego de Cameron Crowe), um miúdo que teve a vida transformada pelos álbuns de rock que a sua irmã deixou quando foi embora de casa. “Quase Famosos”, o quarto filme do realizador e o segundo sobre música, não é apenas um retrato do rock no começo da década de 70. Com personagens cativantes, o filme fala sobre a magia que a música exerce sobre todos nós, como ela nos une e o quanto ela faz parte das nossas vidas. Jimmi Hendrix, The Who ou Jethro Tull são algumas das presenças emblemáticas da banda sonora. Stillwater é a banda criada por Cameron Crowe, numa ficção que gira em torno de uma digressão na década de 70.

Crowe diz que “Quase Famosos” é a sua “carta de amor” à música e à família que encontrou no rock and roll antes de adaptar o seu romance de 1982, “Fast Times na Ridgemont High”, para o grande ecrã e escrever e realizar “Say Anything” (1989), “Singles” (1992) e “Jerry Maguire” (1996). Todos estes filmes baseiam-se na vida de Crowe e no seu amor pela música, mas “Quase Famosos” mergulha profundamente no tempo em que o rock and roll reinava: uma época em que as hormonas saltavam, o amor doía mais, e as estrelas de rock eram deuses. “Honey, it’s all about drugs and promiscuous sex” refere a mãe de William.

A figura central de “Quase Famosos” é o jovem jornalista que acompanha a digressão dos “Stillwater”, William Miller. William tem 15 anos é inteligente e honesto. Por sorte é contratado pela revista “Rolling Stone” para fazer um perfil de uma banda de rock em ascensão. A revista não faz ideia que ele tem 15 anos. Agarrando o lápis e o caderno como talismãs, telefona para um crítico veterano em busca de conselhos e mergulha na experiência que vai defini-lo e moldá-lo. “É como se o Huckleberry Finn voltasse à vida na década de 1970 e, em vez de apanhar uma jangada no Mississippi, entrou no autocarro com a banda.”(Roger Ebert)

Moldado pelos valores ferozes da sua mãe, que o leva ao concerto que vai mudar a sua vida, e o deixa com o mantra “Não uses drogas!”, o personagem William e a história são baseados na vida de Cameron Crowe, diretor e argumentista do filme, que na verdade era um escritor adolescente da “Rolling Stone”, e que sabe o quão sortudo era. O tema da primeira reportagem de William para a “Rolling Stone”, a banda fictícia Stillwater e o seu percurso no filme são, na verdade, uma mistura do que Cameron Crowe viveu ao lado de Led Zeppelin, Allman Brothers, Lynyrd Skynard, The Eagles e The Who durante os primeiros anos da década de 70. No filme, depois de ter tomado LSD numa festa, o guitarrista da banda sobe ao telhado de uma casa e grita “Eu sou um deus dourado”. Na vida real, a frase foi dita pelo vocalista do Led Zeppelin, Robert Plant, no topo de um hotel em Los Angeles. Em outra cena, uma forte tempestade faz com que o avião em que os Stillwater estão a viajar enfrente problemas. Achando que ninguém fosse sobreviver, os passageiros começam a falar sobre o seu passado, revelando segredos. Isso aconteceu na realidade com os The Who, quando estavam em digressão pelos EUA. Cameron Crowe acompanhava a banda para uma reportagem.

A 1 de janeiro de 1973, Crowe, de quinze anos, um estudante precoce da University High School, em San Diego, realizou um sonho: entrevistou Poco para a “Rolling Stone”. Poco, a banda liderada por Richie Furay, mais conhecido como membro de Buffalo Springfield, com Neil Young e Stephen Stills. Crowe, a décadas de distância de trabalhar com Tom Cruise num filme que foi um êxito de bilheteira, foi mais conhecido, pelo menos entre seus amigos, por ter pressionado a “Rolling Stone” a pagar 350 dólares pela sua primeira reportagem. Depois de mais algumas reportagens, o editor da revista “Rolling Stone”, Jann Wenner, escreveu a Crowe uma carta de encorajamento: “Quem sabe, podes tornar-te o homem mais jovem da “Rolling Stone”. As palavras eram proféticas. Crowe, que mentiu sobre sua idade para cumprir a sua primeira missão, continua a ser o correspondente mais jovem da revista desde a sua estreia em 1967. Como jornalista de rock, Crowe entrevistou Led Zeppelin, Allman Brothers, Yes, The Who, David Bowie, Elton John, Peter Frampton, Lynyrd Skynyrd e a maioria dos músicos do rock, e tudo antes de completar 20 anos. Não é por acaso que Quase Famosos está repleto de músicas desses músicos. Para Crowe, é a banda sonora dos seus primeiros anos de vida. Desde 78 que o realizador faz uma mixtape por mês, uma espécie de diário.

Como no filme, a mãe de Crowe, Alice, uma professora universitária, não permitia que o rock and roll fosse tocado na sua casa: “The thing about my mom is that she thought she was cool. She wasn’t going to buy this tripe from rock bands trying to pull a fast one on her. She got so pissed off when Simon and Garfunkel sang ‘Mrs. Robinson’ on The Smothers Brothers Show that she wrote a letter to the head of NBC calling it a glib, exploitative disgrace. Rock was smuggling in shit disguised as candy.”

A irmã mais velha de Crowe, Cindy, guardava álbuns clandestinamente debaixo da cama; deu-os a Cameron quando saiu de casa para a faculdade. São esses os álbuns que aparecem no filme, na cena em que William está no seu quarto. Gravou várias vezes essa cena com os álbuns em diferentes ordens, mas Pet Sounds (Beach Boys, 1966) estava sempre em primeiro lugar. Esse álbum é a coisa “triste mais doce” que o realizador já ouviu. Este filme é triste e doce também. Cameron diz que nunca poderia aspirar a fazer um filme tão profundo e intenso quanto Pet Sounds, mas que podia fazer um filme sobre como é ser fã de Pet Sounds.

William vive a fantasia de muitos adolescentes: perde a virgindade com um trio de groupies. Apaixona-se por Penny Lane (Kate Hudson), a rainha das groupies que é irremediavelmente devotada a Russell, mesmo quando ele a troca por cinquenta dólares e uma caixa de cerveja num jogo de pôquer.

Cameron Crowe, que também escreveu “Say Anything” (1989) a sua estreia na realização, é capaz de abordar com facilidade sentimentos e memórias da adolescência. No autobiográfico ”Quase Famosos” o ambiente dos bastidores de espectáculos de rock, é muito diferente do universo de Seattle em ”Say Anything”, mas os personagens interpretados por Patrick Fugit (William Miller no primeiro) e John Cusack (Lloyd Bobler no segundo) podiam ser gémeos que tentam ser fiéis a si mesmos. Ambos os personagens têm ambições de carreira que não são consideradas respeitáveis (querer ser um crítico de rock não é muito melhor do que se tornar um kick boxer, aos olhos dos pais). Ambos são tão consumidos pelos seus sonhos que ignoram as ambições convencionais. Ambos se apaixonam por raparigas aparentemente inacessíveis, embora Lloyd Dobler tenha a sorte de Diane também o amar.

“Say Anything” é o único filme que Crowe considerou fazer uma sequela. Mas depois viu “High Fidelity” de Stephen Frears (2000) e disse que esse filme era a sequela. O personagem de John Cusack, Lloyd de “Say Anything”, ia crescer para ser Rob em “High Fidelity” (também interpretado por John Cusack). Mas para mim, é quase impossível pensar em “Quase Famosos” sem me lembrar de “High Fidelity” e vice-versa.

Rob é proprietário de uma loja de discos usados em Chicago e acabou de terminar uma relação com Laura, a sua mais recente namorada. Não conseguem manter uma relação. Ainda magoado, faz uma lista das suas cinco melhores namoradas e exclui Laura. Mais tarde, abandonado numa ponte com vista para o rio Chicago, lista os cinco principais motivos porque sente a sua falta. Os principais elementos de decoração no apartamento de Rob são as estantes de madeira para os seus álbuns de vinil em ordem alfabética. Rob é o narrador do filme, guiando-nos pelo seu mundo, falando diretamente para a câmara, com pena da sua própria situação, por ser incapaz de se ligar permanentemente a uma mulher, talvez porque a sua atenção está noutro lugar. Mas em quê? Ele não é obcecado com o seu negócio, ele não é tão louco por música como os seus amigos, e ele não está a pensar na sua próxima namorada. Geralmente está deprimido por causa da última. Parece estar preso no papel de amante rejeitado e nunca gosta tanto de uma mulher como quando ela o deixa. Este é um filme sobre e para, não apenas obcecados por lojas de discos, mas para todos os comerciantes e frequentadores de todo o tipo de lojas apelidadas de “alternativas”. Podem não se rever nos personagens mas reconhecerão pessoas que conhecem.

“High Fidelity” não tem nenhum significado profundo, acompanha o ritmo da vida de pessoas que podem ser nossas amigas, mostra como a música pop é uma banda sonora para a autobiografia de todos, apresenta-nos Rob e faz-nos esperar que ele encontre a felicidade e faz-nos sair do cinema feliz. E é precisamente isto que nos acontece com William em Quase Famosos.

“Quase Famosos” é um agradecimento de Cameron Crowe. William Miller não é um adolescente alienado, mas um miúdo que teve a sorte de ter uma mãe maravilhosa e uma óptima irmã, de conhecer a estrela do rock certa em Russell, e ter o tipo de amor, em Penny Lane, que o vai preparar para o futuro e lhe dará uma compreensão mais profunda dos mistérios das mulheres. Olhando para William com o seu gravador a tentar conseguir uma entrevista, telefonando desesperadamente para Bangs em busca de conselhos, apavorado enquanto Ben Fong-Torres reclama de prazos, desesperado quando parece que sua história será rejeitada, sabemos que estamos perante um adolescente que tem as coisas certas e vai longe.

Um dia ele até pode vir a realizar um filme como “Quase Famosos”.

(Imagens: “Quase Famosos”)

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