Leituras

France. Cannes. Gucci. Cruise. 2018.

Rosa, Senhora não é.

por Isabella Voltinhas

É o segundo dia de Verão, está aberta a época de casamentos, das piscinas, dos mergulhos, de banhos de sol, tardes longas e jantares em esplanadas.

Rosa internou-se numa instância termal este fim de semana. Gostava da designação: “internar-se” em vez de hospedar-se. Era disso que se tratava quando se pretendia um intervalo da realidade. Assim pensou e assim fez.

Depois de se instalar no quarto, tirou da pequena mala o seu biquíni metalizado e vestiu-o. Foi com o prazer da transgressão que se olhou ao espelho. Este devolveu-lhe a imagem de uma mulher demasiado loura e demasiado bronzeada para a época do ano e da sua vida, pulseiras douradas nos pulsos já ossudos dos seus setenta anos bem avançados, a condizer com o biquíni que lhe deixava quase todo o corpo enrugado à mostra. Sorriu e retocou o rímel. Adorava ignorar as normas do bom gosto.

Avançou para a piscina exterior, chapéu de palha na cabeça e óculos de sol com brilhantes. “Antes muerta que sencilla”, como diziam nuestros hermanos. Rosa devia ter nascido espanhola.

Passou o dia a banhos, de água e sol. De cima para baixo, de baixo para cima, piscina afora. Cabeça debaixo de água, a tentar absorver através da pele o azul mimetizando o mar. Cabeça de fora, bebendo cocktails a horas que alguns diriam impróprias para uma senhora. Mas senhora, Rosa não é.

Rejeita a designação. Repudia-a, se preferirem.

Sempre achou que a palavra, na aparência destinada a definir a personificação do eterno feminino elegante, era só mais uma forma de adestrar, domar uma mulher. Impedi-la de fazer e dizer o que lhe apetece. De ser ela própria.

Claro que quando a usam, disfarçam. Mas era isto. Mais uma mordaça, mais um açaime. Um estatuto que devemos almejar mas só quando é conveniente aos outros. Para Rosa isto era tão mais cristalino quando usavam o termo para criticar uma mulher. É o derradeiro golpe: fulana não é uma senhora. A “senhora” define-se, na verdade, por oposição. Fala-se que isto ou aquilo não é de “senhora”, ninguém diz afinal o que pode fazer uma senhora. É como se tal criatura fosse mítica, uma espécie de unicórnio alado ou, mais prosaicamente, um animal em vias de extinção.

Rosa cresceu a ouvir dizer uma menina não fazia isto, uma menina não fazia aquilo. Uma espécie de treino para a senhora que – esperavam eles – depois a menina viria a ser. Uma menina não levanta as pernas, uma menina não se atira ao chão, não bebe, beberica; não come, petisca, não fala alto, murmura. Muito menos arregaça as saias, à saída do colégio, para mostrar a pernas, mete-se em corridas ou salta para o mar de escarpas altas como os rapazes. Isso são as garotas, não as meninas.

Hoje está internada nas termas, mas na verdade quer é sol e banhos de piscina. As termas foram só uma desculpa. Bebe e fuma como lhe apetece. São umas termas à antiga e há espaço para hábitos pouco higiénicos como estes, graças a deus.

A tarde chega ao fim e Rosa está sozinha no bar. Já se habituou a isso, afinal a vida – e ela própria – não a tinham conduzido a projectos mais amenos. A sua condição era solitária.

Ao segundo copo de champanhe sente-se a flutuar numa nuvem de cor-de-rosa, a cor mais feminina de todas, aquela que, de tão feminina, muitas mulheres rejeitam. Champanhe rosé, lábios rosa de batom, vestido rosado. Apeteceu-lhe. Só os cigarros não são cor de rosa. Até para Rosa seria um pouco demais.

Enquanto faz o que lhe apetece, numa vertigem hedonista que deseja fazer perdurar o mais possível, espreita pelas janelas da varanda onde se encontra e vê uma noiva na sala adjacente.

Obviamente há um noivo mas, como quase sempre nestas ocasiões, eclipsa-se. Quase um acessório da estrela principal, a jovem mulher vestida de branco, cujo olhar amoroso a fotógrafa de serviço quer eternizar. Tules e rendas brancos a roçar os veludos cor-de-rosa que decoram a sala.

Rosa sente-se uma voyeur, não resiste a casamentos. E espreita outra vez. Desta feita, surpreende um olhar amoroso daquele noivo, um homem perfeitamente banal, para a sua noiva. E ela deixa-se abraçar. Naquele momento, não se importa que lhe amassem as saias de tule. É bonito. Mas a fotógrafa não quer nada com a espontaneidade. E parece determinada a que a noiva se porte como uma “senhora”. Rosa ouve-a dando instruções “olhem um para o outro com ar apaixonado”. Aparentemente, não percebeu que o olhar estava lá, ela é que não soube vê-lo e teima que o olhar apaixonado ocorra enquanto a noiva está em pose de senhora, vestido e bouquet muito direitos, batom retocado, a olhar de esguelha para o noivo, numa pose tão pouco natural como o bronzeado de Rosa.

Quando os vê sair da sala, deslocando-se, supõe, para o local da festa, vem-lhe à cabeça a letra de uma canção pirosa, já muito antiga e da qual ninguém se deverá lembrar: “A Igreja estava toda iluminada, muita gente convidada”, assim cantava um trio talvez já desaparecido.

Estranho tema musical para recordar da varanda onde está e donde não se vê qualquer igreja. Mas são os verões passados que se lhe entranham na memória, esses que também eram arraiais e festas de aldeia.

Não para as senhoras, claro. As senhoras não apreciam, muito menos frequentam, essas coisas popularuchas. Se calhar passeiam-se por salas de espelhos e dançando minuetes. Mas às raparigas, de quando em vez, perdoava-se o gosto por uma festa popular. Havia de passar-lhes com a idade e tudo se resolveria.

Às raparigas – ou melhor, às mais afortunadas delas – eram permitidas idas a arraiais e namoricos. Amores de Verão. Os amores que não acontecem enquanto se beberica uma bebida cor-de-rosa numa varanda de hotel.

Acontecem quando enterrámos os pés descalços na areia, bem enterrados para olharmos fixamente para as estrelas. Quando bebemos cerveja, apesar de odiarmos, porque não há mais nada no bar de praia que queiramos beber e o hálito do nosso objecto de desejo já tresanda a fermento.

Acontecem quando nos enrolamos na areia, nas dunas, em câmara lenta como na TV. Cabelos húmidos, encrespados pela maresia. Cigarros apagados pelo vento. Frio que já não se se sente com o calor dos beijos e mãos desajeitadas à procura de pele entre a roupa.

Acontecem, para as raparigas, nas dunas, debaixo das estrelas, como na TV, juras de amor. Nunca te esquecerei, diz-se. No fim do Verão as despedidas de olhos marejados, sem sabermos se as lágrimas são por aquele amor ou pelo fim anunciado da mais bela das estações.

Semanas depois ainda se troca correspondência com aquele rapaz lindo, de olhos pretos e pestanudos, corpo alto e forte, como uma paixoneta de Verão deve ser. Ele continua a escrever. Não quer aceitar que o Verão acabou. Rosa também não queria.

Os amores de Verão das raparigas eram pautados por severas e solenes advertências sobre a sua frágil condição. “Uma rapariga não é um rapaz”, diziam. “Há certas coisas que, para as raparigas, são irreversíveis”, repetiam. Uma rapariga não deixa que o seu amor de Verão encoste a cabeça às suas pernas à beira da piscina, repreendem-nos com aspereza. E assim se suja a inocência dos primeiros ensaios amorosos.

Mas o diabo não dorme, e a rapariga esquecia a repreensão quando sentia o hálito quente do seu amor de Verão a soprar-lhe os caracóis da nuca. Quanto mais o seu amor de verão a tocava, e o sangue fervia, quer lá saber como se deve portar uma rapariga. Queria sentir e fazer sentir. Queria ser uma mulher.

Rosa pensa em tudo isto enquanto continua a bebericar, pensa ainda na noiva vestida de branco pristino e em quantos amores de verão terá ela vivido.

Os amores de verões passados estão agora enterrados na areia. Mas que que bons foram, pensa. E serão igualmente bons os futuros. Rosa só tem de voltar a enterrar os pés na areia e lembrar-se que não é uma senhora.

Termina a bebida e, mentalmente, pede desculpa à falecida mãezinha por não lhe ter dado o gosto de tornar-se uma senhora e por continuar a adorar o Verão.

Para o ano, em vez das termas, estará em Benidorm. Ela, no seu biquíni metalizado, peles ao sol e pés enterrados na areia. A Senhora continuará no Céu.

(foto: Only Human, Martin Parr, Phaidon, 2019)

(Imagem em destaque: Martin Parr, Gucci Cruise Collection 2019, Lookbook)